terça-feira, 31 de julho de 2018

PASSAPORTE || Dicas e Factos Sobre a Noruega (parte II)


1. Se são estudantes — ou têm o vosso cartão de estudante ainda convosco — façam questão de o levar. Uma vez que praticamente todos os museus são pagos, o preçário é variado e faz algum desconto a estudantes. A carteira não vai deixar de ficar zangada, mas poupam alguns trocos significativos.


2. O mar nórdico é tão frio que, se mergulharem ou caírem na água, estima-se, em média, que só tenham dois minutos para conseguirem nadar. Sem treino ou preparação o vosso corpo vai começar a congelar e entram rapidamente num estado de hipotermia. No entanto, o nosso piloto do passeio pelos Fiordes contou que tinha visto uma corajosa surfista a surfar pelas praias de Tromsø em biquíni. Aguentou 15 minutos!!

3. Para encorajar a participação paterna nos cuidados dos filhos recém-nascidos, o governo norueguês concede uma licença de paternidade de 10 semanas. 90% dos homens usufruem dessa licença e por isso torna-se muito típico observarem pais sozinhos com os filhotes nos seus carrinhos.


4. Os preços na Noruega conseguem ser tão exorbitantes que muitos noruegueses atravessam a fronteira até à Suécia para fazerem compras. 

5. Munch não foi a única herança do país no que toca à cultura. Edvard Grieg  foi um compositor muito famoso que também nasceu no país. O nome até pode não vos dizer nada e a música clássica pode nem sequer ser o vosso género de eleição, mas esta música e esta música são-vos, com certeza, mais do que familiares. Já sabem: têm origem na Noruega e nasceram deste compositor.


6. Se têm planeada uma viagem para Tromsø, tenham em conta que os voos atrasam sempre. Não está ligado a um qualquer tipo de incompetência da companhia para respeitar horas mas sim pela localização da cidade. Tromsø faz parte da região árctica e as condições meteorológicas são, quase sempre, desagradáveis. Além disso, a trajectória de voo passa entre as montanhas, pelo que toda a precaução é necessária. No nosso caso, tivemos todo o cuidado de não encavalitar os voos de Tromsø e de Oslo para horas muito próximas e foi a melhor jogada.

7. A Noruega tem uma ilha chamada Bastoey que é, na verdade, uma prisão. Os condenados estão livres de circular pela ilha.

8. A universidade mais a Norte do mundo é a Universidade de Tromsø.


9. Existe uma cidade árctica chamada Longyearbyen onde é ilegal morrer. Não, não é o livro do Saramago, prometo, mas tem algumas semelhanças. Por estar numa região tão fria, os corpos congelam e conservam, em vez de entrarem no seu processo natural de decomposição, tornando-se impossível realizar rituais como um enterro. Por essa razão, a cidade não aceita mais corpos. Quem se encontra numa fase terminal ou na recta final da vida é encaminhado para outra cidade da Noruega e é enterrado lá. Creeeeeepy!


10. Quando caminharem pela cidade — tanto em Oslo como em Tromsø — vale a pena olhar para o chão também. No passeio, e em frente a algumas fachadas de casas, vão encontrar pequenas placas metálicas quadradas. Essas placas identificam que, na fachada onde se localizam, morou alguém que, durante a Segunda Guerra Mundial, foi enviado para campos de concentração. A Noruega foi um dos países ocupados pelos Nazis e muitos judeus e opositores políticos foram enviados para os campos, a maioria para Auschwitz. As placas têm o nome, data de nascimento, data de óbito e ano em que a pessoa foi enviada para o campo de concentração. Cada vez que chegava a uma rua e encontrava as plaquinhas brilhantes no passeio, sentia um murro no estômago. Não dava para evitar fazer as contas e pensar no pouco tempo de vida que a maior parte destas vítimas tiveram — e quantos desses anos foram de sofrimento e tortura. Não olhava para as fachadas da mesma maneira e, de repente, as casas ganhavam um peso incomportável. Cruzei cada placa com muito respeito e com a sensação de ser privilegiada.


