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sexta-feira, 28 de abril de 2017

PASSAPORTE || Dicas e Factos sobre Senegal (parte II)


1. A mulher é considerada um ser precioso e sagrado. É uma prioridade numa série de contextos e ocasiões e detém a custódia dos filhos. No entanto, estes factos são automaticamente ameaçados quando a existência da mutilação genital, os casamentos forçados na infância e o Código que dita que a idade legal de casamento mínima são os 16 anos ainda são uma realidade. Fica aqui a minha reflexão curta: a mulher é preciosa e sagrada onde e em quê, afinal de contas?

2. Para embarcar no aeroporto de Dakar, cheguem, no mínimo, com 2 horas de antecedência ao vosso embarque. Se em Cuba eu disse-vos que o lema deles é No pasa nada, no Senegal o lema é Hakuna Matata e tudo é feito com uma lentidão olímpica. O aeroporto é de uma desorganização imensa, vêem esquemas por todo o lado - pessoas a passar à frente, a saltar pontos de controlo, etc. - e eles têm um gravíssimo problema a encontrar os nossos nomes em qualquer sistema informático. Para compreenderem, o funcionário disse-me três vezes que eu não estava nos registos de check-in, embora eu tivesse a certeza de que já o tinha feito via online. Ao fim de uns minutos, desisti e passei para o outro lado do balcão, onde me coloquei ao seu lado para procurar o meu próprio nome na base de dados. Adivinhem, estava mesmo em frente ao seu nariz e tive de apontar três vezes para o ecrã e para o passaporte para ele associar o meu nome ao que estava escrito no monitor. E sim, os nomes estavam exactamente iguais ao passaporte. E não fui um caso excepcional. Portanto, têm de se prevenir e ir para o aeroporto com antecedência para que consigam ter tempo para todos estes "imprevistos". Além disso, desde o momento em que entram nas portas principais do aeroporto até à entrada do próprio avião, passam por dez postos de controlo de bilhete e bagagem. Dez. Sim, significa que, por dez vezes têm de mostrar o bilhete, passaporte, dizer onde ficaram e porque estão lá, descalçarem-se, submeter-se a revista e detector de metais e ainda têm de abrir a bagagem - não importa se a bagagem já passou no raio-x, vocês têm de a abrir na mesma. Chegou ao ponto de eles fazerem-nos parar no meio da pista do avião, à beira das mangas, para verem o nosso passaporte e bilhete, de novo. Só pude agradecer não estar a chover. O próprio Comandante disse: "O aeroporto de Dakar é sempre uma confusão e um monte de problemas". 


3. Não tirem fotos aos vendedores de rua. Ou, pelo menos, sejam discretos. Os Senegaleses acham que o acto de tirarmos fotografias aos seus negócios é um gesto trocista e de revelação de superioridade - julgam que vamos gozar com o facto de eles venderem à beira da estrada - e, embora sejam muito gentis, levam a peito e podem ter comportamentos agressivos. Vi uma mulher atirar uma manga a uma turista francesa que estava a tirar uma foto ao seu pequeno mercado. Não lhe acertou porque a francesa estava num carro.

4. O país era palco do famosíssimo rally Dakar - daí a competição adoptar o nome da capital do Senegal - mas, em 2008, passou para a América do Sul.


5. Não ofereçam dinheiro às crianças. Isto é um pedido feito por inúmeras pessoas locais. Os Senegaleses prezam muito a educação das crianças e lutam para que os filhos entrem e permaneçam nas escolas. Por esta razão, não vão encontrar muitas crianças a prestar serviços ou a pedir-vos dinheiro, como acontece em outros lugares. Eles acreditam que, se lhes dermos dinheiro, esse gesto tornar-se-à num hábito que eles vão preferir, ao invés de estudarem e passarem o tempo na escola. Eles não querem os filhos em lugares mais turísticos a pedir. Querem vê-los a estudar. Aliás, nenhuma criança vai pedir-vos absolutamente nada a não ser que lhe dêem a mão, um abraço ou então pedem para vos mexer no cabelo.

