O meu primeiro emprego foi como lojista, na Decathlon. Não estava a conseguir cumprir os objectivos que me tinha proposto para a minha pós-licenciatura e, embora isso me deixasse frustrada, desanimada e praticamente traumatizada, ficar parada não era opção — e não me iria reconhecer se a escolhesse —. Portanto, fiz o que me parecia ser mais lógico: imprimi uma série de currículos e fui bater a todas as portas, sem experiência nenhuma. Estava com medo? Não. Estava aterrorizada. Mas tinha de fazer o que fosse preciso.
Embora, hoje em dia, sejam privilegiadas as candidaturas e plataformas online, sei que foi o facto de me ter chegado à frente ao balcão, da forma mais tradicional de sempre e ter dito 'posso deixar aqui o meu CV?', que me conquistou uma entrevista. Quando olho para a apresentação do CV que entreguei, na altura, dá-me um aperto no peito de vergonha e agradeço ter conseguido mostrar quem sou e do que sou capaz pessoalmente. Mas é assim que se aprende. Não há outra forma mais eficaz.
Fui a três entrevistas e consegui o meu lugar. O meu primeiro emprego. Fiz tudo; arrumei stock, fiz horário de abertura de loja, fiz horário de fecho de loja, estive presente na chegada dos novos artigos, mudei a disposição dos produtos, fiz caixa, aprendi conceitos e tarefas que nunca na minha vida iria aprender de outra forma, lidei com clientes incríveis e também fui muito destratada por clientes que tinham tido um mau dia e decidiam descarregar em nós porque nos viam como se fôssemos inferiores ou mesmo burros por trabalharmos ali. Claro, também meti muita pata na poça durante a minha passagem por lá. Faz tudo parte da aprendizagem.
Partilhei convosco que o meu primeiro emprego foi uma óptima experiência e confirmo. Sei que isto pode surpreender quem já foi lojista — pelo menos os meus amigos ficaram surpreendidos — mas a verdade é que me dava muito bem com o meu chefe, a minha responsável e gerente era impecável e toda a equipa que trabalhava na loja era simpática, prestável, paciente e compreensiva comigo, sem ambientes desagradáveis. Não sentia que alguém me queria tramar ou implicava comigo, qualquer imprevisto ou algo que precisasse de aprender era bem recebido e terminei toda a experiência com muito orgulho em mim e das pessoas com quem trabalhei, extraordinárias. É raro, eu sei, mas sou muito grata por isso.
Existe — e não se aborda muito, mas é inegável — uma certa vergonha em aceitar ou dizer que se fez determinados trabalhos que, no silêncio escondido de muita gente, se consideram 'pouco dignos'. Dignos para o seu grau académico, intelecto ou aspirações. Ser caixa num supermercado, vender perfumes num shopping ou limpar ruas ainda parece ser algo digno de vergonha ou de derrota, de falhados. Se estamos lá é porque não conseguimos nada melhor. Porém, confesso que nunca tive esta visão.
Fui trabalhar porque não queria ficar sentada em casa. Não queria chorar por ser um tesouro em bruto que ninguém notava, ou por não aproveitarem o meu potencial. Se era o meu emprego de sonho? Não. Mas os empregos de sonho não se conseguem escondidos do mundo, no nosso quarto. E se o caminho mais fácil e mais natural parecia inacessível, dei a volta e deixei que as minhas capacidades e relevância comunicassem por si. Fui lojista, mas podia ter servido às mesas ou feito caixa num Supermercado. Trabalhei. Conheci pessoas e cheguei a outros caminhos que não sei se teria conhecido ou chegado se não tivesse começado desta forma.
Sei que tem um gosto de conto de fadas e que pode não ser uma verdade global. E eu compreendo. Mas foi algo que resultou comigo e que resulta com tantas pessoas ao meu redor. Como não acreditar que é este o caminho que faz sentido? Como não acreditar que só temos trabalho quando já estamos a trabalhar (seja no que for) e a dar a cara, a ir aos lugares, a falar com as pessoas?
Mesmo que nada disto tivesse resultado neste caminho onde estou agora (e mesmo que tudo daqui em diante corra mal) contactei com os valores profissionais — que são os mesmos a limpar chão e a enviar e-mails importantes —, experimentei novos desafios que me permitiram conhecer melhor e descobrir capacidades que não sabia que tinha, e ganhei estaleca. Muitas das coisas que aprendi valem-me para a vida e não apenas para uma área em particular. E não é isso que devíamos almejar? Crescimento pessoal? Desenvolvimento de capacidades (profissionais e inter-pessoais)? E se conseguimos isto nestes empregos, o que têm de indigno, de vergonha, de falhanço ou desaprovação? É preferível ficar estagnado?
Um trabalho que respeite a nossa dignidade e apresente um salário conforme às funções já é digno por si só. E o meu avô sempre disse 'antes um trabalho na mão que nenhum'. Bom, se vos garante estes dois pontos, eu concordo. Há que fazer o que tiver de ser feito para crescermos, para construirmos os nossos objectivos e a nossa autonomia. E darmos a cara. Não há que ter vergonha de abraçarmos camisolas inesperadas, não há pouca dignidade em termos de seguir um outro caminho enquanto procuramos a ponte que nos leva à rota que queremos. Há maturidade, isso sim. Estamos a encarar a realidade arregaçando as mangas e não aceitamos um 'não' do mundo como resposta. E podem ter a certeza de que a Inês de hoje trabalha com o mesmo afinco e vontade de aprender que a Inês que se apresentou para o seu primeiro dia numa loja. E trabalharei sempre assim. Sem vergonha. Porque a dignidade não está no trabalho que escolhi e sim nos meus valores como pessoa e trabalhadora. E esforço-me muito para que sejam inquestionáveis.