segunda-feira, 21 de junho de 2021

LIVROS || Brave New World


Brave New World apresenta uma distopia que parece inacreditável ter sido idealizada nos anos 30. Neste mundo, as emoções são suprimidas para que os seres humanos nunca sintam frustração, melancolia ou insatisfação, e toda a sociedade é manipulada e estruturada ainda antes de cada indivíduo nascer, ao ponto da completa manipulação genética, farmacológica e psicológica.
 
Cada pessoa tem características cognitivas e sociais programadas, criando a ideia de uma sociedade perfeita, produtiva e satisfeita. Uma sociedade controlada pelo governo de forma previsível, segura e orientada, com um compasso moral altamente questionável para nós, leitores, já que as personagens procuram umas das outras apenas relações superficiais e utilitárias, onde as emoções não podem, de forma alguma, entrar na equação (algo que rejeitam com repulsa). Uma sociedade que não se questiona, com exceção do protagonista.
 
Brave New World é um livro pequeno mas desconcertante do início ao fim. Coloca-nos num ponto de desconforto ao desafiar-nos a imaginar um mundo assim. Ao longo da leitura, o peso da mensagem adensa-se ao realizarmos que muitas das ideias partilhadas neste livro não são, para muitos indivíduos da vida real, disparatadas.
 
Foi uma história que me perturbou, não só pela premissa mas também pela própria escrita de Aldous Huxley, muito explícita — algumas vezes até demais, não deixando as personagens 'ganhar vida própria' para nos mostrarem como são através da nuance dos diálogos ou das suas ações. Creio que ficará na minha memória pela sensação de que muitas das projeções deste livro são admiradas. Uma leitura para rebentar a bolha.

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Bertrand

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sábado, 19 de junho de 2021

MUNDO || O Home Office Veio Para Ficar?


O home office foi uma das mudanças-chave da maioria do nosso quotidiano, em 2020, mas esta era uma experiência que já tinha vivido anteriormente — sem estar atrelada a uma pandemia — e que, tal como agora, tenho adorado. Foi com alguma surpresa, confesso, que observo que esta não é uma sensação comum.
 
A fusão do espaço de descanso com a área de trabalho, os horários profissionais dissolvidos e a incapacidade de manter a produtividade com a criatividade e vigilância para cuidar dos filhos em casa têm sido o pódio principal de razões para que tantas pessoas desejem regressar aos seus postos de trabalho, a par da necessidade de troca de ideias pessoalmente, entre equipas e colegas. Mas sinto que, em alguns pontos, a pandemia prejudicou toda perceção do potencial do home office e acredito que voltemos a regredir em inúmeros aspetos — pelo menos, em Portugal.
 
Muitas pessoas não experimentaram, na verdade, um home office e sim um confinamento no qual as suas casas foram locais de trabalho, lares, cantinas, creches, ATL’s, prisões e refúgios. Tudo num só lugar, quando sabemos que um só lugar não pode ser tudo. Não podíamos sair e ver amigos, trabalhar num café, espairecer no final do dia, deixar os miúdos na escola. E encarámos este confinamento e limitações da pandemia como uma definição de home office da qual querermos descartar rapidamente.
 
O home office não é isto e nunca foi. Num contexto normal, não há miúdos em casa porque estão na escola, podemos sair de casa, podemos ter reuniões presenciais quando elas assim se justificam, podemos ir ao escritório durante a manhã tratar de alguns assuntos presenciais, ver outros rostos, trocar ideias. O home office não é estático nem limitativo, porque a nossa rotina profissional e pessoal também não devia ser: há dias em que precisamos de trocar algumas palavras, ver as reações imediatas olho no olho, desfrutar um pouco do clima social que um ambiente com pessoas sempre proporciona. Mas também há dias em que nos podemos focar num abrigo mais pessoal e deixar o trabalho fluir na nossa zona de conforto, sem interrupções, sem trânsito, sem deslocações, ao nosso ritmo. Não imagino uma rotina de trabalho mais incrível.
 