6. Ao contrário das crianças, homens a prestar serviços é coisa que não vai faltar. Assim que saem do aeroporto, sentem o choque; dezenas de homens aproximam-se de vós e perguntam-vos se precisam de taxi, de tours, de fazer câmbio. Pode parecer assustador - especialmente se forem mulheres - até porque eles não têm tento na língua ou nos olhos; as miradas de alto a baixo e as perguntas indiscretas e piropos são uma constante. Não têm malícia associada, mas o choque inicial pode desencadear comportamentos e respostas defensivas. Relaxem, sorriam e digam com firmeza que não precisam do serviço. Eles só querem conversa, literalmente.



7. Os nutricionistas são considerados profissionais essenciais, no país, especialmente no cuidado de crianças. Não existe uma separação da nutrição com a medicina, um estudante que queira ser nutricionista tem de entrar em medicina e especializar-se em nutrição. Um curso de medicina no Senegal dura oito anos.

8. O nome Inês é um dos mais comuns no país (tinha de incluir este facto por motivos muito relevantes e vaidosos!)


9. Um dos principais problemas do Senegal é a poluição. É muito comum assistirem, na periferia de cada quarteirão, lixeiras a céu aberto. Montanhas e montanhas de lixo, plástico, cartão, tudo à beira da estrada. É um cenário de perder de vista. Não encontram caixotes do lixo e a maior parte é simplesmente atirada ao chão.

10. As autoestradas são uma herança portuguesa. Não encontramos muitos mais vestígios de Portugal porque todo o país teve maioritariamente colonização inglesa e francesa.

11. Não me senti insegura. Estava preparada para me sentir assim porque fizeram-me inúmeros relatos do género, mas a verdade é que estive perfeitamente tranquila em todos os lugares que passei. Estava preparada para os comportamentos masculinos mas tive exactamente os mesmos cuidados que teria em qualquer capital europeia. Pude andar livremente a tirar fotografias com o meu telemóvel, não senti que, a qualquer momento, iam levar a minha mochila num puxão nem tive problemas em ficar para trás nas ruas. Andei e mexi nas minhas coisas livremente.

Se tiverem alguma curiosidade ou dúvida que queiram ver atendida, deixem aqui nos comentários, uma vez que as publicações de dicas e factos sobre o Senegal terminam nesta publicação. Se me for possível, vou deixar as respostas nesta publicação para que, futuramente, outros leitores possam consultar.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

PASSAPORTE || Aldeia Beunoba


Durante a nossa visita ao deserto de Niaga, o meu guia sugeriu-nos que visitássemos uma pequena aldeia que existia... no meio do deserto. Só esta declaração fez o meu coração parar. Como era possível tal coisa?

A aldeia Beunoba é de etnia Pular e encontra-se, literalmente, no meio do deserto. E foi chocante. Assim que parámos o jipe, encontrámo-nos com o chefe da aldeia, que rapidamente nos fez uma pequena introdução sobre Beunoba e fomos atropelados por dezenas de crianças pequenas que nos pediam para darmos a mão, abraços, ou para nos mexerem no cabelo. Imediatamente solicitou que não déssemos qualquer tipo de dinheiro (uma razão que, numa outra publicação, vou explicar). A aldeia é marcada por uma pobreza extrema e são muito poucas as casas que têm paredes de cimento. As que têm, carecem de tecto. A maior parte é composta por pequenas cabanas.

Sei que não parece mas isto é um conjunto de casas e "jardins". Esta área já é bastante "moderna"
A visita consistia em conhecermos os aldeãs e vermos as suas casas. As fotografias eram permitidas mas recusei-me a tirar fotos ao interior das casas porque acho que a privacidade é um direito inviolável. Não é porque eles desconhecem ou o permitem que nos dá o direito de pisar. Aliás, eu fiz questão de apenas tirar fotografias às pessoas que nos pediam que lhas tirássemos. Eu respeito muito a identidade de um lar e de uma pessoa, pelo que todas as fotografias que vão encontrar nesta publicação são das fachadas e "jardins" das casas e das pessoas que, como já foi referido, pediram que as registássemos em fotografias.

Nada do que eu possa escrever irá conseguir transmitir, a 100%, todo o choque e contraste que senti e vivi. A cozinha não era maior do que uma casa de banho de visitas, sem qualquer saneamento básico e com moscas em todos os recantos. Até há bem pouco tempo, cozinhavam utilizando estrume de vaca como combustível. Os quartos são minúsculos e desprovidos de nada. Conseguem imaginar viver num mundo em que nada no exterior expressa a vossa identidade, os vossos gostos, os vossos sonhos? 


