quinta-feira, 5 de maio de 2022

LIVROS | Ler ou não ler? Eis a questão


Na passada terça-feira, foi transmitido em horário nobre – de louvar! - o programa ‘É ou Não É?’ referente ao tema da literatura. Os dados são preocupantes, com mais de metade dos portugueses a indicar que não leu um único livro no ano passado. 

Confesso que vou sempre atrás deste tipo de peças, reportagens ou painéis de debate mas que acabo por me sentir um pouco defraudada em cada programa porque me parece que orbitamos em todas as edições no mesmo conjunto de tópicos e na mesma tipologia de convidados: fala-se sobre o desinvestimento da educação, do exercício hercúleo que é estimular a leitura (não concordo), do preço dos livros, dos programas de leitura e sempre com convidados pouco representativos (ou com painéis muito pouco abrangentes, uma vez que são sempre figuras de editoras de nicho, de gerações mais velhas – embora tenha sido convidada uma criança neste programa em particular – e que ainda insistem no encaixe dos clássicos para dar o ponto de partida nos hábitos de leitura). 

As crianças são sempre um tema central na discussão, mas já sabemos que são os adolescentes, jovens adultos e adultos que baixam as percentagens de leitores no nosso país. Algo não está a funcionar porque, claramente, é a minha geração e a geração mais velha que se sente afastada da literatura e que não encontra nos livros uma fonte de prazer, escape, utilidade e entretenimento. 

Quando se discutem hábitos de leitura – e a ausência deles – há sempre algumas coisas que me incomodam nalguns dos discursos que me parecem datados, e talvez o principal seja a demonização do digital. Não há como contornar que os meios digitais têm um peso no quotidiano das pessoas, mas que também podem ser poderosos aliados e, no meu entender, essa conclusão ainda não chegou nas editoras portuguesas. Não acho que as editoras portuguesas aproveitem todo o potencial do marketing digital – programas de afiliados e campanhas de 20% de desconto não chegam -, muitos dos tops de vendas, atualmente, são causados via digital e orgânica, através da criação de conteúdo relacionado com livros que orbitam nas comunidades literárias do Instagram (bookstagram, como é conhecido) ou até no TikTok (booktok) e que se popularizam de tal forma que são as editoras a correr atrás dos livros que estão a ser falados no digital e não o contrário. E os podcasts? Um estrondoso sucesso! 

Vale a pena observar o que está a acontecer além-fronteiras e tomar como um caso estudo: temos editoras a aliarem-se ao potencial das redes sociais e dos seus criadores de conteúdo literário, temos livrarias a aproximarem-se da comunidade através dos seus próprios conteúdos nas redes sociais (mais orgânicos, mais próximos, mais respeitosos com os seus afiliados também). Isto é a prova de que não temos de lutar entre o telemóvel ou os livros; os clubes de leitura digitais há muito que o desmentem (e há editoras emergentes que já estão despertas). 

O preço dos livros é, também, recorrentemente referido, facto esse inegável: numa sociedade (especialmente, se é da geração jovem adulta que queremos falar) que ganha, em média, ligeiramente mais que o ordenado mínimo, é incomportável que a literatura faça parte da sua rotina. Existem bibliotecas? Sim. Mas a acessibilidade das mesmas é muito heterogénea também. A minha biblioteca, por exemplo, abre e fecha no meu horário de trabalho e tem horário reduzido ao sábado. Significa que eu tenho de antecipar que quero lá ir buscar um livro – de um espólio muito limitado. Eu vou porque sou uma leitora. Ninguém com poucos hábitos de leitura se sujeita ao mesmo. E eu tenho plena certeza de que muitas outras bibliotecas – especialmente, fora dos grandes centros urbanos -, por muita iniciativa que tenham, também operam da mesma forma (ou com contornos semelhantes). O que deveria ser uma porta aberta para o acesso gratuito a livros, torna-se num impedimento porque não está adaptada para quando um adulto e jovem adulto têm disponibilidade para desfrutar daquele espaço. 

Compro recorrentemente edições em inglês ou de editoras estrangeiras por dois motivos (em que o segundo irei explorar adiante): são mais baratas! As melhores compras literárias que fiz na minha vida, nunca foram em Portugal. Quase todas as livrarias estrangeiras têm campanhas fantásticas de leitura e preços mais comportáveis. Mas a população portuguesa não tem de ser obrigada a preferir ler em inglês para ter acesso a livros a um preço mais competitivo. Olhar para um livro a 20€ sem saber se vou gostar, custa. E para alguém que não é leitor, custa muito mais. 

Mas uma questão que eu sinto que todos os debates e programas têm falhado miseravelmente em referir é o preconceito literário e a estética. Não podemos estar uma hora a debater o desinteresse dos jovens na leitura e referir no final do programa que Eneida é uma ótima recomendação para ponto de partida. Não podemos continuar a elitizar os leitores que leem clássicos e os que leem livros populares, de massas. Uma pessoa é o que lê, mas não é só o que lê. E enquanto continuarmos a classificar alta literatura e baixa literatura, a conceder apenas espaço nos media e nas premiações literárias aos clássicos ou a autores de uma certa elite, à literatura de classes, enquanto um livro ‘de supermercado’ for considerado inferior, não vamos conseguir compreender para onde caminha a literatura. Com mais livros, mais histórias, mais representatividade, mais ressonância. Existem livros para todos os gostos e ainda não conseguimos passar esta mensagem. Quem não gosta de ler, hoje em dia, só esteve a ler livros errados, que não conversavam com a pessoa. E é fundamental guiar essas pessoas para se encontrarem com as histórias que estão à espera desses leitores. Porque existem, sempre. 

