sábado, 11 de setembro de 2021

ISTO É TÃO INÊS | Síndrome do Impostor


Gosto muito de uma canção da Amália em que ela confidencia que, todas as noites, dorme acompanhada: pelo medo. O poema, na verdade, é da origem de Reinaldo Ferreira, mas é na voz dela que ganha vida a canção sobre uma emoção que, também ela, parece ter corpo e pulsação. 

Recordo-a sempre que me cruzo com a minha companhia: a Síndrome do Impostor. Uma companhia que, ao que parece, se desdobra em milhões e assombra a mente de tanta gente. 

A Síndrome do Impostor mora comigo e, numa meta-análise exaustiva, consigo traçar um milhão de caminhos e razões que me levam a encorpar este sentimento: o facto de ter a perceção que, no mundo, existem milhares de milhões de pessoas capazes de fazer o que eu faço, ou melhor; o facto de eu querer ser sempre a pessoa com menos conhecimento numa sala; o facto de ser insegura com algumas das minhas capacidades.

Diminuo muito do que faço, não sei aceitar elogios e penso sempre por baixo. Já perdi a conta das vezes em que isso me prejudicou, e quando a Síndrome do Impostor me deixa sossegada uns instantes, observo com clareza que não havia razão para me diminuir. Mas no olho do furacão, tudo parece enevoado. E mesmo a olhar para o chão, não tenho qualquer perceção da minha grandeza.

Há uns dias, quis reproduzir a receita de arroz doce da minha avó. Ela ensinou-me passo a passo, deixando-me mexer e participar no processo para sentir todas as texturas, para perceber quando estava no ponto, para me familiarizar com a receita. Comprei os mesmos ingredientes, mas desta vez aventurei-me a solo. Ficou ótimo, delicioso. Mas não ficou igual. 

É que ninguém faz arroz doce como ela. Isto é uma referência muito comum na culinária, o ingrediente amor. É uma ideia quase etérea mas que combate muito bem a Síndrome do Impostor: é que não importa só a técnica, o conhecimento, as bases, o know-how. Há o saber fazer, e há o como se faz, e este ‘como’ nunca é apenas funcional. Ninguém faz arroz doce — e outras receitas — como a minha avó, e essa é a razão pela qual os vizinhos batem à porta a pedir-lhe uma taça. E assim como a minha avó é única a fazer arroz doce, também todos nós temos uma forma de fazer que não prima pela (só) técnica nem pelo protocolo: é porque é feito por nós e não é reproduzível, mesmo quando passível de copiar. 

É difícil dar forma a esta impressão digital que marca o que fazemos? É. Mas a Síndrome do Impostor é igualmente vaga e disforme, sem rosto, feitio ou engenho. É tão vaga quanto aquilo que nós fazemos e que nos torna bons e inimitáveis. Mas nós damos realismo à Síndrome do Impostor. Porque não dar realismo à nossa impressão digital? Pode ser pelo empenho, pode ser pelo amor, pode ser pela nossa assinatura invisível, que deixamos em tudo o que fazemos e que não é palpável, mas é percetível. É o que nos torna únicos. E é o que expulsa o impostor, mesmo que o medo, tal como a Amália canta, continue a morar connosco.

quinta-feira, 9 de setembro de 2021

SÉRIES | Only Murders In the Building


O que é que um diretor falhado da Broadway, uma jovem introvertida e um ator que vive na sombra do seu sucesso têm em comum? Para além de serem vizinhos, partilham uma obsessão por podcasts de true crime. E é precisamente um estranho homicídio no seu prédio que vai unir estes três protagonistas improváveis. 

Only Murders In the Building é a nova série disponível na Disney+ que, além de toda a atmosfera de mistério e crime, aborda dois temas que dão alguma frescura e inovação a um género tão saturado nas produções para televisão: a popularidade dos podcasts de crime — uma tendência muito atual — e o universo dos vizinhos, com quem convivemos, às vezes, apenas separados por uma parede mas tão pouco sabemos sobre eles. O segredo do que está para lá das portas que são iguais em todos os corredores, que vidas é que se escondem em cada andar é um mistério que nos assola em qualquer escadaria ou elevador de um prédio, e a série explora esse imaginário com alguma graça. 

Apesar de ainda só ter disponíveis 3 dos 10 episódios — e de a espera ser um pouco longa, na minha opinião, e vocês já sabem que não sou assim tão impaciente — Only Murders In the Building tem sido a série que me acompanha ao pequeno-almoço, com um elenco muito original e uma edição muito interessante, cómica no ponto certo, teatral quando necessário e dramática sempre que se justifica. Esta é uma partilha precoce, mas que me tem entusiasmado tanto que não me importo de a recomendar já!

segunda-feira, 6 de setembro de 2021

LIVROS | Eat Up!