Reconheço-me como uma fã assumida de home office. Trabalhar em casa não me aborrece, não sinto barreiras intransponíveis nas alternativas online, adoro não ter de enfrentar trânsito até ao trabalho e sinto que consigo gerir bem a dicotomia de horário de trabalho/descanso e espaço de trabalho/casa. Também sei que tenho do meu lado algumas ferramentas vantajosas, entre elas uma empresa que quis manter os horários de trabalho e que realmente os cumpre, permitindo aos seus funcionários desligar depois de ‘picar o ponto’. Não existem horários cinzentos, chamadas fora de horas nem intromissão no espaço pessoal. Existe também um clima de confiança, onde os resultados falam pela produtividade da sua equipa. Mas compreendo que nem todas as entidades são assim.
 
Também tenho perceção que o home office não funciona para todos os tipos de emprego e que muitos estão a fazer um verdadeiro contorcionismo para continuarem a respirar à superfície. Mas também existem muitos empregos onde é absolutamente possível o home office funcionar, se lhe déssemos uma chance de ver como é a sua dinâmica num quotidiano mais livre e seguro, onde os filhos têm horários, onde podemos almoçar e jantar fora, onde podemos trabalhar onde quisermos sem restrições pandémicas.
 
O home office começou em março num clima de desconfiança pela produtividade dos seus funcionários. Muitos esfregam as mãos precisamente ao verem essas mesmas pessoas a desesperar por regressar ao escritório, depois de uma experiência traumática — a vários níveis — e que acaba concentrada numa definição de trabalho em casa que não é real. Infelizmente, sinto que esta modalidade não irá imperar em muitos espaços de trabalho e estamos a perder uma oportunidade de progresso profissional, onde o colaborador é mais livre e produtivo (porque quem não tinha transparência profissional em casa, também não a tem no escritório, sejamos honestos), onde é mais dono do seu tempo e, por consequência, mais satisfeito. Se o home office em Portugal é perfeito? Não, mas é na consistência que se vai melhorando e que, ao seu ritmo, as empresas vão cada vez mais adaptando a sua dinâmica a esta realidade. Mesmo sabendo que nem todas as empresas, pessoas e rotinas têm perfil. condições e recursos para um home office (e compreendo inteiramente), tenho pena que, de uma forma generalista, não estejamos a dar ao teletrabalho a oportunidade que realmente merece para prosperar a longo prazo em Portugal.

Qual é o vosso testemunho do teletrabalho? Estão a gostar desta rotina ou desesperados para regressar ao escritório?

quarta-feira, 16 de junho de 2021

LIVROS || The City Baker's Guide to Country Living


Iniciei esta leitura pouco tempo depois de ter terminado a minha aventura por Gilmore Girls, que deixou a vontade de continuar a pautar os meus serões com uma história leve e quentinha no coração. 

Admito: The City Baker’s Guide to Country Living convenceu-me pelo pequeno selo na capa, dizendo que este livro era 100% Gilmore Girls e não é, de todo, mentira: Olivia, a protagonista, provoca um pequeno acidente no restaurante onde era uma Chef consagrada e foge de Boston para uma cidade pequena, residência da sua melhor amiga, onde tudo é pitoresco e tudo se sabe; os habitantes daquela cidade interagem entre si como se todos pertencessem à mesma família, e tudo obedece a certas tradições e idiossincrasias. E se isto não nos convence de onde a história deste livro é inspirada, a personalidade principal não deixa margem para dúvidas, fazendo-nos trocar as voltas e chamá-la de Lorelai, de vez em quando. 

Estavam reunidas as condições para uma leitura leve e aconchegante, que devorei em pouco tempo pela fluidez de leitura e pela facilidade da narrativa. No entanto, o sensação final que restou desta leitura foi de desilusão. Creio que a inspiração é aquilo que salva e que resgata magia e carisma para uma história que, sem todos estes apetrechos, é expectável, desinteressante e um pouco irritante. Todas as personagens estão balizadas com uma série de traços, comportamentos e pensamentos pouco originais e também pouco humanos, na minha opinião. Nenhuma é devidamente desenvolvida, assim como as relações que Olivia vai desenvolvendo ao longo da história. Todas as dinâmicas apenas existem para servir a protagonista, uma estratégia que roça sempre à preguiça. 

