segunda-feira, 16 de setembro de 2019

ISTO É TÃO INÊS || Aprender Uma Língua Nova


Quem me acompanha há algum tempo está a par de que estou a aprender Alemão — de forma autónoma, para já. E que aventura tem sido...! Nunca me tinha desafiado a aprender uma língua a não ser no contexto escolar e cada momento é uma novidade. Embora exigente, é uma experiência muito enriquecedora que eu estou a gostar de viver. Por isso mesmo, decidi reunir algumas das coisas que mais me têm acontecido e que, possivelmente, são comuns a todas as pessoas que estão a aprender uma nova língua.

Entender as regras é o verdadeiro desafio
Especialmente se não tens grande formação linguística. Em que ordem escrevemos uma frase? O verbo vem no fim?! Como assim? Se traduzir isto em português, literalmente, pareço um neanderthal! O pronome masculino é usado num conceito feminino?! Enviem reforços, imediatamente!!! Nunca vou conseguir formular uma frase!

A sensação de felicidade quando consegues ler uma frase e entender todas as palavras
Aconteceu-me pela primeira vez com a seguinte frase: 'Preferes chá ou café ao pequeno-almoço?'. Não imaginam o quanto eu fiquei radiante! Existe a ilusão de que aprender uma nova língua tem mais momentos destes mas é uma ilusão. Na maior parte das vezes, lemos um texto e não identificamos um milhão de palavras que são cruciais saber para que a narrativa faça algum sentido. Quando conseguimos ler integralmente uma frase é uma sensação de recompensa e vitória indescritível. Ah, afinal é para isto que eu estudo! Não está a ser em vão!

Os constantes pedidos para que digas 'alguma coisa'
Não poderia existir algo mais assustador. A aprendizagem de uma língua é um processo moroso e exigente que, na maior parte das vezes, deixa quem aprende muito envergonhado. Raramente estamos com a dicção perfeita ou com o conforto léxico para comunicar na língua que estamos a aprender, especialmente quando todos estão expectantes, o que nos deixa mais nervosos e perdidos. Literalmente, esquecemos tudo o que aprendemos e ficamos em branco a olhar para os outros. É um pedido muito desconfortável e que não encoraja quem está a aprender.

Quando dizes a alguém, que fala a língua, que a estás a aprender e respondem na própria língua uma frase mega complexa
Rir e dizer que sim nessa língua — é das primeiras palavras que aprendemos, resulta sempre! Dá vontade de cavar um buraco e de lá não sair, não é? Mas mais que isso, dá vontade de responder 'aguenta os cavalos, não estou nesse nível e nunca estarei porque estás a falar à velocidade de um nativo!' Um dos maiores obstáculos em relação a aprender uma língua é a velocidade de discurso. Não é ao acaso que formulamos frases devagar e que pedimos para que também respondam na mesma velocidade. Não é uma língua que nos é natural! O nosso discurso envolve muito raciocínio para formular a frase em português, encontrar o vocabulário direto na língua que estamos a aprender e ainda formular a frase. O processo contrário para entender o que estamos a escutar. Um discurso a velocidade normal é muito difícil de compreender porque juntamos muito as palavras. Por vezes, até as comemos, a entoação e o sotaque mudam completamente a sonância... Não precisam de ir muito longe: peçam a alguém do Brasil que fale convosco à velocidade normal. Ou o contrário. Não vão entender algumas palavras e estão a conversar a mesma língua! Imaginem este cenário em alguém que ainda está a aprender?

A impaciência
Já referi que a aprendizagem demora e que é uma constante montanha-russa: há momentos em que sentimos que fizemos muitos progressos e outros em que parece que esquecemos tudo o que já aprendemos e regressámos à estaca zero. Quando achamos que já sabemos bastante vocabulário, lemos um artigo e encontramos 40 milhões de palavras novas. Consegue ser um processo frustrante e quando o encantamento inicial se dissipa, é fácil perder a vontade. Afinal de contas, a probabilidade de virmos a precisar de falar essa língua, provavelmente, é mínima. Mas esta vontade de quebrar a barreira linguística apela-me e motiva-me.

Parecenças perigosas
Palavras que têm uma escrita semelhante ou uma sonoridade parecida são um perigo. Julgamos que estamos a arrasar no nosso vocabulário e dicção mas, na verdade, estamos a dizer 'sou uma galinha' com a confiança que só um ignorante pode ostentar. Faz parte embora, quando nos apercebemos do erro, sejamos perseguidos por ele até nos nossos sonhos. Como foste capaz de dizer que és uma galinha??

