sábado, 19 de junho de 2021

MUNDO || O Home Office Veio Para Ficar?


O home office foi uma das mudanças-chave da maioria do nosso quotidiano, em 2020, mas esta era uma experiência que já tinha vivido anteriormente — sem estar atrelada a uma pandemia — e que, tal como agora, tenho adorado. Foi com alguma surpresa, confesso, que observo que esta não é uma sensação comum.
 
A fusão do espaço de descanso com a área de trabalho, os horários profissionais dissolvidos e a incapacidade de manter a produtividade com a criatividade e vigilância para cuidar dos filhos em casa têm sido o pódio principal de razões para que tantas pessoas desejem regressar aos seus postos de trabalho, a par da necessidade de troca de ideias pessoalmente, entre equipas e colegas. Mas sinto que, em alguns pontos, a pandemia prejudicou toda perceção do potencial do home office e acredito que voltemos a regredir em inúmeros aspetos — pelo menos, em Portugal.
 
Muitas pessoas não experimentaram, na verdade, um home office e sim um confinamento no qual as suas casas foram locais de trabalho, lares, cantinas, creches, ATL’s, prisões e refúgios. Tudo num só lugar, quando sabemos que um só lugar não pode ser tudo. Não podíamos sair e ver amigos, trabalhar num café, espairecer no final do dia, deixar os miúdos na escola. E encarámos este confinamento e limitações da pandemia como uma definição de home office da qual querermos descartar rapidamente.
 
O home office não é isto e nunca foi. Num contexto normal, não há miúdos em casa porque estão na escola, podemos sair de casa, podemos ter reuniões presenciais quando elas assim se justificam, podemos ir ao escritório durante a manhã tratar de alguns assuntos presenciais, ver outros rostos, trocar ideias. O home office não é estático nem limitativo, porque a nossa rotina profissional e pessoal também não devia ser: há dias em que precisamos de trocar algumas palavras, ver as reações imediatas olho no olho, desfrutar um pouco do clima social que um ambiente com pessoas sempre proporciona. Mas também há dias em que nos podemos focar num abrigo mais pessoal e deixar o trabalho fluir na nossa zona de conforto, sem interrupções, sem trânsito, sem deslocações, ao nosso ritmo. Não imagino uma rotina de trabalho mais incrível.
 
Reconheço-me como uma fã assumida de home office. Trabalhar em casa não me aborrece, não sinto barreiras intransponíveis nas alternativas online, adoro não ter de enfrentar trânsito até ao trabalho e sinto que consigo gerir bem a dicotomia de horário de trabalho/descanso e espaço de trabalho/casa. Também sei que tenho do meu lado algumas ferramentas vantajosas, entre elas uma empresa que quis manter os horários de trabalho e que realmente os cumpre, permitindo aos seus funcionários desligar depois de ‘picar o ponto’. Não existem horários cinzentos, chamadas fora de horas nem intromissão no espaço pessoal. Existe também um clima de confiança, onde os resultados falam pela produtividade da sua equipa. Mas compreendo que nem todas as entidades são assim.
 
Também tenho perceção que o home office não funciona para todos os tipos de emprego e que muitos estão a fazer um verdadeiro contorcionismo para continuarem a respirar à superfície. Mas também existem muitos empregos onde é absolutamente possível o home office funcionar, se lhe déssemos uma chance de ver como é a sua dinâmica num quotidiano mais livre e seguro, onde os filhos têm horários, onde podemos almoçar e jantar fora, onde podemos trabalhar onde quisermos sem restrições pandémicas.
 
