quarta-feira, 16 de outubro de 2019

ISTO É TÃO INÊS || 25


Quando era mais nova tinha todo um ritual para entrar no mar. Estudava as ondas e a temperatura; deixava o mar molhar os pés e gelar-me os tornozelos até os ossos doerem. Fazia uma careta e preparava-me para a segunda rebentação, até não gelar mais. Deixava o corpo arrefecer para o choque não ser maior; passava as mãos molhadas nos braços para os arrepiar. Entrava e saía, avaliava a melhor onda para furar. Tudo para evitar choque e impacto. Ao fim de longos minutos de contemplação e sofrimento térmico, já de tronco molhado e braços erguidos, deixava-me afundar debaixo d’água rapidamente. Saía gelada e com a adrenalina no corpo que só quem cresceu com mar revolto vai compreender.

Tenho dado por mim, mais velha, a saltar passos. Contemplo as ondas mas não escolho a melhor — porque não existe; molho os pés mas não dou tempo para os tornozelos gelarem — não faz sentido sofrer; habituo-me à temperatura mas não fico demasiado tempo onde não preciso ficar. Dou por mim a correr desalmadamente — mas cheia de alma — pela areia molhada, a cortar a rebentação sem choque e a furar a onda de cabeça com os braços estendidos. A sensação a submergir é exatamente a mesma quando me preparava criteriosamente. Mas com metade do desconforto.

Não estou menos cautelosa. Mas entendi que nem toda a onda espera pela nossa preparação. Que há choques e impactos que vamos sentir quer nos tenhamos preparado ou não. Que há sofrimentos que não precisamos de sofrer. Que não precisamos de nos demorar onde nos sentimos desconfortáveis. E que nunca vamos estar prontos, portanto, mais vale seguir em frente e de cabeça quando o coração bater mais forte. A correr, para ser mais fácil de enfrentar.

O tempo não nos ensina a descurarmos a preparação, mas ensina-nos quando ela é necessária e quando ela é apenas uma desculpa para adiar um confronto. Com nós próprios, com os outros, com uma verdade ou uma oportunidade. Por vezes, vale a pena seguir um ritual. Estudar, contemplar, avaliar, preparar. Antever. Sentir algumas coisas primeiro. E depois seguir. Noutras, talvez não nos devamos demorar tanto porque não há oportunidades perfeitas. Talvez o melhor seja só correr e ir.

O conhecimento prepara-nos, desde cedo, para enfrentar um mar revolto. A sabedoria de amadurecer ensina-nos quando é que já estamos há demasiado tempo no areal.

4 comentários:

  1. Olá, querida Inês. Acho que é hoje o teu dia, pot isso te mando um beijinho especial. Muitos parabéns pelo que já conquistaste e por fazeres as estelas brilharem mais.

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  2. Caramba, Inês. Que texto magnífico :) Ainda bem que passei por cá hoje!

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  3. Que incrível, Inês. Obrigada por esta publicação, inspiras-nos tanto <3
    Muitos parabéns e um beijinho

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