quarta-feira, 25 de maio de 2022

PASSAPORTE | Dicas e Factos Sobre a Suíça II


1. Em Zurique, os horários mais comuns de funcionamento são das 9h às 17h30/18h, e a vida só acontece nesse período de tempo. É difícil encontrar cafés, pastelarias ou outros serviços antes das 9h da manhã e, na verdade, este horário não é fiável, já que muitos negócios criam os seus próprios horários. Ao domingo, a maior parte dos museus, lojas e serviços estão encerrados, mas tenham em atenção que à segunda-feira a cidade fica muito parada também, só reabrindo, em muitos lugares, às 11h da manhã de terça. Em geral, senti que Zurique não está adaptada – e não tem interesse nisso – para o turismo, criando os seus próprios horários e rotinas. É importante que se adaptem, se tiverem viagem marcada para lá. 

segunda-feira, 23 de maio de 2022

LIVROS | Home Body


Depois de uma leitura muito pesada e com uma história densa, quis aproveitar uma tarde de sol no jardim para mergulhar num livro mais curto, mais simples. Home Body, por estar mais à mão, foi a escolha. 

Talvez seja importante começar por endereçar que tenho as minhas questões com a Rupi Kaur. Por um lado, acho que ela abriu portas para alguns leitores terem o seu primeiro contacto com a poesia e com a sensibilidade poética. Não consigo concordar com as visões um pouco exageradas – por vezes, elitistas – de que o que ela faz não é poesia, ou que é uma escrita simplista com quebra de linha. Dar a mão aos leitores e levá-los ao mundo (por vezes assustador, inacessível e datado) da poesia é de louvar. A modernidade da literatura passa por diferentes abordagens e a poesia não pode ficar para trás. A sensibilidade poética tem vários contornos, alguns mais suaves e óbvios que outros. Neste ponto, acho que é inequívoco para mim que a Rupi Kaur tem sensibilidade poética e deu o seu contributo pela popularização da poesia numa geração de leitores que a temia.

O meu eterno conflito com esta autora é: quanta dessa sensibilidade poética é sua? Rupi Kaur tem sido sucessivamente acusada de plágio, algo que, sendo eu uma pessoa que escreve (mesmo não sendo uma autora) e que produz conteúdo, inflige uma certa revolta. Ao acompanhar os casos, há sempre uma componente derivativa que protege a Rupi Kaur legalmente, mas moralmente sinto-me muito dividida. 

Ainda assim, Home Body veio parar às minhas mãos e foi uma leitura rápida, tranquila e menos pesada do que os seus outros poemas. Home Body faz uma celebração do corpo, a nossa primeira casa, e da forma como ele nos acompanha em todos os momentos da vida, se transforma, se magoa e sem mantém. A forma como nós tratamos, magoamos, cuidamos, rejeitamos e abraçamos a nossa própria casa. 

Achei uma premissa muito bonita e senti que as passagens procuram, em geral, empoderar quem as lê. Tem uma conotação mais positiva, mais inspiradora, mesmo que alguns dos seus poemas sejam sobre pedidos de desculpa, dismorfia e outros temas que, advirto, podem ser gatilho. Essencialmente, tem um tom de perdão, de reconciliação com o corpo e de homenagem. Tendo em conta que já li os três volumes publicados pela autora, Home Body pareceu-me ser o fechar de um arco de progresso e recuperação de traumas e idiossincrasias. 

Embora os poemas sejam muito bonitos, no geral, senti que não foi um registo muito diferente das outras duas obras – embora, sem dúvida, a mensagem seja mais positiva – e esperava alguma frescura, alguma defesa das mais recentes acusações, uma Rupi Kaur que pegasse na sua arte, na sua sensibilidade e escrevesse uma obra que não despertasse a menor dúvida de que a ponta da caneta não olhou para o lado, não bebeu de nenhum outro conhecimento que não o seu. Esperava mais garra, mais alma. Senti que muitos poemas eram absolutamente lindos, mas sem vida. Sem assinatura por baixo. 