Um dos aspetos que acho mais interessantes e fundamentais da alimentação é o seu caráter social. Confesso que era um elemento que eu esperava que fosse mais vezes abordado ao longo do meu curso de nutrição, que tantas vezes teve um foco (essencial!) na componente técnica, científica e fisiológica, e que outras tantas vezes esqueceu a componente social. Existem uma série de aspetos que gravitam o ato de nos alimentarmos, entre eles a componente interativa das refeições (porque não nos alimentamos apenas para sobreviver, ou, se apostássemos em políticas de segurança alimentar em vez de as ignorarmos, ninguém seria submetido a tal condição) e a influência económica e cultural na nossa rotina alimentar. 

O Eat Up! procura explorar este lado mais social, cultural e económico da nutrição. Numa narrativa muito acessível e próxima, Ruby vai dedicando cada capítulo a um aspeto do nosso quotidiano ou da atualidade que influencia os nossos comportamentos à mesa. Desde a comida de conforto à dicotomia do slow fashion no acesso de roupa a mulheres que não estão dentro do padrão económico ou fisionómico, passando pelo contexto histórico de alguns alimentos e até regimes alimentares. 

Sou suspeita, mas este livro foi uma lufada de ar fresco que gostava de ter lido durante a minha fase académica na Faculdade. Oferece a visão social e comportamental que eu esperava ter encontrado nos conteúdos programáticos e que eu acho que, enveredando para uma prática clínica ou de contacto com o público, é fundamental. Não podemos esquecer que, atrás dos cálculos e dos planos perfeitos de ""pão com ar"", existe uma pessoa do outro lado que, além de precisar de energia para sobreviver, também faz da alimentação uma extensão dos seus valores, idiossincrasias e mundividências. Sempre disse que os pratos na mesa são uma troca silenciosa de culturas e personalidades, e Ruby Tandoh não só compreende na perfeição o que quero dizer, como o conseguiu escrever com uma eficácia admirável.

WOOK

Bertrand

Este artigo contém links de afiliado.

sábado, 4 de setembro de 2021

ISTO É TÃO INÊS || Terminei o meu Five Year Journal


Lembro-me com uma precisão inesperada do dia em que preparei este artigo para vocês a comunicar que ia iniciar um Five Year Journal — e a ensinar-vos como podiam fazer o vosso. Em setembro de 2016, imediatamente após a minha licenciatura, comecei esta jornada com as expectativas controladas, principalmente porque nunca tinha mantido um diário ou feito um projeto de continuação diária. 

Neste bloco de notas, respondi todos os dias, durante 5 anos, às mesmas questões e, além de encapsular a fase mais conturbada da minha vida, também observei a minha evolução natural. É muito difícil pensar onde vamos estar daqui a cinco anos, e mais audacioso é fazer um projeto que implique uma rotina para tanto tempo, mas este bloco esteve na minha mesa de cabeceira todos os dias e, antes de me deitar, respondia a uma questão até se tornar num hábito. Quando não o tinha por perto, respondia às questões no momento de regresso. 

Para mim, um dos segredos para este Five Year Journal ter resistido ao tempo — e à rotina — com sucesso foi a elasticidade das perguntas. É tentador preencher todas as páginas com perguntas profundas, que denunciem quem já fomos no passado, mas a verdade é que não estamos inspirados (ou para aí virados, sinceramente) para embarcarmos numa viagem dessas todos os dias. As páginas do meu Five Year Journal iam intercalando perguntas mais interessantes e introspetivas com as mais corriqueiras e ágeis, que não denunciam muito sobre quem sou mas revelam algo sobre a época em que vivi (e que, por isso, são igualmente interessantes. Uma das que recordo era o que dizia a manchete do jornal desse dia). E isto, para mim, é viajar no tempo. 

Na primeira folha, fiz uma breve apresentação de mim própria, em 2016. Aquilo que fez sentido para mim, na altura, de escrever e partilhar. Nunca mais li essa folha até ter terminado o journal e apenas depois de ter feito o mesmo exercício na última folha, agora em 2021. Quando comecei este projeto, pensei várias vezes no que estaria a escrever naquela última folha: será que seria exatamente igual? Será que ia pensar sobre o mundo da mesma forma? Será que as minhas respostas iam ser sempre iguais? Será que ainda ia ter um blog para falar sobre a experiência? Se a encontrasse hoje, iria gostar dessa Inês? O que é que eu estaria a fazer? Estaria feliz?

