segunda-feira, 2 de março de 2020

MUNDO || Cultura do Cancelamento


Recentemente, tem-se verificado no mundo digital o crescimento da chamada Cancel Culture, um movimento de interrupção ao apoio de uma figura pública, empresa ou até produto por apresentar ideologias ou comportamentos considerados inadequados para a opinião pública. A Cultura do Cancelamento é um fenómeno das redes sociais que parte da iniciativa de boicote à pessoa através do linchamento virtual: normalmente, hashtags que geram milhares de interações reforçando a importância de não apoiar mais tal figura pública ou através de perseguições nas redes sociais da própria pessoa, do seu círculo social e dos meios ou empresas com que trabalha, com a finalidade de encerrar (‘cancelar’) a sua carreira. O resultado, muitas vezes, traduz-se em perdas profissionais e até sociais.

A Cultura do Cancelamento nasceu com um propósito de responsabilização. Inicialmente, mais dum ponto de vista criminal, quando muitas figuras públicas e até empresas sentiam-se protegidas contra os seus crimes pelo escudo da fama. A Cultura do Cancelamento gerou-se, assim, pela vontade do público em demonstrar que tem voz e que não permite que comportamentos ou posicionamentos criminosos saiam impunes. Mas rapidamente o fenómeno tem-se alastrado para aspetos ideológicos e/ou comportamentais, o que levanta o debate sobre as questões éticas deste movimento.

Cada vez mais a nossa passagem pela Internet tem-nos ensinado sobre a importância da forma como fazemos a nossa abordagem no digital. A Internet democratizou a informação e tem dado voz a uma série de consciencializações fundamentais para evoluirmos enquanto sociedade. No entanto, exige também que nos responsabilizemos mais pelo que dizemos e expomos na Internet. O que publicamos fica lá para sempre e o ideal seria que a nossa passagem refletisse sensatez, conhecimento e respeito pelo próximo. É importante ponderar se temos conhecimento e informação suficiente para expor determinada opinião, pesquisarmos e inteirarmo-nos sobre o assunto. Talvez a palavra-chave seja empatia, tanto para quem partilha uma opinião ou lança um projeto quanto para quem interpreta esses posicionamentos.

Porém, parece-me que existem soluções menos cruéis do que o Cancel Culture para responsabilizar uma pessoa ou marca pelos seus comportamentos ou declarações. A Cultura do Cancelamento tem-se traduzido num comportamento de grupo que se manifesta através de interações digitais marcadas por violência verbal, humilhação, ridicularização e (quase) atingindo uma vertente sádica. O movimento acaba por se traduzir como um fenómeno de intolerância, arrogância e crueldade, desumanizando e isolando a figura pública, distorcendo a realidade ao ponto de resumir um ser humano a um ato de vilania que todos querem aniquilar (e o comportamento de grupo reforça a ideia de que o ‘lado certo da história’ é o deles, do qual ninguém que se prima pelos valores da decência pode ficar de fora).

O facto de não concordar com a abordagem do Cancel Culture não anula a importância de debatermos o assunto do erro. Existe sempre uma razão ou um contexto para tal declaração, comportamento ou campanha terem sido feitos e não invalida uma discussão saudável. Mas não posso, pelos meus princípios de decência, concordar com julgamento e humilhação pública. Tamanha natureza revela falta de empatia pela realidade da pessoa e anulação do espaço que permitir-lhe-ia amadurecer e evoluir. Não estamos a ajudar a pessoa a corrigir o seu erro nem estamos a ser tolerantes com algo que nos acontece recorrentemente: errar (e se acham que nunca vão errar ou expressar-se mal, a única questão que me resta é perguntar-vos a que horas vão apanhar o autocarro para o Olimpo).

É fundamental chamar a atenção de quem faz um comentário impróprio, de quem tem uma abordagem incorreta, de uma marca que faz uma campanha infeliz, de um produto desadequado, de uma figura pública que tem um comportamento desonesto. Mas através de uma abordagem civilizada, saudável e com tolerância e paciência para haver redenção do outro lado. Caso contrário, não estamos a contribuir para uma Internet mais agradável. Estamos a arruinar a vida de alguém, perdidos na ilusão de que estamos a mudar o mundo ou a fazer justiça.

Há justiça numa cultura de medo? Há mudança numa transformação superficial movida pelo receio das perdas financeiras e sociais? Existe longevidade num movimento movido pela intolerância? Onde está a eficácia em obrigarmos as figuras e empresas a dizerem o que consideramos estar certo quando, num contexto mais profundo ou offline, elas não o compreendem? Insistimos na Cultura do Cancelamento como se fosse uma ode à transparência quando o resultado é o contrário, além de que nos afasta da noção de que o ser humano é plural e de que é possível discordarmos com a perspetiva de alguém e continuarmos a admirar ou identificarmo-nos com outros aspetos da sua personalidade. Ninguém é unicamente o seu erro.

Não acordamos a sociedade nem a tornamos mais inteligente ou aberta através da incapacidade de entender o lado do outro, muito menos através de gestos desumanos e cruéis como a perseguição por alguém (e a História já nos explicou isso de várias formas, em contextos distintos). A responsabilização ou a chamada de atenção podem acontecer de uma forma mais civilizada e têm uma eficácia comprovada. Mas a discussão saudável não é imediata, não é tão fácil nem é tão popular como um ‘cancelamento’. Exige mais Humanidade. 

Admiro e gosto de muitas pessoas com perspetivas diferentes da minha. Com estilos de vida com os quais não me identifico. Com abordagens que não vão ao encontro das minhas. Se for algo diametralmente diferente do que valorizo, detenho todo o direito de não seguir, não acompanhar, não consumir o conteúdo. E isso não é um reflexo de cancelamento porque não estou a atacar, sem pudor, a pessoa com a qual discordo. Mas quando admiro outras características das pessoas com quem discordo num ou outro tema, sinto que é saudável cercar-me dessa realidade. Ouvir perspetivas diferentes da minha e explicar as razões pelas quais não concordo com elas, se fizer sentido. A Internet dá uma ilusão de que uma pessoa é uma coisa e parece-me que as mentes mais sagazes são as que caem mais facilmente nesta armadilha. Sejamos melhores, sejamos mais inteligentes. Mais humanos. Se é necessário cancelar alguma coisa, que seja esta intolerância desumana que nos transforma a todos em caçadores de bruxas.

1 comentário:

  1. Eu vejo muito esta cultura de cancelamento na Internet, eu própria já o sofri, quando escrevi o post "Gosto de animais mas não sou vegetariana", e muitos seguidores vegans deixaram-me de seguir.
    Recentemente, escrevi um post a criticar o Wuant (algo que não é hábito meu, utilizei-o apenas como uma forma de introduzir um debate maior), mas em nenhum momento apelei aos meus leitores para o deixarem de seguir. Porque têm todo o direito a fazê-lo, quer seja por se identificarem com outros conteúdos dele ou, quanto mais não seja, para aprender com os erros dos outros.
    Beijinhos
    Blog: Life of Cherry

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