É um livro lindíssimo, muito especial se também têm tido uma batalha de aceitação com o corpo, faz-nos pensar no quanto ele é bonito, capaz, único. Mas não esperem algo diferente do que a autora já lançou.

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Bertrand

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sábado, 21 de maio de 2022

PASSAPORTE | Zürich Postcards


Zurique ficará para sempre no meu coração como a primeira viagem internacional desde todo o caos da pandemia e todas as transformações que isso trouxe. Talvez as emoções melhorem com o passar do tempo, mas parece ter ficado no passado a descontração com que planeávamos uma viagem e com que íamos para o aeroporto. À data da nossa viagem, tivemos o stress dos isolamentos, testes, certificados e vacinações. Ver toda a gente de máscara num local fechado e com muitas pessoas é, ainda, avassalador e influencia, sem dúvida, o espírito de viagem. 

quarta-feira, 18 de maio de 2022

PASSAPORTE | Compras em Zurique


Orell Füssli | A minha ideia inicial era visitar mais livrarias independentes em Zurique, mas apanhei-as todas fechadas e acabei por ceder aos encantos da Orell Füssli, uma editora com uma grande cadeia de livrarias que podem encontrar espalhadas um pouco por todo o país. A vantagem é que há muita variedade de livros em inglês e artigos de estacionário. Vão também encontrar livros à venda com bandas em papel onde os leitores escreveram a sua opinião sobre aquele livro – ou porque o recomendam -, o que achei um toque adorável. E também têm blind dates with a book, caso queiram uma recordação mais especial. A desvantagem é que os preços são bastante caros – mais caros do que em Portugal, portanto, convém apenas levarem livros ou edições que vos compensem o custo. A literatura, na Suíça, é considerada um luxo. 

Musik Hug | Se tiver desse lado amantes de música, a Musik Hug é uma paragem obrigatória, ou não tivesse um universo infindável de artigos de música, desde CD, vinil, instrumentos e até partituras de álbuns. Foi aqui que trouxe a minha partitura da Folklore, da Taylor Swift. Também encontram artigos mais recreativos ligados, sempre, à música, como canecas, blocos de notas, coffee table books, etc. 

Victorinox | Já é uma marca bastante familiar ao redor do mundo, mas não dá para ir à Suíça sem a visitar, até porque os preços compensam (excecionalmente). A Victorinox ganhou a sua notoriedade no universo da cutelaria e é aqui que encontram os mais famosos canivetes suíços, facas, instrumentos de corte, etc. Já existem modelos de canivete personalizáveis – onde conseguem escolher que funcionalidades é que querem, a cor do canivete e até colocar o nome -, mas o que eu trouxe para casa foi a melhor tesoura de sempre (este Natal, estou garantida). 

Bookbinders Design | Embora seja uma marca sueca, já espalhada pelo globo, foi só na Suíça que me cruzei com ela e que recomendo a visita para qualquer amante de papelaria. Na Bookbinders Design, além de artigos básicos de papelaria e outros, como postais, carimbos, embrulhos, etc., podem fazer blocos de notas personalizados – o verdadeiro ex-libris da loja. Tudo é personalizável, desde a capa, a fonte e tamanho das letras, o tipo de papel e, embora o preço final por um bloco de notas seja um pouco mais elevado, acho justo por todo o processo manual e único – afinal de contas, é um caderno só vosso, à vossa medida. A duração desde o momento de encomenda até estar finalizado ronda cerca 1h-1h30 de espera (tenham isso em conta se quiserem adquirir algum). Também vendem online, caso a Suíça não esteja nos vossos planos para breve, e tem shipping para Portugal. Eu estou de olho no planner para 2023!

segunda-feira, 16 de maio de 2022

LIVROS | A Rapariga que Lia no Metro


Nunca tinha percebido como é que as pessoas diziam que se esqueciam da história dos livros que liam, mas assim que terminei A Rapariga que Lia no Metro, soube que nunca mais me iria lembrar desta narrativa. 