O home office começou em março num clima de desconfiança pela produtividade dos seus funcionários. Muitos esfregam as mãos precisamente ao verem essas mesmas pessoas a desesperar por regressar ao escritório, depois de uma experiência traumática — a vários níveis — e que acaba concentrada numa definição de trabalho em casa que não é real. Infelizmente, sinto que esta modalidade não irá imperar em muitos espaços de trabalho e estamos a perder uma oportunidade de progresso profissional, onde o colaborador é mais livre e produtivo (porque quem não tinha transparência profissional em casa, também não a tem no escritório, sejamos honestos), onde é mais dono do seu tempo e, por consequência, mais satisfeito. Se o home office em Portugal é perfeito? Não, mas é na consistência que se vai melhorando e que, ao seu ritmo, as empresas vão cada vez mais adaptando a sua dinâmica a esta realidade. Mesmo sabendo que nem todas as empresas, pessoas e rotinas têm perfil. condições e recursos para um home office (e compreendo inteiramente), tenho pena que, de uma forma generalista, não estejamos a dar ao teletrabalho a oportunidade que realmente merece para prosperar a longo prazo em Portugal.

Qual é o vosso testemunho do teletrabalho? Estão a gostar desta rotina ou desesperados para regressar ao escritório?

7 comentários:

  1. Gostei muito desta reflexão.
    Também acho que a "moda" não vem para ficar em Portugal. Acredito que ainda somos muito conservadores. Obviamente, acredito que algumas empresas (as que consigam perceber realmente o potencial desta forma de trabalho) vão adoptar/já estão a mudar para os "home-office" sempre que possível.
    Mas, no geral, ainda há muitos cépticos em relação a isso.
    Eu estive, no início da pandemia, alternadamente em casa e no local de trabalho (a minha posição é indispensável no local) ao passo que outros colegas ficaram mesmo em casa.
    Eu gostei muito da experiência, consegui ter tempo para trabalho e outras coisas nos momentos "mortos". E via-me a ter uma posição que me permitisse trabalhar apenas e só em casa (ou noutro local, remotamente).

    Acho que, quem tiver oportunidade para se tornar trabalhador remoto, pois leva-nos a isto, vai fazê-lo. Quem não pode e gostou do trabalho em casa, vai desejar ter outras oportunidades como esta que a pandemia trouxe.

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  2. Trabalho na área da saúde, por isso o meu trabalho nunca deixou de ser presencial, mas pelo que tenho ouvido dos meus amigos e até clientes é que, com filhos em casa, o teletrabalho é muito difícil. Mas como dizes, numa situação normal, as escolas e creches acoelhem os miúdos à mesma.
    A grande parte dos meus amigos adorou o teletrabalho e, felizmente, mostrou às suas empresas que é possível trabalhar bem a partir de casa. Mas tenho noção que as áreas onde trabalham (marketing, programação) também já são áreas que mesmo antes da pandemia deixavam os trabalhadores escolher pelo menos um dia por semana, fazer teletrabalho.
    Infelizmente, também sei de casos em que a situação familiar é complicada, pelo que o "escritório" era quase um refúgio e este confinamento teve repercussões negativas a nível de saúde mental.
    Espero que as empresas escolham cada vez mais dar a opção de teletrabalho aos trabalhadores, quando possível. Principalmente em Lisboa, em que a maioria de nós vive na periferia, evitar trânsito e tempo perdido em transportes é uma grande mais valia.
    Beijinhos!

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  3. O meu trabalho é 100% exequível à distância, estou desde março de 2020 sem colocar um pé no escritório, e tem funcionado. Estou a gostar da experiência, já aconteceu utilizar tempo que poupo nas deslocações para tratar de mais um assunto ou outro, mas não me é imposto e nem o faço com sentido de obrigação. Não sinto que a vida profissional tenha tomado conta do meu espaço pessoal e o meu dia de trabalho termina no momento em que guardo o equipamento da gaveta.
    Mas esta é a minha experiência, uma pessoa com um emprego estável, com superiores sempre prontos a ajudar, sem crianças em casa, com recursos informáticos, com suporte familiar e - ainda que com evidentes períodos mais ansiosos devido ao atual panorama - com uma saúde física e mental estáveis, portanto não sei até que ponto esta situação seria sustentável se - como muitas pessoas - não tivesse estas bases. Sinto que há falta de regulamentação no teletrabalho, já estamos com quase ano e meio de empresas inteiras a funcionar remotamente e com os funcionários completamente abandonados, a suportar todos os custos e a fazer uma ginástica tremenda para equilibrar a vida familiar, saúde e trabalho.
    Apesar de estar a ser uma experiência positiva, vou ficar feliz quando puder voltar ao escritório.