Não é uma história terrível: tem os elementos aconchegantes e fala, de uma forma subtil, sobre amor, sobre irmos atrás das nossas ambições, sobre luto, amizade e sobre sermos mais assertivos nas nossas capacidades. Mas não é um livro inesquecível (tive, aliás, de reler a sinopse antes de escrever este artigo) e serve um propósito muito específico: fazer companhia numa noite de outono, sem agregar muito mais do que isto.

Fotografia: Louise Miller

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segunda-feira, 14 de junho de 2021

 

Ainda vamos a tempo de recordar maio? Os Favoritos chegam com um toque tardio mas repletos de destaques intemporais e simbólicos de um mês que, não sendo incrível nem terrível, passou por mim num sopro.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

FILMES || Maio • 2021


Consegui a proeza de viver mais de duas décadas em completa ignorância de Little Women, a história de quatro irmãs no séc. XIX que inspirou e fez parte do crescimento de muitas meninas, embora tanto o livro quanto o filme só tenham chegado a mim este ano.
Na adaptação de Greta Gerwig, o filme faz a junção dos dois livros de Louisa May Alcott, Little Women e Good Wives — a continuação de Little Women —, através de analepses que vão unindo o passado e presente das irmãs March: Jo, Meg, Amy e Beth.
Sinto que estarei a remar contra a corrente nesta observação (e prometo que a review do livro sai em breve!), mas confesso que gostei mais do filme do que do livro (rara exceção) por um conjunto de fatores, entre eles, a junção das duas histórias, o jogo de cores, música e luzes que nos ajuda a identificar temporalmente onde é que a história e os diálogos estão a decorrer (e também a observar a suave perda de inocência e o amadurecimento das irmãs) mas também pelo sentido de justiça que Greta Gerwig tentou dar à autora, que foi coagida a dar um rumo diferente do planeado à anti-heroína Jo, restando-lhe apenas a opção de matar ou casar Jo para que o livro, na altura, fosse editado (permitir a venda de um livro sobre uma jovem que ficava solteira, feliz e bem sucedida, numa altura daquelas, seria impensável). Se o Timothée Chamalet tem influência para preferirmos o filme ao livro? Deixo a resposta aberta ao público.
 
Ainda hoje estou a tentar compreender como é que o Diogo conseguiu convencer-me a gastar um cartucho de sábado à tarde para ver um filme sobre um meteoro que cai na Terra e provoca uma mutação em praticamente todos os insetos, anfíbios, répteis e aracnídeos, deixando-os gigantescos e provocando o caos. Sinto que a presença de um cão no plot ajudou-me a sobreviver a esta longa metragem.
Se tivesse de descrever este filme numa só palavra seria: salada. A produção tenta agradar Gregos e Troianos, misturando um pouco de todas as fórmulas num só filme: uma história de monstros mas que tenta ser comédia, com a adição de um cão mas, ao mesmo tempo, que tenta ser um filme sobre irmos atrás do amor. Parece confuso? É. Mas a sua superficialidade e algumas piadas mais frescas ajudam-nos a esquecer o verdadeiro caos do mundo real e a mergulhar neste sem demasiados remorsos no final.
 