É um ótimo arranque para saberem desde já que não é um livro que fará parte da minha estante. Mas aquilo que mais senti foi que o livro defraudou-me com uma premissa e um título muito diferentes da experiência de leitura que temos de seguida. 

A premissa fala de Juliette, uma mulher que está saturada pela rotina, que não sente paixão pelo trabalho e que apanha o metro para fazer o mesmo percurso, todos os dias. É o único momento em que consegue deixar-se sonhar, em que sente que tem as rédeas do seu quotidiano. Aproveita esse caminho para observar as pessoas que a acompanham na carruagem, imaginando as suas vidas, observando as suas leituras. 

É um resumo lindíssimo, não é? Mas isto é o que acontece em apenas um capítulo da história. A verdadeira história é que Juliette conhece um homem invulgar com uma filha (ou filho, já não me recordo) e que a transportam para um realismo mágico em torno dos livros. 

A leitura é muito rápida, que podem aproveitar numa tarde pachorrenta. A narrativa é acessível, embora se note algumas influências no tom de outros autores. Não me marcou e gostava que a premissa fosse um pouco mais transparente.

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Bertrand

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sábado, 14 de maio de 2022

SÉRIES | Bridgerton

Vocês já sabem que eu sou perita em assistir a séries e filmes muito mais tarde do que o hype e, por isso, sinto que este artigo será a falar para a parede porque toda a gente já assistiu à série Bridgerton, verdade? 

Para quem tem-se mantido à margem do fenómeno – ninguém -, Bridgerton é uma série de época que explora a vida da família que dá o nome a esta história. Mas se o mercado dos filmes e séries já estava saturado de histórias de realeza e de época, Bridgerton traz alguns pontos de originalidade que, confesso, foram o que me convenceram ainda antes mesmo do enredo: para além dos figurinos de sonho, dos cenários sumptuosos e dos tons pastel adoráveis, Bridgerton tem muita representatividade, apresentando personagens de várias origens como integrantes da nobreza – e até da realeza – sem se preocupar em ser fiel à realidade histórica. 

Bem sei que também isto já teve algumas críticas (entre elas, muitos espectadores criticaram que era o ‘apagar do passado’), e estou num lugar de privilégio para comentar, mas não me parece que foi essa a intenção nesta abordagem e sim uma tentativa da produção de idealizar um lugar onde a cor da pele e a origem das personagens não era limitativa. A história continua a ter uma hierarquia social (realeza, nobreza e plebe) mas a cor da pele não é uma questão e eu achei muito interessante. A par do que também comentei n’Os Segredos de Dumbledore, acho que é a tentativa da arte em mostrar uma realidade possível e justa e isso é mais crucial do que imaginamos. Um outro detalhe que tenho achado interessante é a perda de poder da religião nesta narrativa - não existem grandes figuras de poder do clero ou com influência e achei isso curioso. 

Um outro detalhe que gostei bastante na série é que – aparentemente – cada temporada está a focar-se em diferentes elementos da família, dando espaço para conhecermos cada personagem e adorarmos cada vez mais a família Bridgerton. Na 1ª temporada, conhecemos Daphne, a filha mais velha, inocente e muito delicada, que inicia a sua vida de debutante e procura fazer um percurso perfeito e imaculado para que as irmãs tenham o seu processo facilitado. Na 2ª temporada, conhecemos Anthony, o filho mais velho e visconde da família que também inicia o seu processo de casamento, mas com aspirações totalmente diferentes da irmã. Muita gente sentiu falta da Daphne como protagonista, mas eu gostei desta frescura. O arco dela foi fechado na 1ª temporada e isso dá espaço para explorar outras histórias sem tudo se tornar repetitivo. 

A par destas histórias de romance, amor proibido, sinais confusos, bailes e muitos diálogos poéticos, temos uma Lady Whistledown, de entidade secreta (mas que um espectador atento adivinha num par de episódios), que espalha pela cidade a sua coluna de mexericos, revelando todos os segredos de Londres e fazendo comentários mordazes à sociedade. Todos querem descobrir quem é, mas ninguém tem os seus segredos a salvo. 