11. Uma das coisas que mais vão notar em Tromsø é que as estradas são estranhamente calmas. Tirando alguns transportes e carros ocasionais, não há transito e as estradas estão praticamente vazias. A razão é muito simples: a cidade está repleta de estradas subterrâneas que os locais preferem. Os limites de velocidade são maiores — tal e qual uma autoestrada, uma vez que não existem transeuntes — e funciona exactamente como as estradas de uma cidade normal, com rotundas, cruzamentos e semáforos. Mas subterrâneo. Achei este facto curiosíssimo e diverti-me imenso quando conduzimos por lá. A entrada nas estradas subterrâneas faz-se por um túnel que, se não souberem ao que vão, jamais adivinhariam. Iriam supor que se tratava de um parque de estacionamento normalíssimo. Por baixo da cidade há toda uma rede de estradas que vale a pena conhecer, pelo menos uma vez. 


12. Uma das maiores atracções gastronómicas de Tromsø está localizada no aeroporto e é numa... Pizza Hut. Sim, mas a razão é, efectivamente, curiosa! A Pizza Hut de Tromsø é a única que tem na carta uma pizza com carne de rena! Evidentemente que tive de experimentar e pedir uma fatia. Não foi a melhor pizza que já comi mas certamente não foi a pior. Vale pela experiência!


13. Estão a ver este chocolate norueguês com uma embalagem muito aportuguesada? Passa despercebido no meio de milhares de outros chocolates com um visual mais apelativo, mas vale a pena olhar para este com mais atenção. É que foi precisamente este chocolate — e a sua fábrica, Freia — que inspiraram o escritor Roald Dahl — de dupla nacionalidade norueguesa e britânica — a escrever o famosíssimo livro 'Charlie e a Fábrica de Chocolate'. Imaginem o quão delicioso deve ser este chocolate para dar tamanha inspiração a uma história gulosa e acarinhada por todos nós!

E assim termina a nossa viagem pela Noruega. Deixa uma lagriminha no olho, certo? Dava vontade de ficarmos por mais tempo. Como já é habitual nesta publicação, sintam-se à vontade para deixarem questões sobre a Noruega que tenham curiosidade, achem que sou capaz de responder e que não tenham sido esclarecidas nas outras publicações. Irei responder a todos os comentários nesta publicação para que fique mais completa e rica para os leitores que se seguirão!

segunda-feira, 30 de julho de 2018

LIVROS || Cosmos


O raro caso em que a série inspira o livro e não o contrário. Quando vi pela primeira vez o remake da série Cosmos, fiquei com muita curiosidade em relação à série original de 1980, apresentada por Carl Sagan. Depois descobri o livro e soube que tinha de o ler.

Cosmos partilha informações e temas que, pelas limitações já conhecidas de uma produção televisiva, não puderam ser mais desenvolvidos. A série não substitui o livro e vice-versa; são blocos de informação com dinâmicas diferentes. Porém, à semelhança da série homónima, Cosmos pretende contar-nos a História da ciência e do espaço de forma a tornar o conhecimento científico mais global e menos exclusivo e privilegiado.

Embora consiga ser, por vezes, um livro um pouco técnico — sugiro que, se querem estrear-se numa abordagem ao tema de forma mais leve optem por este livro —, o que eu mais gosto e me identifico com Carl Sagan é o seu perfil filosófico mesmo na hora de falar sobre ciência exacta. A vastidão do Universo, as coincidências, os acasos matemáticos e físicos e as reflexões pontuais que deixa ao longo dos capítulos inspiram-me e fazem-me sentir que não sou a única que pensa assim quando olha para as estrelas.

Publicado nos anos 80, é extraordinário o quanto ele pode ser actual e o quão urgente já era o pedido do autor para que olhássemos para o nosso planeta com mais atenção e consciência. No entanto, certos aspectos ou idealizações futuristas já estão datadas — ou muito prestes a ser —. São acasos pontuais e que, na minha opinião, tornam a leitura ainda mais interessante. Muitos dão a ciência por garantida e já conhecida, como se já tivéssemos feito todas as descobertas e avanços, o que não é verdade. Conhecer as questões, ideias e conceitos de décadas é fascinante.

