quinta-feira, 8 de outubro de 2020

MUNDO || (Ainda) Compro Revistas e Jornais

A chegada em força do conteúdo digital ajudou a democratizar a informação e a torná-la mais acessível. Num só lugar, temos acesso a informação, notícias, tendências, inspiração, entrevistas e testemunhos. E embora eu reconheça muito as vantagens do mundo digital, continuo a comprar alguns jornais e revistas. A razão? Uma palavra: algoritmo. 

Os algoritmos fazem parte de todas as plataformas digitais que utilizamos e, entre outras coisas, aprendem tudo aquilo de que gostamos ou não. O objetivo do algoritmo é selecionar criteriosamente tudo aquilo que ainda não conhecemos mas que podemos vir a gostar (com propósitos comerciais, é claro). É por isso que, quando pesquisamos sobre uma notícia, uma marca, um produto ou uma série surgem, de seguida, sugestões semelhantes que desencadeiam mais um conjunto de propostas, à medida que as vamos explorando, num círculo vicioso.

O objetivo é que fiquemos rendidos a sugestões que têm tudo a ver connosco (ou podem vir a ter) e, assim, nos tornemos consumidores dos produtos ou serviços sugeridos e que observemos cada plataforma como uma referência para encontrar novas coisas de que gostemos. Há conteúdos (importantes) que nunca irão chegar aos nossos olhos porque o algoritmo não sabe que nós gostamos, ou assume que não gostamos por darmos mais atenção a assuntos diametralmente opostos. Pensem assim: se só veem a cor azul, dificilmente ele vai sugerir-vos um laranja. O resultado é aquele que muitos de nós já sentimos: que estamos sempre a ver, ler ou a descobrir coisas parecidas, mais do mesmo. 

A minha opção de comprar revistas e alguns jornais, além de toda a cultura editorial que eu aprecio e mesmo não negando que adoro beber o meu chá e folhear um suplemento, permite-me escapar do meu próprio algoritmo e ver coisas que nunca iriam surgir digitalmente porque não sou o público ou o nicho. Conteúdos que nunca iriam surgir nos destaques dos sites de notícias ou nas redes sociais e plataformas de stremming às quais pertenço. Ver conteúdos que não seriam uma escolha óbvia da minha parte permite-me alargar os horizontes e sair da roda do hamster; compreender pontos de vista diferentes do meu (ou, pelo menos, tomar conhecimento deles), conhecer novas correntes decorativas, musicais ou de moda, sugestões cinematográficas que, provavelmente, estão no fundo do meu catálogo. Conhecer um mundo fora do meu umbigo. Porque o papel não me conhece. 

É inocente pensar que os jornais e revistas não conhecem o seu público; eles fazem uma pesquisa de mercado e consumo tão assíduo como o digital, portanto, também há um nicho e um filtro. Mas não é individual e, portanto, a base de conteúdos tem de ser mais abrangente e alargada. 

Gosto de ser advogada do diabo e reconhecer que, em alguns aspetos, o algoritmo não é inteiramente mau. Eu gosto de ter sugestões que combinem comigo e com os meus interesses. Mas também preciso de explorar e descobrir coisas novas. Pesquisar um assunto que li no jornal, uma figura que surgiu numa entrevista, uma marca local a dar os primeiros passos ou uma série norueguesa que nem sequer está no top 10 da Netflix baralha o meu algoritmo e permite que ele me sugira coisas completamente novas. Não estou sempre a comprar revistas e jornais — e sou seletiva nas edições que escolho — e também sei que não é necessário fazê-lo para dar um refresh ao algoritmo (às vezes, carrego em assuntos e sugestões completamente aleatórias só para fazer esse shuffle) mas é a o ritual que eu sinto que tem resultados mais positivos. Descubro sempre algo novo sobre mim, sobre os meus gostos e as minhas convicções.

Ilustração: Sanny Van Loon

3 comentários:

  1. Sempre que faz sentido também ainda compro jornais e revistas, no entanto no dia-a-dia decidi criar algumas formas de me manter informada fora de algoritmos: subscrevo newsletters dos jornais de que mais gosto e tenho uma lista no Twitter só com meios de comunicação social, de vários países, para poder estar um bocadinho mais informada. De momento não tenho forma de o fazer, mas no futuro vou ponderar comprar assinaturas digitais de um ou dois jornais, de forma a ter acesso a ainda mais conteúdo jornalístico.
    Apesar das críticas constantes aos jornalistas e aos jornais, ainda continuo a acreditar no jornalismo e sei que não estou sozinha - a tua publicação é a prova disso mesmo.


    A Sofia World

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  2. Obrigada por contribuíres para um bem tão essencial como as noticias e o jornalismo, que todos os dias damos como garantido. Mesmo não querendo ser jornalista, agradeço-te em meu nome e de todos os meus colegas <3

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