terça-feira, 3 de outubro de 2017

VÍDEOS || The Bowl


Provavelmente, já estão a revirar os olhos ao ver que estou a partilhar convosco mais um vídeo do Peter McKinnon. É justo, porém, hoje não partilho o vídeo por causa dos tutoriais ou das dicas de fotografia, como habitual. Hoje o assunto é completamente diferente e recomendo que assistam primeiro ao vídeo, agora, antes de começarem a ler toda a minha publicação.
Esta curta, gravada pelo próprio Peter, foi feita no Quénia, o que despertou a minha curiosidade. Mas quando ele mostrou a fotografia do balde é que me transportei imediatamente para aquela aldeia que visitei, no Senegal. Nunca um discurso fez tanto sentido para mim e fui ao encontro das palavras dele durante todo o vídeo, recordando-me da minha viagem.

Como em qualquer lugar, cada país é um país, com a sua cultura única, tradições e formas de viver distintas e próprias. No entanto, as dificuldades e as condições trágicas que Peter observou numa aldeia do Quénia, também eu observei no Senegal, e aquilo que o emocionou foi precisamente o mesmo que me emocionou a mim: a resiliência e capacidade de serem felizes com pouco.

Este assunto não é novo, aqui no Bobby Pins, e já me fartei de falar o quanto eu admiro este facto, tanto na República como em Cuba e, mais evidente ainda, no Senegal. Mas é mais importante do que imaginam porque ser feliz com pouco é uma coisa que nenhum de nós sabe o que é. Tendo cama, comida, tecto seguro, família estável, liberdade para escolhermos o que queremos fazer, o que queremos estudar, o que queremos comer, quando queremos comer e com quem queremos estar é ser feliz com muito e nem nos apercebemos.

Ainda hoje fico confusa com o paradoxo: nós é que fazemos a visita, mas também somos nós que passamos a maior parte do tempo com os olhos aflitos. Não têm nada e estão famintos, mas há um brilho no olhar que nunca mais encontrei em ninguém. Têm uma força e vontade de viver que eu não encontro num feed no Instagram. Têm uma resiliência, uma esperança, uma força para quererem superar os problemas e adversidades que me inspira. Para eles, o mundo não lhes virou as costas, é apenas mais um desafio e isso é evidente quando temos dois dedos de conversa. E é inspirador.

Na vida, vamos encontrar muitos baldes partidos e a maior parte de nós vai sofrer com isso e, logo a seguir, deitá-los fora. Sofrer é inevitável e justo, mas podemos sempre decidir que temos a linha na mão e remendá-los, mesmo que não tenha lógica, mesmo que nos digam que é um "caso perdido, mais vale arranjares outro". Por vezes, não há outro balde e remendá-lo, por mais imperfeito que fique, é a solução e é o significado de esperança. Talvez não remende tudo, mas corrige o principal. Não desistir, mesmo quando parece o caminho mais natural e lógico, não deixar de inventar soluções para assuntos que parecem perdidos e dar sempre novas oportunidades de recompor o mundo (o nosso, cá dentro do coração, e o nosso, lá fora, com árvores bonitas).

Eu continuo a ter obstáculos, eu continuo a ter as minhas tristezas e a chorar mesmo tendo uma vida privilegiada. Mas ter tido um contacto tão orgânico com a persistência e a felicidade pura ensina-me, todos os dias, a ser melhor e maior que os meus problemas porque há, todos os dias, pessoas inspiradoras a fazê-lo, com problemas maiores que os meus. Todos os dias dão-me força para relativizar e para olhar para os recursos que tenho. Dão-me força para voltar a ter esperança e voltar a ser feliz quando as nuvens negras se abatem sobre mim. Todos os dias, eles relembram-me que eu tenho uma linha que dá para coser o balde. Mesmo que me digam para deitar o balde fora.

1 comentário:

  1. Que vídeo espetacular, Inês, e que lições tão bonitas que retiraste dele e da tua viagem! A tua resiliência inspira-me :)

    ResponderEliminar

Quaisquer comentários que visem a ofender e/ou afectar a minha integridade, dos meus leitores, comentadores, bloggers ou entidades que refiro nas minhas publicações não serão aceites.

Quaisquer questões colocadas serão respondidas na própria caixa de comentários!

Muito obrigada por estares aqui :)