A leitura foi longa e exigiu alguma concentração. O Cosmos arrastou-se durante semanas na minha mesinha e nenhuma das razões se prende com a possibilidade de não ter gostado da leitura. Muito pelo contrário. Mas exigia de mim uma concentração e tempo que, nos últimos tempos, foi escassa. Estou feliz por abarcar novos conhecimentos mas confesso que me custa arrumá-lo na estante depois de tanto tempo de convivência. Foram mais de 400 páginas a voar pelo Universo e a conversar com Sagan sobre algumas reflexões que andam há anos a aflorar-me a mente.

Autor: Carl Sagan
Número de Páginas: 467
Disponível na WOOK (ao comprares o livro através deste link, estás a contribuir para o crescimento do Bobby Pins).

BOM GARFO || Boa-Bao

 LISBOA

Uma folga muito merecida entre aventureiras pedia um ponto de encontro a preceito. E o Boa-Bao andava na minha mira há muito tempo. Badaladíssimo, tentei a minha sorte para um jantar após o meu regresso da Noruega na esperança de que o entusiasmo já estivesse mais controlado — afinal de contas, já lá vai um ano —. Tinha uma hora de espera e aceitei a derrota. Desta vez, para um almoço descontraído, chegámos cedo e o restaurante esteve quase por nossa conta durante uns minutos. A minha recomendação, assim, torna-se previsível: privilegiem os dias da semana e a hora de almoço para conhecerem o Boa-Bao, uma vez que não é possível fazer reserva.

sábado, 28 de julho de 2018

PASSAPORTE || Museu Polar


O Museu Polar foi a nossa última paragem antes de ligarmos o chip 'regresso' e iniciarmos todos os processos de despedida. Localizado no porto, com uma casinha típica e uma morsa adorável no logo, confesso que iniciei esta visita com algumas expectativas. É um museu que faz parte de todas as recomendações turísticas de Tromsø e que tenta mostrar-nos como era a vida da cultura Sami e dos pescadores que viviam nestas regiões árcticas, noutras épocas. Outra promessa pela qual estava ansiosa era as explicações sobre as auroras boreais. Em todos os lugares que pesquisei, informavam que existia uma sala dedicada a este último.



Admito que senti um sabor amargo durante toda a minha visita e saí desiludida. Embora o Museu Polar tenha uma apresentação fabulosa — repleta de cenários em tamanho real e alguns elementos interactivos — e já estivesse à espera de que, inevitavelmente, a 'caça' fosse um tema essencial para se falar de esquimós, achei o Museu tétrico demais. Alguns cenários eram compostos por bonecos de cera em que focas bebés eram perseguidas por homens de picareta. Outras tinham fotografias de ursos polares violentados. Definitivamente não recomendo o museu a pessoas sensíveis — o conteúdo é muito explícito —. O desconforto que senti ao caminhar pelas salas impediu-me de me concentrar e imaginar outra coisa que não os cenários que me sugeriam.



Em agravante, o museu tem toda a informação em Norsk. Ao pagarem o bilhete, é-vos entregue um folheto em inglês que traduz todas as placas e legendas informativas — o que é uma alternativa interessante, mas não se revela prática, uma vez que não há identificação das legendas e acabam por ter de recorrer à intuição e adivinhação para associarem a legenda ao parágrafo correcto —. No final, surpreendi-me por não ter encontrado nenhuma sala sobre as prometidas auroras boreais. Questiono-me se é uma exposição apenas disponível em época baixa.



Não saí convencida do museu, mas consegui retirar alguns pontos positivos da visita. Gostei muito de um cenário onde entrávamos numa cabana típica e podíamos ouvir, no interior, uma tempestade de neve como se fosse real. A experiência é muito interessante. E sou apaixonada pelas caixas de mantimentos da época, por recortes de jornais ou por ouvir rádios antigas. Tudo isso impediu que a visita se tornasse num balde de água fria ainda maior. Talvez este não seja o meu tipo de museu. Admito que museus de caça ou museus náuticos não costumam cativar-me, pelo que recomendo que tenham em conta que fiz a minha visita já, de alguma forma, inflamada. No entanto, não podia deixar de dar a minha opinião e sensação honesta em relação ao lugar. Não o considero, de todo, obrigatório.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

PASSAPORTE || Catedral Árctica de Tromsø


É a imagem de marca de Tromsø e destaca-se pelo contraste na cidade pitoresca. Se a Catedral Árctica de Tromsø estivesse situada em Oslo, a integração era muito mais natural e previsível. Assim, encontrá-la no meio de uma cidade de montanha com casas coloridas dá-lhe o destaque que uma Catedral assim merece.