Raymond Briggs é um ilustrador aclamado pelo público desde que publicou o seu livro ilustrando a história de amor dos seus pais — de tal forma que o livro rapidamente se transformou numa adaptação em filme, animado novamente pelo filho.
Ethel & Ernest não é uma história de amor intensa, com reviravoltas, términos e reconciliações. Na verdade, é bastante real e monótona, mas talvez seja por isso que eu adorei tanto este filme (ao ponto de se tornar num dos meus preferidos): o filme retrata a história de amor cheia de cumplicidade, tolerância e ternura de Ethel e Ernest, tal como ela foi e tal como eu acredito que o amor deva ser.
Juntos, Ethel e Ernest cresceram, amadureceram, viveram etapas de vida juntos, desafios pessoais, o caos da guerra e a evolução exponencial da tecnologia e da sociedade sempre de mão dada e com as únicas certezas de que, para tudo na vida, se tinham um ao outro e uma chávena de chá  — e isso bastava. Para mim, o amor é isto: um companheirismo, uma admiração mútua que não precisa de estar numa montanha russa de altos e baixos para ser intensa, especial e verdadeira. É a perceção de que eles não podiam ter estado com mais ninguém, e que tudo o que eles viveram não podia ter sido doutra maneira. É uma história de amor reconfortante e que me deixou a suspirar.
 
Esta adaptação da Netflix apresenta-nos Anna Fox, uma psicóloga que sobre de agorafobia — uma perturbação de ansiedade que incapacita o indivíduo de frequentar ambientes que não lhe são familiares ou que não lhe trazem segurança, sendo a consequência mais comum o aprisionamento voluntário em casa — e que tenta combater a melancolia e a doença com um cocktail perigoso de álcool, medicamentos e observação da vida dos vizinhos. É durante esse transporte da sua vida para a vida dos outros que a protagonista testemunha um crime — mas será que ela realmente viu o que viu?
 
Este é um thriller que, embora não tenha lido o bestseller que deu origem à adaptação, parece-me pertencer à fórmula atual de thrillers com protagonistas sobre-medicadas, dependentes de álcool ou drogas e cujas suas palavras são constantemente descredibilizadas pelo seu histórico clínico e hábitos de consumo, enquanto que o suspeito nunca é aquele que a narrativa aponta com maior desconfiança. Foi através desta linha que ambos desvendámos o verdadeiro criminoso nos momentos iniciais do filme e, a partir daí, fizemos uma viagem de confirmação enquanto a história cumpria todos os clichés.

A Mulher à Janela não foi um filme que me cativou ou que ficará na minha memória. Procurou forçosamente refletir a sua inspiração nos mestres do thriller (incluindo, naturalmente, Hitchcock) mas sem criar uma fotografia ou edição coesa, resultando em planos ou transições de gravação muito amadores.

Tenho sempre pena que muitos destes thrillers peguem em pontos de partida que, por si só, já são muito interessantes e que apenas os usem a serviço da demência da personagem. Eu gostava de ler uma história sobre o processo de uma personagem a combater a agorafobia de uma forma real e normal. Talvez seja um público de minoria. Vocês sentem o mesmo?

Já assistiram a algum destes filmes? Qual foi o filme que mais gostaram de assistir, em maio?

segunda-feira, 31 de maio de 2021

LIVROS || Before The Coffee Gets Cold


Algures na cidade de Tóquio, existe um pequeno café — outrora popular, agora esquecido pelo mundo — onde é possível viajar no tempo. Essa experiência está limitada por uma série de condições, entre elas a principal: o viajante tem de regressar ao presente antes que o café que lhe é servido arrefeça.
 
Esta é a premissa contada por Toshikazu Kawaguchi através de quatro capítulos que contam quatro histórias de personagens diferentes que, ao longo do livro, se vão cruzando de alguma forma.
 
Before The Coffee Gets Cold deixou um sabor agridoce para muitos leitores pela estrutura da narrativa, densamente descritiva e com pouco espaço para a imaginação; todos os detalhes, todas as cores, todos os pormenores são relatados por um autor profundamente ligado ao teatro e cujo o currículo é evidente na sua escrita (sendo o próprio livro uma adaptação de uma peça de teatro). E embora isso coloque algum distanciamento entre o leitor e as personagens, eu confesso que gostei, senti que a leitura foi mais imersiva (vi e imaginei através da visão do próprio autor) e senti, na mesma, empatia pelas personagens.
 