E a estética? É um não-assunto porque é considerado fútil, de menor importância. Mas reflitamos sobre isso: não é só a dinâmica que nos faz sentir atraídos pela televisão e pelo digital, é também a sua curadoria estética. Há muito que estes meios sabem que o ser humano tem atração pelo que é belo e, ainda que a beleza seja um conceito abstrato, a sua curadoria não precisa de o ser, e todas as redes sociais, plataformas e programas têm em atenção a componente estética. Então como a podemos deixar para trás nos livros? Como é que podemos continuar a criar edições em bancos de imagem, como é que podemos continuar a não envolver ilustradores e designers nas capas? Porque é caro, sim. Mas as capas vendem, as capas atraem, as capas são publicidade. E enquanto fecharmos os olhos para isso, continuaremos a ter histórias excecionais em capas vergonhosas. Se continuarmos a olhar para os livros como um conceito museológico e empoeirado, sem o envolver no universo estético, eles continuarão a não ser atraentes. 

Mas, afinal, como responder à questão? Como envolver mais as pessoas na literatura? Dando as mãos ao digital, tirando partido do potencial das comunidades e clubes literários (físicos e online) – porque toda a gente gosta de sentir que pertence a alguma coisa – aproximando mais as editoras do público, recorrer aos criadores de conteúdo (e enviar livros aleatórios para unboxing e fazer percentagens mínimas para os afiliados não é recorrer aos criadores de conteúdo de forma eficiente), envolver os livros numa curadoria estética mais contemporânea e revendo os preços e leis aplicadas ao custo dos livros. Olhar para o que está a ser feito noutros países também me parece uma decisão sensata para tirar notas e sentir otimismo de que as coisas podem ser melhores.

Quando se fala em literatura, sei que cresci com uma orientação privilegiada e acompanhada para ser uma leitora. Mas nem todos têm este ponto de partida. E embora eu acredite muito que a infância e a influência da família é muito forte, não é determinante que só assim criemos leitores. Vamos começar a sair do pedestal, vamos dar espaço para leituras contemporâneas, vamos aproveitar o potencial das comunidades para criar oportunidades, para criar o desejo de ler. Porque, no final, é isso que sobra: o desejo de conhecer histórias e que ela converse connosco como se fosse escrita só para nós.

4 comentários:

  1. Olá Inês!
    Quero muito ver esse debate e fico contente por estarmos a abordar este tema. Tenho a mesma perspetiva que tu e espero que num futuro bem próximo estejamos a conversar sobre a crescente vaga de leitores em portugal. Obrigada pela tua partilha.
    https://sobomeuolhar7.blogspot.com/

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  2. Desde há 2 ou 3 anos para cá que os livros que compro são todos em segunda mão ou leio no kobo pela subscrição da leya. As idas à biblioteca também deixaram de ser recorrentes devido ao kobo e aos horários como referiste.
    Os preços de livros novos são um absurdo, até mesmo alguns ebooks mais recentes. 🙄

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  3. Que boa reflexão, Inês. Não vi o programa, mas estou completamente alinhada com os teus pensamentos. Acho que todos os pontos que abordaste são facilmente modificáveis, apesar de não ver uma solução tão realista para a questão dos preços (que é um grande problema...). Revejo-me imenso quando falas da influência familiar e educação para a leitura porque sou fruto disso, apesar de ter uma irmã da mesma idade que liga 0 a livros (ainda hei-de descobrir o que está a falhar). Por outro lado, acredito mesmo nessa premissa de que "há histórias para todo o tipo de leitores". Pessoalmente, costumo ser muito selectiva nas leituras porque a quantidade de livros e histórias que quero ler é esmagadora, por isso, sinto sempre que não quero "perder tempo" com coisas que me vão desiludir ou impactar menos, mas também já aprendi a estar em paz quando me deixo influenciar por uma ou outra trend para quebrar a rotina. No início da minha relação, o meu namorado lia a melódica quantia de 0 livros por ano e eu, ingloriamente, tentava convencê-lo, insistir, ler-lhe passagens, passar-lhe romances ou histórias verídicas, mas nada parecia surtir efeito. Era completamente desinteressado (e continua a ser) pelas minhas leituras porque odeia romances ou "historinhas". Atualmente, tem tantos livros quanto eu e lê o dobro ou triplo do que lia antes. Prefere livros técnicos, sobre política e o mundo e está tudo bem com isso :)
    (Perdoa-me qualquer erro ortográfico, mas são cinco da manhã porque estou a fazer turno da noite haha).

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  4. Bela reflexão. Divaguei (pela positiva e nas demais alternativas ao que foste dizendo), e sinto que o ponto crucial é o da estética. Parecendo que não, é o que acaba por me desviar de livros incríveis - para não mencionar que estou numa área de estudos cujas carapaças também têm o seu papel nas interpretações de toda uma sociedade -. ✨

    Se entrarmos no território dos preços, aí é que nos perdemos. Não consigo conceber, sobretudo pelas percentagens que são feitas após a publicação. Há muita coisa em jogo, mas isso não impede as editoras estrangeiras de continuarem a bombar com preços baixos. Algo não está certo e precisa mesmo de ser avaliado. Caso contrário, esta espiral não tem meios de terminar.
    O que é uma pena, visto que ler é uma das melhores coisas que existe! 🥺

    Beijocas,
    Lyne, Imperium BlogCongresso Botânico - PodcastLivro DQNT

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