Na aldeia, existem poços com água, a única fonte para poderem beber. Como não é potável, têm de adicionar pequenas quantidades de lixívia. Sim, lixívia. Os pátios e jardins estão cobertos de gatos e lixo. Em cada recanto das barracas e cabanas, há uma série de tijolos de cimento partidos, de restos de embalagens de plástico e outras tralhas amontoadas e esquecidas.


Num dos quartos, estava um pequeno bebé a dormir. Era o segundo de uma rapariga de 25 anos lindíssima, que está nesta foto acima. O pai do bebé tinha acabado de fazer 20 anos e esta é a sua quarta mulher.

Como estava com o meu guia Souleymane, que me traduzia para português tudo aquilo que o chefe da aldeia ia dizendo, senti-me muito confortável para conseguir ter um diálogo e fazer as perguntas que invadiam a minha mente. Aliás, é por isto que eles aguardam: satisfazer a vossa curiosidade. Responder às vossas perguntas. E eu disparei todas as que pude. Perguntei como faziam se alguma criança ficasse doente, se fosse necessário ir ao hospital. Existe um, fora do deserto, mas o caminho a percorrer é longo e exige que o motivo valha a pena. Também têm uma escola no meio da aldeia.

E uma das perguntas que mais tinha urgência em saber era como podíamos ajudar ou contribuir, se eles não aceitavam dinheiro. E esta aldeia tem a solução: um pequeno mercado de artesanato, onde as crianças e adultos fazem as suas criações e invenções que podemos depois comprar. Todo o dinheiro é revertido para a saúde e educação da aldeia. Isto faz com que as crianças continuem a valorizar a educação e que trabalhem o espírito criativo.

Já estávamos quase de saída quando, num dos pátios, vi uma casa com paredes de cimento, mas a céu aberto. Não tinha portas nem nada no seu interior a não ser terra batida e uma dezena de crianças reunidas em volta de um tabuleiro de alumínio que tinha arroz e um possível molho de tomate. Comiam com as mãos, sôfregas e esfomeadas. 

Eu sei. Não dá vontade de ler ou ver. Não dá gozo de saber. Chega a ser violento, até. Mas é uma realidade que temos de ver e ler mais. Quanto mais não seja, para sermos ainda mais gratos por todos os privilégios que temos na vida. Pelo conforto que temos. Durante toda esta visita, as pessoas olhavam para mim como se fosse uma pessoa cheia de respostas, conhecimento e sucesso. Mas eu sentia que aprendia muito mais ao lado delas do que elas comigo. A única coisa que conseguia pensar era "O que tenho eu para dizer a estas pessoas? A estas crianças? Que estão onde quiserem estar? Quão hipócrita seria eu?" porque sentia-me assim, se o dissesse. Eu estou onde quero estar porque tenho o conforto e privilégio (em todos os sentidos que possam imaginar) para o fazer. Uma mulher da minha idade, naquela aldeia, não está onde quer estar com a mesma facilidade que eu. Eu falo de barriga cheia. De acesso facilitado. Eu começo a imaginar tudo o que estas pessoas teriam de ultrapassar para seguirem os seus sonhos e fico sufocada de silêncio. E é por isto que eu admiro muito o guia que estava comigo. Ele conseguiu seguir os seus sonhos e lutar por eles. Só que eu sei que tudo o que ele teve de fazer para estar onde está, agora, foi muito mais do que seria exigido a um qualquer estudante de Turismo, como ele um dia já foi. 


Não é um relato cor-de-rosa e não sei como o concluir. Senti-me desolada mas, curioso, nenhuma criança partilhava o meu rosto de tristeza; todas tinham uma energia inesgotável, todas sorriam, brincavam e partilhavam. Para elas, aquilo parecia ser o paraíso. E talvez seja porque nunca conheceram outro. Não sinto que lhes tenha acrescentado nada. Não sinto que faria qualquer diferença na vida delas porque não sou nada ao lado delas. Fiz questão de contribuir o máximo que pude no mercado, onde comprei a minha piroga decorativa, o meu hipopótamo de madeira e algumas estátuas e porta-chaves. Mas eu sinto que saí de lá com enormes lições de cada um deles. Aprendi a agradecer mais. A relativizar, ainda mais, os meus problemas. A compreender ainda melhor que eu tenho uma vida maravilhosa. E digo tudo isto sem vaidade mas sim com uma enorme percepção e gratidão. Porque os nossos pais diziam "Há crianças a morrer à fome, em África" mas, por mais que vocês oiçam e compreendam, nunca o vão entender realmente até verem no rosto delas.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