A Catedral Árctica de Tromsø não passa despercebida, nem que seja pelo seu design distinto; triangular, branca e de cimento, é também muitas vezes ligada à Ópera de Sidney. A mim, relembra-me sempre uma tenda dos tempos modernos onde quem abraça a fé poderá encontrar algum consolo.


O interior mantém o minimalismo e modernidade. Ao entrarem, podem encontrar um órgão, uma zona dedicada às crianças — com livros e alguns brinquedos, para que possam estar entretidas enquanto os pais estão a participar — lustres maravilhosos e um vitral que se torna uma fatalidade estar colocado do lado errado. A posição do vitral está direccionada para o lado onde o Sol nunca vai durante o Midnight Sun, o que significa que nunca é iluminado e o efeito fica apenas uma promessa que não se cumpriu. No entanto, a sua beleza é encantadora.


Eu gosto de visitar igrejas nas minhas viagens pelo seu simbolismo arquitectónico. Geralmente, são ricas nos mais diversos estilos de época, que eu gosto de tentar reconhecer e admirar. No entanto, acho igualmente admirável quando uma igreja se consegue apresentar com todos os elementos sem um cariz pesado ou típico de uma igreja que, de certa forma, afasta muitas pessoas. Este encontro de estilos modernos com ligações intemporais pode dar um certo conforto a quem não encontra, nas igrejas típicas, a sensação de casa. Não é propriamente o meu caso — repito-me, mas eu acho a maior parte das igrejas muito bonitas, embora não tenha qualquer tipo de religião para me relacionar com elas além da sua óbvia beleza — mas estou confiante que é o caso de muitas pessoas. 

Esta Catedral digna do Árctico foi uma bonita surpresa no seu interior, porém, sempre me apaixonei mais por ela quando a encontrava no horizonte, no seu branco imaculado a contrastar com o horizonte verdejante ou colorido, confiante, mesmo na diferença que a caracteriza. 

terça-feira, 24 de julho de 2018

PASSAPORTE || Fiordes


É uma das palavras-chave da Escandinávia e refere-se ao fenómeno em que um braço de mar circula entre as montanhas. Os fiordes são umas das atracções turísticas naturais mais típicas das regiões nórdicas e o que os torna deslumbrantes é que cada fiorde é completamente diferente do outro, e a paisagem pode ser muito distinta de região para região.

Embora exista um fiorde em Oslo, achámos que faria mais sentido desfrutar da experiência em Tromsø, onde não faltam fiordes e o ambiente é mais sossegado e natural. Existem várias formas de fazerem um passeio pelos fiordes mas os mais comuns são em caminhadas ou trilhas — onde caminham pela montanha — ou num passeio de barco, onde têm uma visão magnífica e ampla para os vales. Para um passeio de barco também existem opções variadas, desde barcos maiores e que comportam múltiplos passageiros a, como nós optámos, um barco pequenino só para nós — e para um turista americano que estava a viajar sozinho —, o que tornou toda a experiência mais reservada e especial.


Confiámos na Arctic Cruise in Norway AS para realizar o nosso passeio. Partimos de manhã para um passeio de três horas a cruzar o mar e a observar as montanhas. Com o barco só para nós e um piloto bem disposto — embora muito cauteloso, uma vez que, no dia da nossa visita, apanhámos ventos muito fortes e isso exigiu escolhas criteriosas no caminho ideal para o passeio — as condições estavam mais do que reunidas para fazer um passeio fantástico. O mar estava bastante picado numa parte da trajectória, o que deixou muita gente que estava no convés mareada e enjoada — pelo que deixo já o conselho de que, se enjoam facilmente nos barcos, optem sempre pelos andares superiores —, mas tenho de admitir: estava na maior, zero enjoos e pronta para a minha aventura preferida em toda a viagem.