Aquilo que poderia ser um livro de ficção científica rocambolesco é, na verdade, um realismo com toque de magia que nos fala sobre relações humanas e como a vida mexe com elas. É fácil e rápido de ler, mas há qualquer coisa que fica até muito depois de o pousarmos, uma sensação de que aquelas personagens e histórias não estão assim tão longe de nós, do que reconhecemos. Se a memória não me trai, a segunda e a última história foram, para mim, as mais especiais e que despertaram algumas lágrimas.
 
É um livro para ler enroscado e com uma chávena de chá (ou café). Um livro para nos deixarmos levar pela história e deixarmos a bebida quente arrefecer por esquecimento. Sem consequências.

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sábado, 29 de maio de 2021

MUNDO || Dias de Primavera


A primavera sempre foi uma estação muito esquecida por mim. Sempre representou a contagem decrescente para os dias quentes e declarados de verão. Mas este ano dei por mim a observar a primavera com outros olhos. Talvez por estar mais parada, dou por mim a observar com deleite o passar das estações. As flores a desabrochar, as vinhas a ganhar, de novo, o tom verde brilhante que traz tanta vida e cor à vista da minha janela.
 
Os dias de céu azul combinam com malhas de manhã e um earl grey a aquecer as minhas mãos. Trabalho na mesa da varanda com a brisa fresca e o som dos pássaros, a inspiração que preciso numa fase em que os processos criativos estão — um pouco por todo o lado — comprometidos pela falta de estímulo do mundo.
 
Os raios de sol já são quentes e convidam às estreias; o primeiro banho de sol no jardim que está quase renovado e que se tem convertido no nosso paraíso privado. Há sensações que ficam na minha memória: o cheiro do protetor solar, o chá fresco nos meus lábios, o som do gelo a tilintar no copo. As sestas da Belka mais longas em homenagem ao pôr do sol cada vez mais atrasado.
 
Chapéus de palha, toalhas tiradas dos armários. Tecidos frescos na pele, calçado sem meias. Gelados de sobremesa e casacos ao final da tarde. Músicas mais alegres, caminhadas convidativas, jarras coloridas, passeios de bicicleta, levados pelo vento do Oeste. As leituras ao sol, sentada numa cadeira ou aproveitando a relva de pés descalços. Os almoços à varanda — a nossa esplanada que nunca tem hora de fecho e em que todos os menus do dia são os nossos pratos prediletos. Os limoeiros carregados, as cerejeiras a dar mais flor do que cerejas — como sempre.
 
Aprendi a gostar da primavera por ser tão transparente. É o que é e como é, sem pretensões. Sabe que antecede uma estação popular e, portanto, não tenta esforços em vão. Deixa-se ser, ao seu ritmo, com cor, com vida, com paciência. Com beleza na sua simplicidade.

quarta-feira, 26 de maio de 2021

AMOR || Crescer com Amor


Há muito do amor e das relações que me fascina — mais do que este blog alguma vez viu e mais do que as páginas dos meus cadernos privados guardam — mas talvez a principal seja o processo de amadurecer com amor.

Quando algum casal partilha os seus longos anos de relação — mais do que aqueles que eu orgulhosamente acumulo com ele, contando sem contar — cresce em mim uma admiração não pela duração mas pelas sucessivas relações de paixão que tiveram de crescer dentro desses longos anos de amor.
 
Penso muitas vezes na Inês e no Diogo que apertaram a mão naquela cantina, ainda longe de imaginarem que iriam escrever uma história juntos. Recordo-me dela e recordo-me dele e sei que já não fazem parte de nós. Habitam nas nossas memórias, fotografias e outros registos — analógicos ou digitais — mas já não são quem somos. Já não somos os mesmos. Somos pessoas diferentes.
 
Mas continuamos a olhar um para o outro com a mesma doçura, paciência e cumplicidade. Porque, embora estejamos a crescer e a amadurecer enquanto indivíduos, a ganhar novas perspetivas, sonhos, anseios e versões de nós próprios, também continuamos apaixonados por cada uma das nossas versões.
 