A sensação é de que passou uma vida entre nós. Perdas muito dolorosas, um transtorno de ansiedade que fez uma fossa profunda e quase me levou ao abismo. Dentro daquelas páginas, senti-me perdida, feliz, impaciente e esperançosa. Em muitas ocasiões, não respondi o que achava que iria responder (como, por exemplo, quando a Laika faleceu no dia do animal de estimação e a pergunta desse dia era ‘Quantos animais de estimação tens?’. A vida, às vezes, consegue ser dolorosamente irónica). Mas em tantas outras perguntas, eu dei por mim positivamente surpreendida, respondendo com uma alegria, esperança e vivacidade que, nas linhas acima, não reconhecia (como quando respondi a uma questão a dizer que nunca conseguiria fazer uma coisa e, no ano seguinte, estava a responder que tinha precisamente conseguido fazê-la). 

Acho que é isso que me fez adorar tanto o Five Year Journal: é um reflexo muito fiel da vida tal como ela é. É monótona e surpreendente, dececionante e extraordinária. Aborrecida umas vezes, deliciosa noutras. Mas nunca é o que esperávamos. E ainda bem. 

Não sou mais a Inês de 2016. Desconfio que ela iria gostar muito de mim — até acho que sentiria uma pontinha de inveja — e sinto que terminei este journal a abraçá-la, a agradecer-lhe por ter tido esta ideia, e a levar comigo uma grande lição: tudo é possível de acontecer em 5 anos e, embora pareça que o tempo segue imutável e lento, grandes transformações vão acontecendo dentro (e fora) de nós.

Gostei tanto que já quero fazer mais um (aproveitando que o hábito já está enraizado). Desta vez, a começar em Janeiro e, uma vez mais, com as perguntas totalmente personalizadas por mim. Agora que já tenho a experiência, irei reaproveitar algumas questões e introduzir outras tantas que me foram surgindo e que acho mais interessantes (mas mantendo a estratégia da diversificação). Lembro-me de muita gente, na altura, ter aderido e desejado participar. Hoje, não sei se seguiram firmes no registo, mas se desistiram a meio do caminho ou se nunca fizeram e gostavam de experimentar, eu recomendo com o coração inteiro. Façam, criem essa rotina, não desistam. É uma das cápsulas do tempo mais especiais que tenho na minha vida. Obrigada, Inês. Juro que estou feliz.

quarta-feira, 1 de setembro de 2021

 


Agosto é sempre a anfitriã perfeita do verão; chega quando a festa já tem vida, calor e energia, e vai embora no timing certo, nem um minuto a mais, nem um minuto a menos. Despede-se sem obedecer aos que lhe pedem para ‘ficar mais um bocadinho’. É sempre assim que simbolizo agosto: completo, protagonista, rico em momentos de verão. Revemos alguns?

terça-feira, 31 de agosto de 2021

LIVROS | The Interior Design Handbook


Nos últimos anos, tenho explorado mais os meus interesses complementares. Aqueles que sempre manifestei de uma forma velada, sem nenhuma razão em particular. Um deles é o design de interiores e a decoração, duas áreas pelas quais tenho imenso interesse, curiosidade e zero projeções profissionais. As nossas paixões todas não têm de ter um propósito profissional/comercial para existirem ou serem exploradas, e embora a minha geração viva muito sob este pilar, eu admito que já o abandonei há algum tempo. 

Como ponto de partida, explorei o The Interior Design Handbook, de Frida Ramstedt. Por estar familiarizada com o trabalho da designer e por gostar da premissa simplificada do livro, senti que seria o manual perfeito para aprender novos conceitos e consolidar aqueles que, intuitivamente, já havia adquirido. E acertei. 

The Interior Design Handbook tem como base a decoração de interiores escandinava — a minha preferida! —, mas os capítulos abordam os conceitos mais genéricos e basilares da decoração de interiores, com espaço para vários temas: contextos históricos, princípios e regras-base do design, correntes decorativas e orientações de cor, arte e decoração. 

Se o vosso objetivo for adquirir um livro de design de interiores para fazer de coffee table book cheio de fotografias inspiradoras, vão ao engano. Este é um livro técnico e onde as imagens são gravuras com o propósito de ilustrar os conceitos e princípios que a designer vai partilhando, tal como um manual. O fator extraordinário deste livro é que aproxima o design de interiores a qualquer pessoa que tenha interesse em tornar a sua casa mais bonita, personalizada e acolhedora. O livro afirma como missão fazer-nos pensar como um designer de interiores e acho que o cumpre com distinção. 

Tenho consultado com regularidade desde que o recebi, e vou aplicando os seus princípios e estratégias nos meus espaços. É, sem dúvida, rico em informações úteis e adaptáveis a várias casas, estilos e preferências. Recomendo!

WOOK

Bertrand

Este artigo contém links de afiliado.

domingo, 29 de agosto de 2021

SÉRIES | The Good Doctor


Não é nenhuma novidade, mas esperei até que chegasse a um canal de streaming para conseguir acompanhar a história deste o início. Inspirada numa série homónima coreana, The Good Doctor apresenta-nos Shaun Murphy, um jovem cirurgião promissor que tenta conquistar o seu lugar (e respeito) por ter uma Perturbação do Espectro do Autismo, nomeadamente, Síndrome de Savant (uma das várias facetas possíveis do autismo onde a pessoa tem uma grande capacidade intelectual para memorizar e orientar-se espacialmente). 