PASSAPORTE || Deserto de Niaga, Senegal


Esta viagem foi a conquista de vários sonhos e desejos, entre eles, andar num deserto. O deserto de Niaga não tem uma extensão de areia tão infinita como um Sahara - muito menos dunas verdadeiramente montanhosas - mas é uma paisagem de perder de vista e fascínio. Permanece com alguma vegetação graças a dois factores fundamentais: a presença de um oásis (e, acreditem, é tal e qual o que vai na nossa imaginação) e porque está próximo da costa africana.


Enquanto o Rally Dakar decorreu no Senegal, este deserto era um dos pontos de passagem, incluindo a costa. A prova terminava, depois, no Lago Retba. Embora o evento tenha, há muito tempo, mudado de lugar, ainda existem dezenas de experiências e tours que podem realizar para viverem um pouco do que é um Rally Dakar.



Eu fui num jipe de caixa aberta altamente duvidoso fazer esta aventura. Além da minha companhia e do nosso guia, estava connosco um casal absolutamente adorável de franceses que completava 60 anos de casados. Não se deixem enganar pela possível idade deste dois simpáticos franceses, eles tinham toda a genica e espírito de aventura dentro de si. Mas confesso que temi por eles quando os vi alinhar na nossa experiência de Rally. O jipe salta, sobe e desce uma série de dunas e nós vamos saltitando no banco de um lado para o outro, rindo para disfarçar o nervosismo de tudo dar para o torto ou de um carro daqueles parar no meio do deserto.




A aventura vale totalmente a pena pelas paisagens, pelas aves que fogem de nós à medida que o carro passa, pela brisa do mar a bater nas nossas caras, pelo tempo seco do deserto a abraçar-nos o corpo. Quando estamos ali, rodeados apenas de areia, sentimo-nos pequenos em todos os pormenores, especialmente nos nossos problemas. Como podemos nós sofrer por coisas pequenas, quando existe algo tão inacreditavelmente belo e simples como um deserto?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

PASSAPORTE || Lago Retba, Senegal


Existem, no mundo inteiro, apenas oito lagos cor-de-rosa - pelo menos que estejam publicamente oficializados - e o Senegal tem um deles. Claro que, assim que comecei a planear a viagem, fiz questão de saber como lá chegar.

O lago Retba, mais conhecido entre os locais como Lac Rose, é enormíssimo e localiza-se na península de Cap Vert, muito perto do deserto de Niaga que, numa futura publicação, também merecerá o seu tempo de antena. Ganha a sua característica e lindíssima cor rosa (muitas vezes avermelhada) graças à Dunaliella salina algae, embora a concentração deste halófilo varie ao longo de toda a extensão de água e faça com que nem toda a superfície do lago adquira as mesmas tonalidades. Consoante a estação do ano e as condições climáticas, o lago pode ficar mais rosa, mais avermelhado, ou simplesmente azul.

Importante referir - embora eu considere isto um facto óbvio, sei que não é de conhecimento universal - que as imagens que vêem por todo o lado de lagos rosa (de todo o mundo) não têm aquela aparência de iogurte líquido de morango. Uma breve pesquisa no Google sobre lagos cor-de-rosa fará com que percebam o que estou a explicar. Estas "edições" fazem com que muita gente chegue a estes verdadeiros tesouros e olhe para eles com desilusão (afinal de contas, não era um Suissínho gigante). Felizmente, não foi um sentimento que partilhei porque já estava preparada e porque acho que estes lagos são tão raros que o simples privilégio de poder ver e nadar num já satisfaz os meus sonhos.


Mas o lago Retba não ganha apenas um galardão especial de pink lake. Este é, também, o segundo lago mais salgado do mundo, apenas ultrapassado por um que existe na Antártida que é mais 4% salgado que o Retba. Portanto, colocando isto numa perspectiva de probabilidades, este é o lago mais salgado do mundo que terão boas chances de ver e nadar. E o Mar Morto?, perguntam vocês. O lago Retba é cerca de 7% mais salgado que o Mar Morto. O que significa que, sim, também vão flutuar perfeitamente nas suas águas.