Começas a dizer frases com múltiplos dialetos
Se antes já dava por mim a misturar algumas palavras de inglês com português, a junção do alemão não veio ajudar a esta salada linguística. É que há palavras que encaixam muito bem no conceito que queremos dizer ou que têm uma sonoridade lindíssima e que dá vontade de dizer a cada oportunidade. Seja como for, enrodilhamos as frases com uma mistura de conceitos e palavras que resultam numa frase multi-linguística. Há quem ache muito irritante; eu acho caricato. Acho que reflete muito bem e de forma inocente as nossas pluralidades — até a falar.

O descortinar de um novo mundo
Alemão, para mim, era uma língua austera, fria, ríspida e de comando. Era a sensação que me passava unicamente pelo som — porque tudo o resto eu não compreendia. Uma vez que temos uma língua-materna e aprendemos inglês desde cedo, as nossas perceções destas línguas ficam um pouco esbatidas mas basta explorarmos o resto do mundo: italiano, russo, dinamarquês... Todas as nossas perceções não são com base na compreensão das palavras e sim no som. Aprendê-las, dar um conceito, um sentimento, uma definição, uma ideia a um som é como ter um cortinado de teatro a abrir-se à nossa frente e a mostrar-nos um novo mundo de ideias, de transmissão de mensagens. Um muro que se quebra. Letras agregadas que agora fazem sentido e deixam de parecer aleatórias. Sons que antes pareciam meros grunhidos e agora têm um significado. Eu acho... especial. Quase que uma forma lógica de magia. E que de certa forma nos aproxima. Talvez eu não saiba dizer 'quero tocar trompete enquanto ando de iate a ler a constituição' mas sei dizer 'bom dia' a um fluente. Sei agradecer, sei pedir comida e orientações, sei o essencial para quebrar barreira com quem está do outro lado a comunicar comigo. E acabamos por compreender — muito melhor — que as nossas únicas diferenças estão na língua materna. Confesso, nunca fui picuinhas em ouvir outros dialetos — nunca deixei de assistir a uma série, filme ou de escutar uma música só porque não tinha o 'dialecto universal' — e é um traço do qual eu tenho gosto em ter. Aproxima-me do mundo e gera interesse num conceito global de elevada importância, especialmente nos dias de hoje: comunicação.

Desse lado, alguém a aprender uma língua nova? Se sim, qual? E identificam-se com estes dramas? Partilhem comigo quais são os vossos maiores desafios de aprendizagem e força! É difícil começar do zero mas é igualmente desafiante e incrível.

3 comentários:

  1. "Letras agregadas que agora fazem sentido e deixam de parecer aleatórias. Sons que antes pareciam meros grunhidos e agora têm um significado." esta é mesmo a melhor parte de aprender uma língua, seja qual for, é incrível
    Fluentemente só sei português e inglês. Já tentei aprender sozinha italiano (adoro o som) autonomamente mas confesso que não durou mais de 2 meses. Agora, como estou a fazer um semestre da faculdade em França, vou começar a aprender Francês e estou super entusiasmada.
    Tenho duas amigas que também estão a aprender Alemão, então vou aprendendo algumas coisas com elas. A minha palavra favorita até agora é "tschuss", acho adorável!! É uma língua muito intrigante para mim e um dia gostava de também vir a aprender.

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  2. Estou a viver há 1 ano e meio na Holanda e antes de vir para cá fiz um curso intensivo de Holandês de 4 meses, quero com isto dizer, 6 horas diárias de aulas. Foi super difícil e cansativo. Andei esgotada e várias vezes achei que nunca iria conseguir falar o idioma corretamente. De momento, falo quase fluentemente. No meu trabalho só falo Holandês (é obrigatório) e no meu dia-a-dia para fazer qualquer coisa o Holandês é única língua que uso. Entretanto tive de fazer um exame de idioma pois na minha profissão exigem o C1 (Advanced). Isto para dizer que a aprendizagem de uma língua requer muita dedicação. Eu desde que comecei a viver aqui notei muitas melhorias na pronúncia. É super mais fácil quando ouves practicamente 24h/24h a língua.
    Força com isso! No início identificava-me muito com esses tópicos que mencionaste.

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  3. Há uns tempos, como cheguei a comentar numa publicação tua, semelhante a esta, deu-me para aprender italiano. Parei, devido a um conjunto de situações da faculdade, na altura, e nunca mais peguei naquilo. No entanto, com esta fase do trabalho e novas conexões, fiz amizade com um rapaz que já viveu em França e que fala muito bem francês, tendo feito renascer em mim esta vontade, este desejo, de reaprender a língua e, quem sabe, praticá-la com ele!

    Sempre ouvi muitas críticas à língua francesa, que é muito complicado, que não se entende nada, contudo, e penso que muito se deva a este fator, como a minha experiência escolar foi muito positiva, esta língua marcou-me imenso, sendo que a entendo, leio-a bem, no entanto, não com a fluidez que quero! Para recomeçar, já comprei um livro em francês, recuperei um mega dicionário de francês-português, já só falta reinstalar o Duolingo e está! Ai, mal posso esperar, eheheh!

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