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  4. Enquanto estudante, sinto que o ensino online é para acabar asap mas que pode ser uma mais valia para o futuro (p.e. alguém estar doente e pedir para ver a aula em casa, o professor ter de fazer uma viagem e conseguir dar aula à mesma), é demasiado duro, sobretudo nesta idade. Quanto a trabalho, como sabes não exerço, mas acho que esta flexibilidade pode ser uma mais valia brilhante se for bem estruturada e executada, como referiste! Eu gosto muito de estar com as pessoas e de sair do meu espacinho mas o não ter de apanhar trânsito soa a magia, porém sinto que home office em início de carreira pode ser muito estranho porque acredito que a integração não é tão simples assim - isto porque observo o percurso do meu irmão e de colegas!

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  5. Desconfio que, em Portugal, iremos regressar ao trabalho presencial sem sequer considerar esta opção (de uma forma global), mas não estou desejosa por voltar ao escritório a tempo inteiro. Neste momento, estou a trabalhar num regime híbrido, totalmente adaptado às minhas funções, e é a solução ideal. Viver sozinha e não ter filhos permitiu-me viver esta experiência de uma forma muito mais tranquila do que muitos colegas, mas sou super a favor do teletrabalho e espero que continue.
    No meu caso, o ideal é mesmo como estou agora: três dias em casa e dois no escritório (dois escritórios diferentes, um dia para cada um).

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  6. No meu caso, 100% possível fazer tudo em casa. Adoro trabalhar em casa, e por mim continuava assim. Trabalhar com os meus gatos ao lado? Não posso pedir mais nada para ser feliz.

    Também tive aulas em regime à distância e correu tudo lindamente. Só quando a professora começou a ir para a faculdade e havia alunos na sala + alunos em casa é que as coisas deram para o torto. Quem estava em casa apenas ouvia a professora, o resto era um barulho de fundo horrível: quantos mais alunos na sala de aula, mais barulho, mais desconfortável eram as aulas. Era mais fácil a professora comunicar com quem estava na sala do que com quem estava no zoom. Há que trabalhar esta questão porque pode ser incrivelmente bem aproveitada no futuro.

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  7. O teletrabalho para mim não foi novidade: já tinha experimentado em situações em que tive que ir ao médico ou quando só trabalhava manhãs (moro em Braga e trabalho na Maia, e felizmente as minhas chefias sempre foram extremamente compreensíveis e eram os próprios a incentivar o trabalho remoto quando tal se justificasse). Para além disso, a empresa antes da pandemia já tinha adotado um modelo de trabalho em que o funcionário, se quisesse, poderia estar 1 dia em teletrabalho todas as semanas, desde que fosse fixo.
    No meu caso particular, estar tanto tempo em teletrabalho foi maravilhoso. Senti e ainda sinto falta da rotina de escritório e da parte social, mas trabalho sozinha em casa, tenho espaço e sou muito, mas mesmo muito mais produtiva, até porque não tenho interrupções nem estou num open space. Voltámos ao escritório em setembro de 2020 num regime híbrido, no qual ia 2x por semana, e dei por mim a questionar como me conseguia concentrar com tanta gente à volta (e o escritório estava a 1/3 da capacidade).
    Percebo os argumentos de quem não goste de estar em teletrabalho, mas o mercado devia aproveitar esta oportunidade para progredir e dar essa flexibilidade aos trabalhadores. Um regime 100% em teletrabalho para mim, a longo prazo, não funcionaria. Mas sou fã dos regimes híbridos e espero que venham para ficar. Trabalhar a partir de casa melhorou imenso a minha qualidade de vida (já não acordo às 6h da manhã para treinar, já não perco 1h30 de viagens e uso esse tempo para outras coisas, poupo imenso dinheiro em portagens e gasóleo...). Por isso, espero mesmo que esta mudança aconteça :)
    Daniela Costa

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