Devido a estas concentrações salinas gigantescas, é o local perfeito para a extracção de sal, e a paisagem tem tanto de fascinante como imponente. Num dos recantos do lago, podem observar verdadeiras montanhas de sal, que conferem ao horizonte uma sensação de neve que brilha à luz do Sol. É o resultado da extracção diária feita pelos locais com a ajuda de pirogas - o barco típico do Senegal - onde vão colocando as pedras de sal. A concentração é tal que, na beira do lago, encontram verdadeiros cristais que grudam na areia, nos barcos e em tudo o que se encontre ao seu alcance.


A água é extraordinariamente quente e, como já referi, podem nadar no lago, embora seja aconselhável que não tornem a exposição muito prolongada devido aos efeitos de tamanha concentração salina na vossa pele. Uma das precauções que os extractores de sal têm é colocar manteiga de Karité no corpo, de forma a criar uma barreira gordurosa e protectora. Aliás, em todos os mercados que passarem, vão encontrar manteigas de Karité à venda.


Não consigo conter o entusiasmo que é poder ter visto e nadado num lago rosa. Desta aventura inesquecível, trago um saco de cristais de sal que uma senhora nos ofereceu, durante a visita, e uma concha que apanhei durante os meus mergulhos e que estava há tanto tempo exposta à água que ficou muito rosa no interior. É um momento e uma visão única. 

terça-feira, 4 de abril de 2017

PASSAPORTE || Reserva de Bandia


Admito que, embora reconheça algumas das vantagens dos Jardins Zoológicos, não morro de amores por eles. E fui com um pé atrás para a Reserva de Bandia, receando que pudesse encontrar algumas das particularidades que não gosto num Zoo.

A Reserva de Bandia é gigantesca e caracteriza-se como um refúgio para animais selvagens. Converte-se num lugar essencial, para as espécies que abriga, porque as protege, já que a maior parte delas é insistentemente caçada pelos seres humanos.


O corno dos rinocerontes é cortado como forma de protecção contra os caçadores que os procuram para ficarem com esta parte do animal. Muitos supersticiosos acreditam que o corno dá sorte. O corno volta a crescer.
Em Bandia, os animais recebem a menor intervenção humana possível, para que possam viver de uma forma mais natural. Só existem três excepções a esta regra: quando estão doentes (recebem tratamento veterinário), quando uma fêmea vê a sua gestação em risco porque não consegue obter, facilmente, comida - devido às secas ou às cheias, por exemplo - (recebe reforço alimentar para que possa prosseguir com a gravidez) e as únicas duas espécies carnívoras de toda a Reserva, hienas e crocodilos, cujo o seu espaço tem uma cerca e têm intervenção humana na sua alimentação para que, evidentemente, não cacem os outros animais da Reserva.


A visita à Reserva é feita num jipe de caixa aberta, como num Safari e, sendo animais selvagens, este tipo de visitas é sempre um jogo na lotaria: podem encontrar imensas espécies ou podem não encontrar nenhuma, embora os guias tenham alguns pontos de referência que, quase sempre, garantem que avistemos alguns animais (como a passagem por lagos ou determinadas espécies de árvores, por exemplo). Nós tivemos muita sorte e encontrámos de tudo; javalis, macacos, pássaros do deserto - absolutamente lindíssimos -, girafas, búfalos, avestruzes, rinocerontes, zebras, antílopes (aliás, assisti a dois antílopes machos a lutar pelo território e foi um momento completamente marcante e fascinante) e, claro, as hienas e crocodilos. 



As zebras são também uma espécie bastante protegida, na Reserva, porque as suas peles são um elemento de desejo por parte dos caçadores
Desenganem-se se pensam que vão viver a mesma experiência que vivem numa visita ao Jardim Zoológico. É muito mais genuíno, é muito mais intenso e impõe muito mais respeito. São animais que não estão demasiado habituados a humanos e olham-nos com desconfiança, com imponência. Numa parte da visita, pudemos sair do jipe para ver algumas Baobab e conhecer a história dos trovadores - que vou contar mais à frente - e, inesperadamente, uma girafa macho atravessou-se nos nossos caminhos. Foi o momento mais assustador e empolgante que já pude viver, ver um animal gigantesco passar diante de mim, em toda a sua imponência e indiferença por todos nós, e eu a tão poucos passos de o tocar. Em Bandia eu senti que todos os animais eram maiores, mais confiantes e mais genuínos.



