sexta-feira, 22 de abril de 2022

ON JOB | Mudar de área profissional


Em 2015, celebrava o meu último ano de faculdade e entrava numa das últimas cadeiras do meu semestre antes do estágio. Já tinha entidade empregadora para esse estágio, fitas prontas para entrar em distribuição a tempo da bênção e, em geral, um punhado de sonhos e objetivos típico e saudável de quem celebra o doce (também atribulado) começo dos 20 anos. Mas havia algo que moía a minha cabeça e que ainda não tinha verbalizado com ninguém: “Acho que não quero fazer nada disto”. 

Julguei sempre que seria um mecanismo de defesa pela ideia de, brevemente, largar a realidade de estudante que sempre conheci e, por isso, relevava esse pensamento. Quando a professora da minha nova cadeira se apresentou e confessou que estava muito mais ligada à comunicação e marketing do que à nutrição, eu diria que tive a mesma sensação do conceito de amor à primeira vista: quanto mais ela falava sobre o seu quotidiano profissional, mais eu queria vivê-lo. Os meus olhos brilhavam.

Entre 2016 e 2020, ano em que mudei de área profissional para o marketing, passaram 4 dolorosos anos de crescimento e luta, os quais recordo com a mesma medida de empatia e dor. Enquanto todos os meus colegas celebravam uma etapa fresca de oportunidades profissionais, eu estava totalmente desorientada. Durante todo este processo, atravessei uma série de fases, a começar por uma culpa gigante por sentir que todo o investimento na minha formação estava a ser em vão, que eu não queria concretizar aquilo para o qual investi tempo e dinheiro (grande parte dele, que não era meu e sim dos meus pais) para aprender. Talvez essa culpa e a distância entre a nutrição e o marketing fossem os maiores impulsionadores para viver este dilema e diálogo inteiramente na minha cabeça, sem o comentar com ninguém. 

Verbalizar que já não estamos felizes na nossa área profissional é toda uma nova fase que nunca, na minha opinião, é radical ou inesperada. Acredito verdadeiramente que quem finalmente o admite em voz alta já processou muito esse pensamento dentro de si (aconteceu, pelo menos, comigo). Costuma ser também uma fase muito marcante, já que estamos a dar a conhecer ao nosso círculo uma informação que, até então, era muito introspetiva (e passível de ser manipulada pelas nossas inseguranças e idiossincrasias). É uma fase sensível porque tanto podemos ter um círculo familiar e social que oferece apoio e compreensão (que foi o meu caso), como podemos ter de lidar com os próprios receios e preconceitos do nosso círculo, e um processo que já era moroso, torna-se também doloroso. 

Repetindo-me, tive muita sorte por ter tido uma família compreensiva, um namorado que acreditava a 500% em mim e amigos que me faziam sentir que eu iria lá chegar. Mas, mesmo com todo este privilégio, não escapei a pessoas de quem estimo muito, mas que traziam insistentemente o tópico da nutrição em conversa (perguntando-me se já estava mais resoluta com a ideia de trabalhar nessa área, se já gostava mais) e isso fazia-me sentir encurralada e incompreendida, como se não entendessem que não se tratava de habituar ou conformar, mas sim uma necessidade visceral de fazermos o que realmente gostamos e ambicionamos. Nessas alturas, custava-me muito falar com essas pessoas e responder a essas questões. 

Para mim, mudar de área não foi um processo ágil nem fluido – mas já esperava que assim fosse. A nutrição e o marketing não têm muitos elos óbvios, portanto, sabia que ia ter de apostar na minha formação e em provar os meus conhecimentos. Paralelamente, quis concluir todo o meu processo como nutricionista e ter um caminho B, caso necessitasse. Isso significa que, durante muitas semanas, só tive o domingo como folga, entre trabalhar como nutricionista e agregar o mais possível de formação em marketing.

Perdi a conta ao número de currículos que enviei, mas personalizei sempre cada e-mail e, infelizmente, confirmo que foram mais os silêncios do que as respostas. Toda esta época teve incontáveis momentos de lágrimas, frustração e sensação de fracasso. Perguntava-me várias vezes se valia a pena fazer-me passar por isto, mas quando acordava todas as manhãs com vontade de não existir e tinha ansiedade todos os domingos à noite, sabia que não tinha alternativa senão ir atrás disto. Se passamos 90% da nossa vida a trabalhar, eu tinha de ir atrás de algo que me deixasse feliz. Às vezes, ser casmurra é o que salva a nossa vida.