Talvez este seja o segredo, embora seja um segredo difícil de nutrir. Crescer com amor é uma receita que leva dedicação, paciência, empenho, mas há muito toque de acaso, de sorte, de vida. Porque é tão fácil tornarmo-nos versões que fazem sentido para nós mas já não fazem sentido para os nossos parceiros — e vice-versa. Não há um certo nem um errado, apenas o acaso de os caminhos continuarem a ser paralelos, os valores continuarem iguais, as características que te enternecem e deslumbram continuarem lá, a cada versão.
 
Amadurecer e continuar apaixonado, enamorado, é uma jornada bonita. É olhar para ele sabendo que já não é o mesmo — é uma versão melhor dele próprio, uma versão articulada, vivida, mais experiente, mais próxima da sua essência. E é também observar o quanto amadureci, transformei, floresci, sempre com o seu olhar apaixonado e com a sua admiração. É continuar a gostar, admirar e respeitar. É ser diferente, mas o sentimento permanecer igual. Melhor, até.
 
É crescer com amor. Sem que a receita esteja à nossa frente para sabermos em que medida aplicar cada parte de nós. Mas caminhar de mão dada com a confiança de que, para já, temos amado cada uma das versões de nós.

segunda-feira, 24 de maio de 2021

LIVROS || Trick Mirror


São vários os livros bons com que me vou cruzando ao longo dos anos, mas poucos os que verdadeiramente me fizeram abrir a mente, pousar o livro para refletir ou observar um tema sob um novo ângulo. Jia Tolentino ofereceu-me esta experiência através do Trick Mirror, um livro com uma compilação de ensaios sobre a forma como certos assuntos da atualidade têm impactado e influenciado a nossa forma de estar, pensar e desejar. 

Embora seja um livro de leitura recomendada para todos, é uma obra que eu destacaria, sem dúvida, para as mulheres — até porque este é, claramente, um livro escrito de mulher para mulher. Desde a internet e redes sociais, religião, consumo de drogas, assédio, exercício físico, alimentação, literatura, empreendedorismo e até casamento, Jia explora um tema por capítulo tendo sempre como ponto de partida uma experiência pessoal que a fez descobrir o quanto temos, enquanto sociedade, uma ilusão enraizada sobre estes e muitos outros temas.

É uma narrativa muito honesta e com pontos de vista muito frescos. Nem sempre concordei na totalidade com algumas das visões da autora mas consegui identificar que todos os seus ideais e argumentos eram muito válidos — onde, embora não concordasse, conseguia compreender. E acho isso fundamental para termos uma visão mais aberta do mundo, da sociedade e da nossa jornada enquanto mulheres. 

Trick Mirror foi o livro que falou sobre feminismo de uma forma que eu acho necessária, diferente e com uma abordagem muito fresca e pertinente. Mostra-nos como tantos assuntos que damos por garantidos ou desnecessários de dedicar muito pensamento funcionam como marionetas que manipulam a nossa forma de pensar, os nossos objetivos de vida, a nossa perceção corporal, o nosso à vontade com os outros. Foi muito importante conseguir ganhar esta distância e observar como isso realmente acontece e molda-nos. 

É, de momento, o meu livro preferido de 2021 e gostaria de poder fazer-vos chegar a cada um de vocês que está a ler este artigo um exemplar.

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Bertrand

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sexta-feira, 21 de maio de 2021

BOM GARFO || Chirashi


 LISBOA
Será impensável iniciar este artigo sem uma pequena pausa para refletir e comemorar que desde 2019 que não vos recomendava um novo restaurante. O hiato parecia interminável mas quebramo-lo com um regresso às mesas e sabores orientais!
 
Inspirado num prato típico japonês de sushi solto, o nome Chirashi veio dar lugar a três espaços em Lisboa onde se promete comer à mesa os pratos protagonistas da street food japonesa.