sábado, 23 de outubro de 2021

MUNDO || Etapas e Experiências


Surgiu numa conversa a dois pela madrugada: os sonhos, as aspirações, os objetivos que vão florindo ao longo da vida; escolher um curso, fazer intercâmbio, tirar a carta, licenciar, escolher uma profissão, fazer uma carreira, ser promovido, mudar de casa, casar, ter cães, ter filhos, comprar uma casa maior. Se estiver tudo cumprido antes dos 30, ganham o jogo. Depois dos 30, o mundo é abstrato. 

Sempre escutei cada um destes acontecimentos como etapas. ‘São etapas da vida’, explicamos, com um objetivo sequencial e evolutivo: cada etapa é mais simbólica, importante, essencial do que a outra. Tal e qual os protocolos laboratoriais que vinham parar à bancada: a primeira etapa era a mais fácil, fazer quase que uma mise en place laboratorial, reunir todos os reagentes. A última etapa era quase apoteótica, decisiva, um reflexo de que tudo antes tinha corrido bem. 

Não acredito muito numa vida de etapas. Aquelas com tempos, aquelas que têm de ser cumpridas pelo cronómetro (interno e/ou social) e não pelo amadurecimento, pela vontade, pelas condições, pelo sentido. Etapas pesam, etapas são obrigatórias. Etapas determinam se é uma vida falhada ou bem sucedida. Etapas têm de ser vividas por quem ainda não tem a alma certa para as viver. 

Experiências. Gosto delas. Experiências de vida. Experiências acontecem quando estamos preparados (mesmo quando não o sabemos). Experiências amadurecem, dão medo, enriquecem ou suavizam, preparam ou desafiam. Experiências podem acontecer (devem acontecer!), mas também podem nunca chegar até nós. Por obra do acaso, do percurso ou da decisão (não há falhas, apenas escolhas e caminhos). Podemos ser nós a criá-las ou podem vir até nós. Experiência é o que vivemos agora, todos os dias. Se existe alguma experiência que não estamos a viver, neste momento, é porque temos outra em mãos. 

Etapas têm horários.
Experiências têm lugares personalizados.

Tudo depende do prisma. Se virmos a vida como um bolo de etapas, sobram migalhas de algo que foi devorado e mal digerido. Se virmos a vida como um bolo de experiências, lambuzamo-nos devagar com cada fatia que aterra no prato. Veio na hora certa. Estávamos esfomeados.

2 comentários:

  1. Um dos meus conflitos é sobre isto. Sobre tecer objetivos e não aproveitar o processo, ficando frustrada quando sinto que estou a falhar ou a perder o fio à meada... Aos poucos, estou a sair disso, mas confesso que há certos aspetos que ainda me fazem pensar em demasia!
    Tens aqui uma bela reflexão. Gostei particularmente do final e da alusão à degustação de um bolo hehe pois é tal e qual como descreveste. Entre não sabermos o que estamos a comer e o saborear de cada ingrediente, óbvio que a segunda opção vale muito mais!.... Além de ser através dela que realmente aprendemos!

    Muito obrigada por este texto, Inês!
    Beijinhos,

    Lyne, Imperium BlogCongresso Botânico - Podcast

    ResponderEliminar
  2. Gostei muito da forma poética e romântica como trataste este tema. Agrada-me também o teu ponto de vista!
    Um beijinho.

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)