A Reserva tem também um restaurante onde podem comer enquanto olham para o lago dos crocodilos e onde também vão encontrar estes macacos, que fazem parte da Reserva, mas que são muito atrevidos e gostam de conhecer as pessoas
É também nesta Reserva que falam sobre os Baobab e a história dos trovadores. Há muitos anos, o Senegal considerava os trovadores pessoas sagradas, por conterem o poder das palavras. Como eram preciosos, não queriam enterrar um trovador como o resto dos comuns mortais - na terra -. Queriam que ele estivesse elevado do chão e foi nos Baobab que encontraram a solução, devido às suas raízes cheias de cornucopias que formam inúmeras grutas dentro da própria árvore. Os povos enchiam a gruta com folhas de palmeira e enterravam, assim, o trovador. Rapidamente os Baobab ficaram conhecidos como os Poços de Palavras mas também ficaram sufocados de esqueletos, já para não falar da contaminação das águas. A prática passou a ser, há umas décadas, proibida por lei mas esta tradição mórbida tornou-se num dos detalhes que mais dá protagonismo a esta árvore.


O bufalo africano é considerado um dos mamíferos mais perigosos. Impõe respeito de tal forma, que até os próprios leões têm medo de os caçar!
Foi uma visita inesquecível e que nos coloca frente-a-frente à Natureza de uma forma que jamais tinha estado, antes. Nunca fui muito apegada ao BBC Vida Selvagem nem, como já vos referi, a maior fã de Zoo, mas esta experiência ultrapassou todas as minhas expectativas e considerações. Marcou-me.

Quando refiro que os carnívoros, como os crocodilos, ficam cercados, a sua área de circulação não é, de todo, pequena - como em alguns Zoos -. Tudo o que estão a ver nesta fotografia (e muito mais além) faz parte da área exclusivamente reservada aos crocodilos. Têm muito por onde andar, nadar e explorar!

sexta-feira, 31 de março de 2017

PASSAPORTE || Apresento-vos o Souleymane

Para mim, além de todo o património cultural e paisagístico, faz parte da experiência de uma viagem as pessoas que conhecemos e que estimulam e enriquecem a nossa vida, a nossas próprias memórias dessa aventura. E, nesse contexto, não podia deixar de vos apresentar uma pessoa que enriqueceu bastante a minha viagem: Souleymane, o meu guia. Na improbabilidade de terem uma viagem marcada para o Senegal, neste preciso momento, não queria perder a oportunidade de vos dar a conhecer esta pessoa incrível e também contar-vos um pouco da sua história. Afinal de contas, é também uma forma de partilha da minha experiência por este país.

Souleymane foi o sexto dos 12 filhos que nasceram de um casal bastante pobre mas, de todos, foi o único que estudou. Tem dois filhotes, uma mulher que fala com o maior dos carinhos e está a lutar pelo seu sucesso profissional. Uma amiga da minha mãe, que já tinha, há alguns anos, viajado até ao Senegal, falou maravilhas de um guia que tornou toda a viagem mais especial e até nos mostrou uma foto ao seu lado. Qual não foi o nosso espanto quando demos de caras com ele, num sorriso gigante e aberto. Mas o pormenor que nos espanta assim que lhe apertamos a mão é... que ele fala português.

Isto é um pormenor extraordinário porque já ficamos espantados quando algum consegue arranhar o inglês. Mas Souleymane é um homem muito inteligente e, além de prosseguir os seus estudos e trabalhar como estagiário nas tours guiadas, poupou todo o dinheiro que obteve do estágio para entrar numa escola e aprender a falar português e inglês. Neste momento, é o único guia, na região, que fala português e este detalhe fez com que crescesse na equipa de guias e recebesse mais solicitações para excursões. Ele foi, portanto, o nosso tradutor e isso permitiu-me conseguir conversar com ele sobre uma série de assuntos do seu país que, com o entrave linguístico, não iriam fluir de uma forma tão fácil ou natural.

Além da sua simpatia e humildade inacreditáveis, é uma pessoa que quer muito aprender. Assim que se apresentou pediu automaticamente que o corrigíssemos sem piedade caso ele, durante as suas explicações/traduções, dissesse algo incorrecto. O seu entusiasmo por ser corrigido aumentou quando percebeu que a minha mãe era professora de português. 