Ver fotografias de fiordes é bom. Estar lá é indescritível. O nosso barco tinha uma rede que nos permitia deitarmos em cima e observar o mar por baixo — este tipo de estruturas é muito típico nas caraíbas, por exemplo — e não resisti em encher-me de coragem e sentar-me ali, mesmo com a brisa potente e com a consequência mais previsível: encharcar-me. Não mergulhei, mas posso dizer que já tomei banho no mar nórdico! Isso não me tirou o sorriso nem o entusiasmo e deslumbramento dos olhos. Estava gelada, mas nunca me tinha sentido tão viva.


Resguardei-me no andar superior com mantas, meias quentinhas e um chá preto nas mãos — e se têm vindo a acompanhar as publicações da Noruega, nem preciso dizer qual —. Ao nosso redor, só existiam montanhas que nos faziam esquecer que estávamos em Junho. Os cumes cheios de neve, como uma pitada de açúcar em pó. O mar negro e opaco, possante, com o som das ondas a dar o toque final para um momento tranquilo e especial. Ali, sentimo-nos pequenos pela imensidão do mar, pela enormidade das montanhas. Com as minhas mãos quentes do chá, senti os meus problemas de primeiro mundo a voarem ao sabor da brisa gelada que os transportou para longe de mim. Eu não imaginava que este passeio podia ser tão bom.



A meio da viagem, o piloto desloca-se para a cozinha para preparar uma sopa de peixe típica norueguesa. Está incluído na aquisição do passeio e é um pormenor que faz toda a diferença e torna a tour mais especial. Sentados à mesa e com uma sopa fantástica à disposição, não faltou conversa, perguntas — afinal de contas, havia um piloto norueguês e um turista americano para conhecer —, e uma vista como nunca vi igual para acompanhar. 



Esta foi a forma como escolhemos conhecer os fiordes. E olhando para trás, evocando as memórias, os cheiros, os sons, as fotografias e os vídeos, sinto que não podia ter sido de outra forma. Recomendo milhões de vezes esta empresa extraordinária.

domingo, 22 de julho de 2018

PASSAPORTE || Midnight Sun


O Midnight Sun — ou Sol da Meia Noite — é resultado do solstício de verão, quando o Sol incide com maior intensidade no hemisfério norte, onde se encontra o Círculo Polar Árctico — no qual Tromsø faz parte —. O solstício é o fenómeno que marca as duas estações do ano mais extremas — inverno e verão — e que está ligado às temperaturas e à duração dos dias ou noites. E é neste último que os fenómenos mais incríveis acontecem. No caso do Sol da Meia Noite, o nome não dá margem para erros: o Sol incide com tamanha intensidade que não existe noite. O hemisfério norte nunca deixa de estar iluminado.

E quando não existe noite, não existe mesmo noite; o Sol põe-se — na altura da minha visita, às 00H00 — estagna numa determinada linha do horizonte e volta a nascer, do mesmo lado — às 01H00 em Junho —. O céu não escurece, não vemos a Lua e, se tiverem sorte, poderão observar um delicado tom rosa ao amanhecer — que não se vão dar conta se não estiverem atentos às horas —. O contrário também se verifica — no solstício de Inverno — onde os dias são feitos praticamente de noites, razão pela qual Tromsø é o destino recomendado para assistir a auroras boreais: com um período alargado de escuridão e boa visibilidade no céu nocturno, o fenómeno ocorre praticamente todos os dias e pode ser observado da cidade (embora existam dezenas de centros turísticos para marcarem tours especializadas em auroras boreais). Uma vez que visitámos Tromsø no verão, a presença ininterrupta de luz impede-nos de observar qualquer tipo de fenómeno no céu — e é por isso que as auroras são fenómenos de época baixa —. Não ficámos tristes. O Midnight Sun pode ser igualmente fascinante.
Em Oslo, este fenómeno não acontece, porém, o anoitecer acontece muito tarde — por volta das 23H00 — e às 03H00 já há luz da manhã. A noite nunca é muito escura, mas existe!

Nunca sofri muito com jet lag. Nada de muito relevante. E por isso nunca pensei que a ausência de noite fosse afectar-me tanto. Fui apanhada em falso. Este fenómeno lindíssimo cansou-me muito mais do que qualquer diferença horária e fez-me concluir algo que, se nunca tivesse experimentado o Sol da Meia Noite, jamais desconfiaria: a importância da sentirmos o dia a fechar.