Perante esta fórmula, é fácil compreender porque é que a série se tornou numa das produções mais assistidas da Netflix. Não há nada de novo no enredo que vamos assistindo a cada episódio – na verdade, são narrativas tão fatalistas, algumas com personagens tão obtusas que nos sentimos a assistir a uma novela -, mas é o toque de originalidade e o imaginário rico que nos faz carregar no próximo episódio. 

É uma série leve, muito romântica – na 1ª temporada, “”romântica”” demais (confesso que gostei que, na 2ª temporada, o foco estivesse mais orientado para a história) e, pessoalmente, não sendo fã de reality shows e derivando sempre para conteúdos mais ‘pesados’, soube bem ter esta série como um escape da realidade para descontrair um pouco e simplesmente mergulhar na história.

quarta-feira, 11 de maio de 2022

PASSAPORTE | Frau Gerolds Garten


A nossa última noite em Zurique reservou-nos um lugar totalmente alternativo e onde conhecemos o lado mais colorido e artístico da cidade: o Frau Gerolds Garten fica um pouco mais distanciado do centro, mas promete uma experiência muito especial, quase mágica. 

segunda-feira, 9 de maio de 2022

LIVROS | O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos


Já o admiti em várias reviews de livros do Matt Haig que este é um autor que me está a custar muito reconhecer que não faz obras que eu adore. Tirando a bonita exceção d’A Biblioteca da Meia Noite, todos os seus livros de ficção, na minha opinião, ficavam-se por premissas muito boas com concretizações fraquinhas. 

Decidi, então, entrar no mundo da não-ficção e ler o seu ensaio sobre a saúde mental. O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos é um livro rápido de ler – li-o numa tarde tranquila, no meu café preferido, com um delicioso cinnamon roll – onde o autor reflete sobre o impacto do mundo na nossa saúde mental e, por consequência, o impacto da saúde mental nas nossas relações. 

A narrativa simples e despretensiosa quase que nos faz sentir que Matt Haig nos convidou para entrar em sua casa e termos uma conversa, e essa simpatia e disponibilidade é algo que consigo identificar em todos os seus livros e que é de louvar. 

Cada capítulo concentra-se num tema em particular, desde as notícias, as redes sociais, a nossa relação com o sono e com o trabalho, entre outros. E embora até tenha sublinhado algumas observações muito pertinentes, a verdade é que este é um livro, sem sobra de dúvida, reconfortante, mas não surpreendente. Sinto que também não era esse o objetivo do autor e, por isso, não o cobro. 

Talvez gostasse de encontrar uma perspetiva mais fresca e de ler o livro sem sentir que já tinha visto, ouvido ou lido uma frase semelhante noutros lugares, mas entendi que o propósito de O Mundo à Beira de um Ataque de Nervos era, de facto, um rasgo de pensamentos de Matt Haig sobre a forma como caminhamos para uma rotina acelerada, que nos distanciamos de tal forma entre seres humanos que somos capazes de fazer e dizer atrás de um ecrã aquilo que nunca diríamos olhos nos olhos e que nos temos desfocado totalmente do que é essencial. 

Não é um livro extraordinário, mas se gostavam de fazer uma leitura sobre saúde mental que seja leve, reconfortante e que vos eleve no final, então este pode ser uma boa companhia.

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Bertrand

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sábado, 7 de maio de 2022

PASSAPORTE | Rooftop Spa


Lembram-se de ter partilhado convosco que fomos ao B2 Boutique Hotel para duas experiências? A primeira delas já falei aqui e a segunda foi uma absoluta estreia: ir a um spa no rooftop do hotel. 

