Vamos Falar Sobre Saúde Mental - Parte III


Esta é a terceira e última parte do segmento ‘Vamos Falar Sobre Saúde Mental’. Nas duas primeiras partes (I Parte & II Parte) conversei com a psicóloga Dalila Melfe para, de um ponto de vista profissional, esclarecer algumas dúvidas sobre saúde mental e expectativas acerca da consulta de psicologia. 

Nesta parte, irei falar do processo terapêutico na lógica de paciente. É, por isso, um relato muito individual e a minha experiência pode não se equiparar, de todo, à vossa. No entanto, pediram-me um testemunho da minha parte, pelo que partilho convosco para que possamos quebrar alguns tabus e pudores em relação à jornada terapêutica. 

Ao contrário do processo mais comum, a minha decisão de iniciar consultas de psicologia partiu de uma fase muito boa e estável na minha vida. Já tinha passado por uma fase muito difícil – também relacionada com o processo de mudança de área profissional – há uns anos e quis investir na minha autodescoberta para me conhecer melhor e para ter ferramentas de autorregulação quando/se voltasse a passar por períodos mais difíceis ou delicados – e não sofrer tanto com eles. 

Como não tinha urgência e não podia contactar os psicólogos que já conhecia por questões de conflito de interesses/profissional, optei por sinalizar a minha vontade de iniciar um plano de consultas de psicologia através da minha médica de família. Bem sei que é um luxo nos dias que correm, mas esta sinalização também pode ser realizada através de uma consulta do dia na vossa unidade de saúde pública, caso não tenham médico de família. 

A minha médica alertou-me de imediato que o tempo de espera para resposta na minha região era de 5 meses. Ela estava otimista. Só 8 meses após a minha consulta de MGF é que fui contactada para marcar uma consulta de psicologia. 

Eu não quis esperar tanto tempo e, tendo condições para, optei por recorrer ao privado. Não estou num plano de consulta inclusiva, mas também não pago um valor, de todo, avultado. Posso ter tido sorte por não viver num grande centro urbano. Não deveria ser sorte ter consultas acessíveis, mas é a realidade do acesso à psicologia no nosso país. Alguns seguros de saúde fazem cobertura de consultas de psicologia e psiquiatria, mas adianto que são poucos e, os que fazem, não cobrem percentagens superiores aos 5-10%. 

Não tinha grandes critérios de escolha nem grandes recomendações ou conselhos do que procurar neste processo: sabia que precisava que as consultas tivessem alguma sustentabilidade financeira a curto-médio prazo e que queria que fossem presenciais (não me sinto confortável a falar para câmaras). Não tendo mais referências, contactei a primeira unidade de saúde privada que me ocorreu para obter informações relativas às consultas. O atendimento foi excecional e inclusive deram-me um pequeno enquadramento de cada um dos profissionais de psicologia que estavam no corpo clínico – qual é a abordagem que costumam fazer para que eu pudesse escolher conforme o que me fazia sentir mais confortável. Acredito que isto foi um ponto-chave para eu escolher bem à primeira a profissional que, atualmente, me acompanha. Ter um conhecimento prévio de como ela faz a abordagem terapêutica permitiu-me ter a certeza de que era a intervenção que me iria colocar mais à vontade. 

Pessoalmente, gostei que a minha primeira consulta fosse ‘informal’. Movida pelo preconceito, esperava uma profissional de bata branca que iria estar atrás da secretária com papéis e questionários de 1ª consulta e não podia ter tido uma experiência mais oposta. Sem papeladas, sem mil questionários com níveis de 1 a 10, sem distância. Senti-me mais confortável e próxima. Para mim, foi um elemento importante para arrancar com o pé direito. 

Desde então, continuo na minha jornada terapêutica e tem sido uma viagem. Tinha perceção de ser muito consciente das minhas emoções e pensamentos e sei que isso ajuda muito, mas também tenho sido surpreendida e tenho descoberto imensas coisas novas sobre mim. Algumas consultas adereçam situações mais imediatas – coisas que me aconteceram recentemente e que preciso de as arrumar nas gavetas, como a psicóloga Dalila o diz, e bem! -, outras envolvem um processo de exploração mais profundo e outras são mais leves, onde também tenho espaço para concretizar e processar coisas que têm impacto em mim, mas que não estão no meu core, como situações da atualidade, sociedade ou do mundo. Há um tempo e propósito para cada consulta e sinto que tenho um bom compromisso com a minha profissional de como aquela hora é mediada – orientada sempre por ela, mas com o meu consentimento e à vontade para abrir ou fechar as portas. 

A jornada é mesmo uma jornada. Há fases em que sinto que estou a progredir e a evoluir, outras em que sinto que retrocedi (mentira, eu sei!), momentos em que saio da consulta mais otimista, outras em que saio mais melancólica. Faz parte porque somos humanos. Aquilo que aprendemos sobre nós e queremos colocar em prática depende, também, de como estamos naquele dia e do contexto que estamos a viver. Não me cobro muito porque sei que estou a dar, no geral, um salto qualitativo enquanto Inês (individua), amiga, familiar e profissional. Mesmo que não seja um caminho imaculado e linear. 

Há quem me pergunte se eu falo abertamente que sou acompanhada e estou muito alinhada com o que a Dalila Melfe referiu na I Parte: como veem, estou confortável para partilhar que sou acompanhada, da mesma forma que na minha agenda está um plano irrepreensível de consultas ao dentista, médico de família, oftalmologista e outras demais especialidades que visito com a frequência recomendada. Isso não significa que necessite de ter uma etiqueta na testa a dizer que vou à psicóloga. Refiro quando faz sentido em conversa, como em qualquer outro tema. Valorizo a privacidade (não só na saúde mental, mas em todas as minhas esferas). 

Não é comparável a pedir conselhos a amigos, familiares ou pessoas que admiramos. É um momento totalmente nosso e com um elemento profissional que não tem qualquer viés da nossa vida e que está pronto para atuar conforme aquilo que pensamos e sentimos. Esse é o foco. 

O meu único arrependimento foi não ter começado mais cedo. Sinto que teria tido outra robustez para lidar com as situações e com o meu próprio crescimento. Acho mesmo que é algo que agrega a todo o ser humano, estejam vocês numa fase mais vulnerável ou numa altura mais estável e feliz, como aconteceu comigo, e com o propósito de quererem investir em vocês. Foi um passo no meu autocuidado muito importante para mim e que me está a ajudar a tornar na Inês que ambiciono ser para mim e para os outros. 

Termino, assim, esta partilha e espero que tenha sido uma sequência de publicações útil e relevante para vocês. Estou a uma mensagem de distância caso tenham dúvidas que consiga assistir ou caso queiram partilhar comigo os vossos próprios insights

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