domingo, 26 de agosto de 2018

DAILY || Mergulho Noturno


Nunca tinha mergulhado à noite. Cresci como filha do mar (de Santa Cruz, da Barra, da Costa Nova) mas nunca me atrevi a cruzá-lo sem Sol. Por medo e respeito, uma pitada de cada um. E esta experiência tão comum para tanta gente nunca se tinha concretizado na minha vida.

Sou filha da água mas a verdade é que não lhe reconheço familiaridade. O chão que não toca nos meus pés devora-me a mente e a imaginação. A biologia diz-me que a caça se faz de noite. E o negro opaco da água nocturna não é apetecível. Não brinco com a água. Não me reconheço como leve ou inconsciente nas minhas acções com ela. E escolho criteriosamente os lugares onde quero ser corajosa.

E decidi que queria sê-lo na barragem, numa noite fantástica e tropical de Verão onde a brisa era leve como as mães quando sopram nas feridas dos seus filhotes. Sem luz a poluir o céu, as estrelas brilhavam com toda a força e conseguia identificar na perfeição a Ursa Maior e a nossa galáxia. Só se ouvia o som da água, negra, cujos relevos da ondulação se podiam identificar pela luz do luar.

Foi de riso miudinho e corrida de criança que saltei a pés juntos para a água fresca e escura. E quando saltamos assim, para dentro, sem ser de frente ou bate-chapas nas ondas, sentimos que estamos a ser devorados por um buraco negro. Abrimos os olhos e não vemos nada. Emergimos e não somos acariciados pelo Sol. Em compensação, milhões de estrelas sorriem para nós e o brilho combina com o que está nos nossos olhos, nas nossas gargalhadas.

Há uma sensação de infinitude e incerteza que, aí sim, reconheço (em mim e na água). O de não saber o que aí vem, mas encarar esse negro de riso autêntico e olhos a brilhar. De não ter pé e isso não me impedir de olhar para cima e me deslumbrar. De ter medo e respeito, mas correr e saltar. O silêncio apenas cortado pelas minhas braçadas na água, a Via Láctea desenhada no céu, o manto negro que me inundava e fazia o coração bater mais depressa. Não precisei de mais para, naquele momento, me sentir mais feliz e viva do que nunca. Grata.

6 comentários:

  1. Uma das tantas experiências que me falta... Também me considero filha da água como tu, e oportunidades não me faltam. Mas tenho igualmente receio. Ainda bem que conseguiste e que foi uma boa experiência :)

    ResponderEliminar
  2. Confesso que também me falha essa experiência - talvez mesmo por essa mistura de medo e respeito. Há algo no facto de não ter como saber o que está no meu caminho que, de facto, me aterroriza um bocadinho...mas ler isto fez-me quaaase querer fazer o mesmo :)

    Jiji

    ResponderEliminar
  3. Apesar de não saber nadar, também me considero filha da água. É contraditório, eu sei, já que não temos uma relação de confiança na sua verdadeira plenitude (caso contrário, eu saberia nadar), mas sinto que me é familiar e que me aconchega.
    Um dia também quero ter essa experiência. Ler este texto fez-me querer ainda mais!
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

    ResponderEliminar
  4. Ainda não risquei esta experiência da minha lista de muitas coisas para fazer, já tive oportunidade, mas talvez o medo tenha falado mais alto. É como dizes, "O chão que não toca nos meus pés devora-me a mente e a imaginação."
    Porém é uma coisa que quero fazer e pelo que nos relatas foi uma experiência incrível :)

    ResponderEliminar
  5. A primeira vez que o fiz foi em Ferreira do Zêzere (não sei se conheces) e foi inesquecível. Depois, mais tarde, no Algarve! Sempre mágico *.*

    ResponderEliminar
  6. Uma das coisas mais corajosas que já fiz em relação ao mar foi nadar em alto mar, nos Açores, bem longe da costa e com a segurança de que estava um barco para me poder segurar. Quando me apercebi de que eu não iria ao fundo devido à densidade da água, foi como se eu sofresse uma mudança indescritível, uma sensação que carrego comigo, até hoje!
    Portanto, se já ultrapassei um dos meus medos durante o dia, talvez um dia arrisque e nade durante a noite! Deve ser uma experiência como nenhuma outra!

    LYNE, IMPERIUM BLOG

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)