Esta é uma das experiências mais sugeridas nos guias de viagem de Zurique e entendemos porquê: a combinação do frio com a água quente e a vista inacreditável para toda a cidade e para as montanhas é memorável, além de que eles são exímios na arte do bem-estar e de pensar em espaços de spa confortáveis, bonitos e muito funcionais. A nossa pesquisa levou-nos ao rooftop spa do B2 Boutique Hotel (que já estava no nosso planeamento, portanto, foi um 2 em 1). 

quinta-feira, 5 de maio de 2022

LIVROS | Ler ou não ler? Eis a questão


Na passada terça-feira, foi transmitido em horário nobre – de louvar! - o programa ‘É ou Não É?’ referente ao tema da literatura. Os dados são preocupantes, com mais de metade dos portugueses a indicar que não leu um único livro no ano passado. 

Confesso que vou sempre atrás deste tipo de peças, reportagens ou painéis de debate mas que acabo por me sentir um pouco defraudada em cada programa porque me parece que orbitamos em todas as edições no mesmo conjunto de tópicos e na mesma tipologia de convidados: fala-se sobre o desinvestimento da educação, do exercício hercúleo que é estimular a leitura (não concordo), do preço dos livros, dos programas de leitura e sempre com convidados pouco representativos (ou com painéis muito pouco abrangentes, uma vez que são sempre figuras de editoras de nicho, de gerações mais velhas – embora tenha sido convidada uma criança neste programa em particular – e que ainda insistem no encaixe dos clássicos para dar o ponto de partida nos hábitos de leitura). 

As crianças são sempre um tema central na discussão, mas já sabemos que são os adolescentes, jovens adultos e adultos que baixam as percentagens de leitores no nosso país. Algo não está a funcionar porque, claramente, é a minha geração e a geração mais velha que se sente afastada da literatura e que não encontra nos livros uma fonte de prazer, escape, utilidade e entretenimento. 

Quando se discutem hábitos de leitura – e a ausência deles – há sempre algumas coisas que me incomodam nalguns dos discursos que me parecem datados, e talvez o principal seja a demonização do digital. Não há como contornar que os meios digitais têm um peso no quotidiano das pessoas, mas que também podem ser poderosos aliados e, no meu entender, essa conclusão ainda não chegou nas editoras portuguesas. Não acho que as editoras portuguesas aproveitem todo o potencial do marketing digital – programas de afiliados e campanhas de 20% de desconto não chegam -, muitos dos tops de vendas, atualmente, são causados via digital e orgânica, através da criação de conteúdo relacionado com livros que orbitam nas comunidades literárias do Instagram (bookstagram, como é conhecido) ou até no TikTok (booktok) e que se popularizam de tal forma que são as editoras a correr atrás dos livros que estão a ser falados no digital e não o contrário. E os podcasts? Um estrondoso sucesso! 

Vale a pena observar o que está a acontecer além-fronteiras e tomar como um caso estudo: temos editoras a aliarem-se ao potencial das redes sociais e dos seus criadores de conteúdo literário, temos livrarias a aproximarem-se da comunidade através dos seus próprios conteúdos nas redes sociais (mais orgânicos, mais próximos, mais respeitosos com os seus afiliados também). Isto é a prova de que não temos de lutar entre o telemóvel ou os livros; os clubes de leitura digitais há muito que o desmentem (e há editoras emergentes que já estão despertas). 

O preço dos livros é, também, recorrentemente referido, facto esse inegável: numa sociedade (especialmente, se é da geração jovem adulta que queremos falar) que ganha, em média, ligeiramente mais que o ordenado mínimo, é incomportável que a literatura faça parte da sua rotina. Existem bibliotecas? Sim. Mas a acessibilidade das mesmas é muito heterogénea também. A minha biblioteca, por exemplo, abre e fecha no meu horário de trabalho e tem horário reduzido ao sábado. Significa que eu tenho de antecipar que quero lá ir buscar um livro – de um espólio muito limitado. Eu vou porque sou uma leitora. Ninguém com poucos hábitos de leitura se sujeita ao mesmo. E eu tenho plena certeza de que muitas outras bibliotecas – especialmente, fora dos grandes centros urbanos -, por muita iniciativa que tenham, também operam da mesma forma (ou com contornos semelhantes). O que deveria ser uma porta aberta para o acesso gratuito a livros, torna-se num impedimento porque não está adaptada para quando um adulto e jovem adulto têm disponibilidade para desfrutar daquele espaço. 