Quando consegui a minha tão esperada oportunidade (sozinha, a ir atrás, sem contactos para me ajudarem, munida apenas do que tenho e sabia fazer), pensava que ia sentir alívio, mas fui invadida por um medo enorme. Medo de afinal não gostar da área, medo de o problema nunca ter sido a carreira e sim eu, medo de não estar à altura, de ser uma impostora. Mas bastou-me logo o 1º dia para sentir um alívio como nunca antes tinha sentido. E desde então, tenho tido tarefas mais cansativas, trabalhos mais chatos, vontade de ter férias, cansaço… mas no final do dia, gosto sempre do que faço e não começo a trabalhar com um nó na garganta. E isso é inestimável para mim. 

Estou a ser totalmente sincera quando digo que valeu a pena cada luta, em não ter atirado a toalha ao chão. E quando vou recebendo mensagens de pessoas a desabafarem comigo sobre este tema, é essa a mensagem de esperança que lhes tento passar para que encontrem o seu caminho. Porque eu conheço em detalhe a dor e a tristeza profunda que sentem. Sei perfeitamente a pressão e culpa com que convivem. Sei o quanto se sentem angustiadas quando alguém insiste em falar da sua área profissional atual. E sei o quanto é reconfortante ter alguém que simplesmente nos ouça e diga que somos capazes. 

Este foi um dos artigos que mais me pediram para que fosse escrito e esta foi a minha jornada para estar no trabalho que me faz feliz. Se alguém desse lado estiver a passar pela mesma situação, saibam que tudo o que estão a sentir é válido, que só o facto de quererem ir atrás do que sonham é admirável e que estou a uma mensagem de distância para quem quiser desabafar. Espero que tenham muita força e espero que todo este meu sofrimento para chegar aqui não tenha sido em vão e que inspire (talvez) outras pessoas a saberem que o caminho é difícil, mas vale a pena.

4 comentários:

  1. Uma publicação muito especial. Obrigada, Inês!

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  2. Passei por uma situação semelhante! Mas, inicialmente, apenas sabia o que não queria, só depois encontrei o meu caminho...
    Obrigada pela partilha.

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  3. Obrigada por este post sincero e maravilhoso. Felizmente, apesar de todos os altos e baixos, ainda me encontro na área que estudei. Mas no passado sim, houve momentos que quis fazer algo totalmente diferente. De alguma forma, consegui voltar a apaixonar-me pela minha área e estou feliz por na altura não ter desistido.
    No futuro? Logo verei quando lá chegar.

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  4. Estou de lágrimas nos olhos 🥺
    Tu já conheces a minha jornada académica/profissional. Tive momentos na licenciatura em que tudo o que queria fazer era desaparecer, porque havia algo que não encaixava... 😔

    Depois de começar a terapia, percebi o que estava mal, como poderia melhorar... daí ter decidido voltar para terminar o curso, mas num registo mais meu, de acordo com as nuances que correspondem comigo. Quando escolhi arquitetura, fui crente de que conseguiria, de algum modo, conciliá-la com questões do foro social, psicológico, artístico...é sim possível fazê-lo com edifícios, mas muito mais intuitivo em urbanismo!! 🤭

    Bastou-me ter estado 2 anos longe daquela faculdade, daquelas pessoas, focando-me um pouco mais em mim. Tem-me bastado conhecer mil e uma pessoas, conceber ideias, perceber que é possível conciliar tudo o que já faço... Tem sido sobre aceitar que pelo rumo da minha criatividade, eu nunca serei 100% mestre em nada, contudo, contento-me com a ideia de saber um pouco sobre tudo o que me apaixona! 🌻

    É uma questão de tempo, paciência, organização. E sinceridade perante os desejos da nossa personalidade. Não digo que tem sido mega fácil, mas já não dói tanto. Doer não invalida o facto de ser apaixonada pela escolha que fiz. Nunca antes me fez tanto sentido estar a estudar. E mal posso esperar para traçar o meu próprio caminho fora da faculdade. A terapia também me tem auxiliado muito nesse aspeto: a aceitar que sou EU quem traça o meu caminho... enquanto o amor estiver presente nos nossos gestos, tudo se concretiza! 🤍

    Obrigada por esta partilha, Inn!
    Beijocas,

    Lyne, Imperium BlogCongresso Botânico - PodcastLivro DQNT

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