O que eu achei admirável, neste homem, foi a sua capacidade para lutar pelo que queria, mesmo não tendo os ventos a soprar a seu favor. Tinha 11 irmãos mas não quis seguir o mesmo rumo que eles. Empenhou-se com unhas e dentes para conseguir ter dinheiro para estudar e, hoje, já conta com uma licenciatura, fala maravilhosamente português e, agora com filhos, trabalha o dobro porque quer que eles tenham a possibilidade de estudar mais facilitada. "Quero proporcionar-lhes a melhor educação possível". Actualmente está a tirar um mestrado em marketing turístico, mas só lhe é possível graças a uma benfeitora, que lhe paga os estudos. "Não posso desperdiçar o meu dinheiro na minha educação quando quero dar esse privilégio aos meus filhos", disse-me.

É admirável e eu precisava que vocês conhecessem esta pessoa cheia de alegria e de força. Embora não tenham uma excursão pelo Senegal com o Souleymane marcada para amanhã, eu queria que vocês também lhe apertassem a mão - da forma possível - e que se admirassem e inspirassem da forma como eu o admirei e inspirei-me. A educação é um privilégio e temos de lutar pelo que queremos. O Souleymane é a prova disso.

segunda-feira, 27 de março de 2017

PASSAPORTE || La Somone, Senegal


Foi o local da nossa estadia, a duas horas de Dakar, uma zona balnear e paradisíaca. Talvez seja porque fomos em época baixa, talvez seja porque o Senegal ainda não é muito turístico ou talvez seja a própria política do hotel onde estivemos mas, de todos os lugares exóticos que fui, este foi o mais tranquilo e que me relaxou mais.



A água tinha uma cor, dinâmica e temperatura muito semelhante à de Portugal, o que conferiu a todo o lugar uma sensação de familiaridade que não vão encontrar num lugar como as caraíbas, por exemplo. O hotel não tinha quase ninguém - por ser época baixa - e os poucos que marcavam presença eram casais franceses reformados. Achei o maior amor ver tantos casais juntos passados tantos anos, ainda com a vontade de dividirem novas experiências juntos. Foi um lugar onde não vi nenhum casal de telemóveis em frente à cara mas sim a dividir a mesa com conversas, panquecas e sorrisos. É impossível olhar para todo este cenário e não desejar um igual para nós. 


Foi o primeiro hotel, neste registo, que não tinha músicas agitadas a passar nas colunas o dia todo. Nos dois outros hotéis em que estive (em Punta Cana e em Varadero), de manhã, a praia enchia-se de música animada, à tarde era a zona da piscina. Neste hotel, além da praia, existiam duas áreas de piscina e uma delas nunca tinha música. A outra só passava jazz e bossa nova. Conseguem imaginar o que é estar a nadar calmamente, sem preocupações, enquanto ouvem uma balada de Amy Winehouse? Eu consigo e já sinto saudades.

Foi também o hotel com mais brio onde já tive. Os jardins eram constantemente tratados, todos os animais eram cuidados, as infra-estruturas limpas e arranjadas a todas as horas. E foi também o restaurante mais higiénico, com um enorme respeito pelo HACCP, pelas temperaturas, mantinham à distância todos os animais e insectos... Foi maravilhoso.


Senti-me leve, em La Somone. Tranquila, serena. Senti uma paz e reconciliação comigo mesma que não senti, da mesma forma, em Punta Cana e Varadero. O sol a marcar as minhas sardas e a rosar as maçãs do rosto, a música maravilhosa a abraçar o som das ondas do mar, as palmeias esvoaçantes, a luz daquele lugar... Foi inexplicável, mas muito especial.

sábado, 25 de março de 2017

PASSAPORTE || Dicas e factos sobre o Senegal (parte I)


1. O Senegal é um dos países mais pobres de África e o choque começa ainda durante a aterragem, quando o avião sobrevoa as moradias próximas da pista. É um choque como nunca antes senti, embora já tenha visitado países com uma grande desigualdade social, como República Dominicana e Cuba. Assim que vi a terra batida, as casas sem luz e muito degradadas, as paisagens sem as mínimas condições, o meu coração apertou-se.