Compro recorrentemente edições em inglês ou de editoras estrangeiras por dois motivos (em que o segundo irei explorar adiante): são mais baratas! As melhores compras literárias que fiz na minha vida, nunca foram em Portugal. Quase todas as livrarias estrangeiras têm campanhas fantásticas de leitura e preços mais comportáveis. Mas a população portuguesa não tem de ser obrigada a preferir ler em inglês para ter acesso a livros a um preço mais competitivo. Olhar para um livro a 20€ sem saber se vou gostar, custa. E para alguém que não é leitor, custa muito mais. 

Mas uma questão que eu sinto que todos os debates e programas têm falhado miseravelmente em referir é o preconceito literário e a estética. Não podemos estar uma hora a debater o desinteresse dos jovens na leitura e referir no final do programa que Eneida é uma ótima recomendação para ponto de partida. Não podemos continuar a elitizar os leitores que leem clássicos e os que leem livros populares, de massas. Uma pessoa é o que lê, mas não é só o que lê. E enquanto continuarmos a classificar alta literatura e baixa literatura, a conceder apenas espaço nos media e nas premiações literárias aos clássicos ou a autores de uma certa elite, à literatura de classes, enquanto um livro ‘de supermercado’ for considerado inferior, não vamos conseguir compreender para onde caminha a literatura. Com mais livros, mais histórias, mais representatividade, mais ressonância. Existem livros para todos os gostos e ainda não conseguimos passar esta mensagem. Quem não gosta de ler, hoje em dia, só esteve a ler livros errados, que não conversavam com a pessoa. E é fundamental guiar essas pessoas para se encontrarem com as histórias que estão à espera desses leitores. Porque existem, sempre. 

E a estética? É um não-assunto porque é considerado fútil, de menor importância. Mas reflitamos sobre isso: não é só a dinâmica que nos faz sentir atraídos pela televisão e pelo digital, é também a sua curadoria estética. Há muito que estes meios sabem que o ser humano tem atração pelo que é belo e, ainda que a beleza seja um conceito abstrato, a sua curadoria não precisa de o ser, e todas as redes sociais, plataformas e programas têm em atenção a componente estética. Então como a podemos deixar para trás nos livros? Como é que podemos continuar a criar edições em bancos de imagem, como é que podemos continuar a não envolver ilustradores e designers nas capas? Porque é caro, sim. Mas as capas vendem, as capas atraem, as capas são publicidade. E enquanto fecharmos os olhos para isso, continuaremos a ter histórias excecionais em capas vergonhosas. Se continuarmos a olhar para os livros como um conceito museológico e empoeirado, sem o envolver no universo estético, eles continuarão a não ser atraentes. 

Mas, afinal, como responder à questão? Como envolver mais as pessoas na literatura? Dando as mãos ao digital, tirando partido do potencial das comunidades e clubes literários (físicos e online) – porque toda a gente gosta de sentir que pertence a alguma coisa – aproximando mais as editoras do público, recorrer aos criadores de conteúdo (e enviar livros aleatórios para unboxing e fazer percentagens mínimas para os afiliados não é recorrer aos criadores de conteúdo de forma eficiente), envolver os livros numa curadoria estética mais contemporânea e revendo os preços e leis aplicadas ao custo dos livros. Olhar para o que está a ser feito noutros países também me parece uma decisão sensata para tirar notas e sentir otimismo de que as coisas podem ser melhores.

Quando se fala em literatura, sei que cresci com uma orientação privilegiada e acompanhada para ser uma leitora. Mas nem todos têm este ponto de partida. E embora eu acredite muito que a infância e a influência da família é muito forte, não é determinante que só assim criemos leitores. Vamos começar a sair do pedestal, vamos dar espaço para leituras contemporâneas, vamos aproveitar o potencial das comunidades para criar oportunidades, para criar o desejo de ler. Porque, no final, é isso que sobra: o desejo de conhecer histórias e que ela converse connosco como se fosse escrita só para nós.