O nosso metabolismo desacelera na mesma velocidade dos nossos dias. Quando começa a anoitecer, começamos a sossegar, a acalmar, a preparar o nosso corpo para uma noite de sono. Mas não temos noção disto até presenciarmos a ausência da noite. Não ter escuridão — nem um pequeno vislumbre dela — fez-me sentir que os dias não encerravam e que estava a viver um dia extremamente longo para o qual fazia sestas ocasionais. Os meus sonos não eram profundos por saber que era dia e assumir que ainda tinha 'muito para tratar'. Perdi a noção dos dias da semana e esquecia-me da hora de jantar. Lanchava infinitamente sem me dar conta que a minha fome era para jantar, para fazer uma refeição de mesa.

Alguns dos meus conselhos principais para desfrutarem bem deste fenómeno são, tirando o dia em que evidentemente vão querer explorar uma cidade às três da manhã com uma luz estrondosa — como não o fazerem?? — obrigarem-se a desacelerar, optarem por programas mais dinâmicos durante as horas típicas de dia e escolherem espaços mais fechados nas horas da noite. Façam questão de levar convosco uma máscara para dormir. Um dos meus maiores erros foi assumir que os hotéis e apartamentos estavam preparados para estes fenómenos e tinham um bom isolamento das janelas. Não caiam na mesma ilusão. Nenhum dos locais onde ficámos tinha estores, apenas cortinas que deixavam a luz escapar de lado. Se precisarem de escuridão total para dormir, as máscaras são essenciais.


Depois deste meu relato, talvez o Sol da Meia Noite já não vos pareça tão encantador. É o preço a pagar pelo retorno fascinante; sempre que penso em Tromsø, vem-me à cabeça o tom amarelo. Não só do meu casaco — parceiro de aventuras nesta viagem — mas também pela luz dourada com que fomos agraciados na nossa chegada. O Sol amarelado dava à cidade uma luz única, alegre e dourada que era quase palpável e mágica. Assistir ao pôr e nascer do Sol sentada no porto enquanto conversava sobre assuntos aleatórios foi um dos momentos mais bonitos que já vivi na minha vida. Só havia silêncio, luz dourada, as nossas vozes e o som das ondas do mar. Passear pela madrugada fora na cidade luminosa, ver todos os recantos sem obstruções, encontrões ou pessoas a passar foi absolutamente terapêutico. E toda a experiência de explorar um lugar onde a escuridão não existia valeu cada olheira — vocês já sabem o quanto eu gosto de experiências em primeira mão —.

Tenho a sorte de viver num país onde o dia divide cordialmente tempo de antena com a noite. Já tive o privilégio de ver o Sol nascer no horizonte do mar, numa praia paradisíaca. E agora tive a oportunidade de viver dias sem fim. Eu sempre preferi o dia à noite. O nascer ao pôr. Mas ali eu aprendi a fazer as pazes com a noite e a amar ainda mais um manto escuro cheio de estrelas. Quando fecho os olhos e penso em Tromsø, lembro-me imediatamente daquela luz dourada única que me iluminava as sardas, da brisa fresca e do cheiro a mar.

sábado, 21 de julho de 2018

BOM GARFO || Mabiche Pizzaria

 LISBOA

Aos amigos que fazem as nossas rotinas do dia-a-dia valerem a pena com jantares a meio da semana... Quem não adora? A nossa escolha de acompanhamento para dividir as novidades, histórias, anseios e sonhos foi pizza. E a casa? Mabiche.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

PASSAPORTE || Tromsø


Chegámos a Tromsø já maravilhados com a beleza extraordinária que pudemos ir observando durante a viagem de avião de Oslo para lá. Situada a norte da Noruega, Tromsø é uma cidade que integra o Círculo Polar Árctico e o destino recomendado para observar auroras boreais — que não pude ver devido a um outro fenómeno sobre o qual tenho toda uma publicação preparada, já que o vosso interesse nos meus Instastories foi gigante e muitas questões surgiram! —.



