quarta-feira, 13 de janeiro de 2021

MUNDO || Felicidade no Sofrimento


Dentro do sofrimento do mundo — que começou desde que o mundo se conhece como gente — vivemos tempos de dor aguda. Ao caos juntaram-se novas incertezas e inseguranças que, qual malagueta no preparado, só destacou ainda mais o que já se sofria. 

Não pode ser ignorado, e não é. E entre tantas correntes de atenção, uma das que mais se destaca é a impossibilidade de sermos felizes perante a consciência do sofrimento do mundo. Como podemos estar contentes, felizes, realizados, num ambiente de caos? Será uma desconexão da realidade que se estende à que conhecemos e controlamos? Egoísmo cruel, que se centra no seu mundo sem olhar para os restantes? Ignorância velada? 

É uma reflexão que convive comigo desde que ouvi, pela primeira vez, a afirmação de que não devíamos ser felizes quando temos consciência do sofrimento do mundo. Convivo cordialmente com essa reflexão desde então — há algum tempo. Até que a clareza do próprio comportamento humano (e dos estudos que, avé cientistas, nos ajudam a clarificar algumas filosofias mais controversas) me ajudou a desatar este nó. De que serve sofrer pelo sofrimento? 

Não há riqueza no sofrimento. Nem aprendizagem. Não aprendemos enquanto sofremos, aprendemos depois de sofrer. Nada mais ocupa a nossa cabeça enquanto sofremos do que os métodos para deixarmos de sofrer. Não há racionalidade, compaixão ou empatia enquanto se sofre porque o sofrimento é privado, íntimo, vazio, egoísta num sentido muito próprio. E como podemos sofrer pelo mundo se o sofrimento é tão individual? Ficamos cegos e desprovidos de métodos psicológicos — e depois físicos e sociais — para ajudar um mundo a sofrer menos. É uma falácia gigante julgar que a empatia nasce do sofrimento. Que só se entende o sofrimento por se sofrer — ou tentar sofrer — da mesma maneira. Mesmo quando há uma razão para se sofrer em comunidade, essa emoção (o sentimento lancinante que nos come por dentro) só nos come a nós. Talvez não seja verdade — e não o é, ninguém sofre sozinho. Mas ninguém se lembra disso quando se sofre. 

Eu escolho ser feliz e consciente do sofrimento do mundo. É a opção mais sã, mas também mais lógica e cientificamente útil. A felicidade traz-nos muitas coisas — e associa-se a outras mais: empatia, realização, motivação genuína e real. A felicidade torna-nos mais abertos para o mundo, mais cidadãos do mundo. Ouvimos mais, compreendemos mais, fazemos mais pelo outro. A felicidade é nossa mas torna-nos mais comunitários. Seria fácil — até romântico, pelo fatalismo — de se pensar que a felicidade é egoísta, mas nunca o foi. Não conheço ninguém genuinamente feliz que não se tenha doado. Somos mais solidários quando somos felizes. Obrigada, ciência. 

Os estudos não mentem, a psicologia também não. Vale a pena ter consciência do sofrimento do mundo — e, mais importante, de fazer alguma coisa por ele, de agir, de não ficar de braços cruzados, de dar o que se pode, dinheiro, tempo, recursos, abraços. O que der para dar. Mas anular a felicidade em prol do sofrimento comunitário não tem nexo nem benefício. No final, é uma maçã envenenada que trincamos a pensar que estamos a salvar o mundo com dramatismo quando, na verdade, nos juntamos ao tão vasto sofrimento que precisa que os felizes o salvem dele.

3 comentários:

  1. Penso algumas vezes nisso. De me sentir bem neste meu mundo, na minha bolha, sabendo bem que tanta gente há que não tem o que comer ou não tem um tecto ou água potável. Ou que vive infeliz dentro de quatro paredes. O que fazer? Agradecer, sorrir para o outro, ser gentil. É o meu pouco contributo. Tento ser empática. Mas não vou enfiar a cabeça debaixo da areia. Tenho noção do sofrimento do mundo. Ah, isso tenho.

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  2. Gostei imenso de ler tudo o que escreveste e fez o maior sentido do mundo! Também eu fiquei a refletir e a verdade é que quando estamos no nosso melhor conseguimos ser luz e estar lá para os outros!

    Blog: https://blogandorinhaazul.blogspot.com/

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  3. Tudo o que tu escreveste faz todo o sentido. Não podemos, nem devemos, carregar o fardo do mundo às nossas costas. Quando nos sentimos felizes, conseguimos transparecer essa felicidade e, tal como tu disseste, doá-la. Se nos sentirmos bem, é meio caminho andado para fazer o bem, sem olhar a quem.

    arrblogs.blogspot.com/

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