2. A língua oficial é o francês, embora existam alguns dialectos específicos entre povos e etnias. Se planearem visitar o Senegal, façam questão de fazer umas rápidas revisões no francês porque não falam outra língua convosco. Podem tentar arranhar o inglês convosco, mas será uma conversa em vão porque não vão além do "Hello", "What's Your Name?" e "Where Are You From?". Se disserem que não falam francês eles respondem "Okay, I understand" e depois continuam a falar contigo, na mesma, em francês.


3. É um destino muito pouco turístico e eu comprovei esse facto assim que disse às minhas pessoas que ia ao Senegal. "Que vais lá fazer?" aliás, o co-piloto do avião de regresso a Portugal ficou muito surpreendido de estar ali em férias; "Nem fazia ideia de que havia alguma coisa para se ver no Senegal". É um lugar completamente esquecido no meio dos outros destinos excepto pelos franceses, pela facilidade linguística. Fomos os únicos portugueses a embarcar para o Senegal e não encontrámos outros turistas de outros lugares sem ser de França. Parecendo que não, este pormenor tem uma vantagem gigante: é um país muito genuíno e sem grandes influências turísticas. Evidentemente, há o que fazer no Senegal - as próximas publicações são a prova disso - e todas as experiências e pessoas que conhecem são espontâneas e naturais. Não falam com vocês com a ganância de conseguir dinheiro, os lugares que visitam estão muito preservados no seu estado original e não se vêem sufocados numa avalanche de turistas. Por tudo isto, a vossa viagem torna-se muito mais enriquecedora, tranquila, cultural e original. Nada do que eles estão a fazer ou a mostrar tem objectivos terceiros ou é show-off.

4. O desporto rei é o combate de vale tudo, a capital é Dakar, a religião principal é o Islamismo. 


5. Uma das imagens de marca do Senegal é uma espécie de árvore chamada Baobab. Também lhe chamam "Upside down tree" porque os ramos cheios de cornucópias parecem as raízes das árvores, criando a ilusão de que está virada ao contrário. E se estão agora a pensar "Nunca tinha ouvido falar de/visto tal árvore" permitam-me perguntar-vos: já leram O Principezinho? Então garanto-vos que as conhecem, já que fazem parte da história. 
Os Baobab são excelentes retentores de água devido aos seus troncos largos e gigantescos, portanto, é muito comum verem muitos deles plantados mesmo ao lado das casas dos senegaleses. A árvore previne que as casas alaguem durante as cheias, como se fosse uma esponja. São também árvores que duram muitos anos e a mais antiga do país tem 2400 anos - já pensaram no quanto esta árvore já "viu"?

6. Assim como em Portugal temos uma palavra sem tradução, a Saudade, no Senegal também existe uma: Teranga. O significado é o respeito pelo próximo. Este é um país repleto de etnias, povos e culturas diferentes, tornando-se um reflexo de diversidade. No entanto, é também um país muito pacífico por assentar os seus valores no respeito da crença, história, cultura e tradições de cada etnia.

7. Os Senegaleses são extraordinariamente gentis, genuínos e valorizam muito os seus visitantes (do seu próprio país ou de outros). Embora vivam com muito pouco, todos os dias, cozinham uma refeição de manhã, que deixam na mesa até às cinco da tarde. Esta refeição serve para que, se alguém os visitar, possa ter o que comer. Caso não recebam quaisquer visitas, essa refeição é deixada para os filhos poderem ter o que jantar. O convidado é sempre uma prioridade e tem sempre à sua disposição, em todas as casas, água, comida e, se necessário, um quarto para dormir. É um povo que abdica de todo o seu conforto pelo bem estar do seu visitante.


8. A poligamia ainda é legal, embora esteja a cair em desuso. É um costume mais comum em locais mais rurais. No entanto, a homossexualidade é ilegal.

9. Um salário mínimo corresponde aos 150 euros, mas os bens essenciais podem chegar a custar o mesmo que em Portugal. O combustível custa o mesmo que no nosso país e 1kg de arroz/açúcar/farinha pode chegar a custar mais de 1 euro. O cimento é considerado um bem material de luxo, razão pela qual encontram ainda muitas casas em madeira ou verdadeiras cabanas.

10. As principais etnias do Senegal são a Pular e a Serer. Os Serer originais correspondem aos antigos escravos do Egipto, que construíam as pirâmides aos Faraós.