Esta é uma premissa original e que tenta quebrar as tantas barreiras e preconceitos associados ao autismo. Embora, com o decorrer dos episódios, a história seja capaz de evoluir naturalmente e de ramificar para outros desafios e assuntos, o tema sobre o autismo é recorrente (umas vezes como assunto central, outras vezes de forma mais indireta) e mesmo que seja possível que muitas situações da série sejam irrealistas ou generalizadas, esta é uma história que inspira, informa e tenta dar um passo rumo à inclusividade enquanto desempenha a sua função primordial: entreter. 

Embora ainda não tenha terminado a série, os episódios são muitos apetecíveis de acompanhar e cada um passa num sopro. Gosto da construção das personagens e de acompanhar a sua evolução (não é o tipo de série onde só o protagonista tem uma curva de aprendizagem/evolução). Não tenho grandes certezas em relação à fidelidade da prática médica na série — no único episódio em que consegui percecionar isso (referente à nutrição clínica e aos transtornos do comportamento alimentar) eu revirei muito os olhos e quase quis saltar para o ecrã, confesso — mas tenho um espacinho no meu coração para dramas-médicos e este ocupa um desses lugares.

sábado, 28 de agosto de 2021

PASSAPORTE | Museu do Brincar


Desejar ser criança, mais uma vez. Porque a infância também tem um lado especial pelos brinquedos que a protagonizaram. São, aliás, um dos artefactos históricos que mais gosto de encontrar em museus, principalmente noutras Eras, já que as rotinas e todos os assuntos que orbitam a infância de antigamente são tão nublados. 

O Museu do Brincar divide o seu espólio em dois espaços — Vagos, o museu principal e com uma área maior, e Aveiro. A minha visita foi apenas ao de Aveiro, mas é possível fazer a aquisição do bilhete conjunto para os dois espaços e o uso é vitalício, podem visitar cada um dos lugares em dias e alturas distintas. É o que farei, num regresso.

sexta-feira, 27 de agosto de 2021

LIVROS | The Princess Saves Herself in This One


Tenho gostado desta onda de poetas emergentes, com poemas sobre temas mais atuais ou prementes, que casam o quotidiano moderno com a poesia. E estava confiante de que The Princess Saves Herself in This One seria mais um exemplo de uma obra que iria entrar nas minhas preferências, mas saí um pouco desconsolada. 

The Princess Saves Herself in This One é uma coleção de poemas por Amanda Lovelace divididos em quatro partes: A Princesa, A Donzela, A Rainha e Tu. Cada uma das partes protagoniza uma fase diferente da autora, e embora os títulos pareçam leves e remetentes a um mundo de fantasia, os temas de cada poema são consideravelmente mais pesados e reais. O luto, o bullying, relações tóxicas e abuso convivem com as passagens mais simples sobre a vida, a literatura e as relações que trazem o melhor aos nossos dias. As minhas partes preferidas foram A Rainha e Tu

Não é um livro de poemas com grande robustez, mas também não concordo com a tendência em desvalorizar criações poéticas mais atuais e simples. Os assuntos são importantes e sentidos pela autora — e, certamente, por muitos leitores — e estes livros aproximam o público da poesia (especialmente quando estão nas primeiras viagens). É um livro acessível para começar este género.

WOOK

Bertrand

Este artigo contém links de afiliado.

sábado, 21 de agosto de 2021

FILMES | Agosto • 2021



Este documentário é um case study que acompanhou três desconhecidos numa jornada rumo ao estatuto de influencers. A premissa era simples: será que qualquer pessoa pode, realmente, ser famosa graças às redes sociais? E se sim, a que custo?
Todo o documentário orbita entre fotografias encenadas, aquisição de bots que se convertem em seguidores, comentários e gostos, e culmina com a ascensão dos três alvos do estudo rumo ao estrelato depois de uma vida inteira de anonimato. Os números crescem e as oportunidades também. Embora revele uns quantos outcomes interessantes, sinto que Fake Famous é um documentário que toca na superfície de um problema que pode ser mais profundo: porque a verdade é que eu, enquanto utilizadora, não encontro apenas pessoas que compram seguidores e encenam fotos. Também vejo pessoas que têm outras estratégias tão graves quanto as mencionadas no documentário e que são feitas de uma forma mais velada. Por ignorância da produção ou simplesmente dificuldade em encontrar um ângulo, não vi esses pontos representados no documentário e esperava que tivessem ido mais além. 
Acho que a compra de seguidores e os cenários falsos já estão datados (continuam a ser muito utilizados, mas os subterfúgios de eleição já não são estes).