Cada vez mais gosto de ter a oportunidade de conhecer um país além do que a capital oferece — mesmo quando fico apaixonada, como foi o caso de Oslo —. A experiência torna-se mais imersiva e permite-nos conhecer algumas das múltiplas facetas que um pais pode apresentar. Foi o caso de Tromsø.



Ao contrário de Oslo, Tromsø foi acarinhada pela companhia. Aliás, a duas cidades contrastam; os prédios são substituídos pelas casinhas pitorescas e coloridas, o ar primaveril transforma-se numa brisa gelada, o horizonte é recortado pelos Fiordes e somos rodeados por arvoredos e Natureza. Um ambiente frio, nórdico e natural. Apaixonante. Foi inevitável pensar constantemente nos acordes desta música enquanto caminhava por lá.


Tromsø foi uma visita muito especial e única porque pude conhecer a cidade em ritmos muito diferentes; conheci-a durante o dia, com a agitação de um dia normal, pessoas nas ruas, ritmo. E conheci-a durante a ""noite"", com silêncio, sossego, como se tivessem dito 'Fecha os olhos, Inês, e imagina uma cidade campestre como sempre sonhaste. O que vês?'. A relação clara com os elementos naturais como o mar nórdico, as montanhas, as florestas e o horizonte sem recortes urbanos torna Tromsø num postal querido, daqueles que dá aperto no coração deixar.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

BLOGOSFERA || Em Vias de Extinção?


Está nas bocas dos mais corajosos e, embora sejamos apaixonados e nos custe, não nos podemos deixar iludir: a Blogosfera está a morrer. Há várias razões para este fenómeno de apoptose blogosférica e para esta transição quase global dos blogs para outras redes; quem cá estava por prioridade financeira compreendeu que existem mais formas de rentabilizar sem termos de fingir que adoramos escrever; e quem quer estar na vanguarda das redes e obter um retorno digno do seu trabalho optou por desenvolver o seu conteúdo criativo noutro lugar. Sobra a pergunta: e eu? Para onde vou?

A resposta, para já, tem sido muito simples; embora o Instagram seja a minha rede social preferida e goste de enfrentar alguns receios colocando-me fora da minha zona de conforto — cada vez que falo convosco em vídeo, por exemplo — eu amo escrever. As minhas palavras saem melhor das minhas mãos do que da minha boca, e mesmo que saiba que tenho capacidades para me adaptar e que o meu prazer por comunicar é gigante, é quando escrevo que me sinto mais especial — ou melhor —. Foi a paixão pela escrita que me levou a criar um blog e sei que, mesmo que estivesse a par, na altura em que comecei, das milhares de oportunidades que um blog pode abrir, a paixão seria sempre a minha razão principal para criar um blog e iniciar um rascunho.

Os blogs já não estão na moda e as pessoas cada vez mais têm preguiça para ler qualquer conteúdo com mais de um parágrafo. Mas ainda há paixão por isto. Seja pelos antigos (que carinhosamente chamo de Dinossauros), seja pelos novos que têm a mesma gana para escrever que eu tenho (e que recebo sempre de braços abertos e sorriso nostálgico no olho). Enquanto não existir uma plataforma mais fantástica que me permita fazer tudo o que já faço aqui com tanta dedicação e paixão por isto, sei que vou ficar. Eu acredito nos que, tal como eu, estão a tentar inovar, a dar volta por cima e a tentar dar frescura a uma ideia já sedimentada, sem atirar a toalha ao chão nem afundar de desmotivação em crónicas de mortes anunciadas.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

PASSAPORTE || Oslo


Oslo não foi consensual. A companhia não adorou. A verdade é que Oslo não é uma cidade bonita; Paris chuta-a para um canto, Viena — acredito eu — esmaga-a sem piedade. Não há monumentos megalómanos como encontramos em Londres — que salva a cidade de um afogamento urbano —. Oslo não é nada disto. Mas eu gostei tanto dela.




Oslo tem edifícios bonitos e fachadas encantadoras. Mas não é isto que encontram em cada esquina nem são estes pormenores que vão ficar mais presentes na memória, quando visitarem a capital. Pelo menos, não foi isso que ficou na minha. Oslo é urbana sem ser confusa. Os edifícios modernos são museus de design a céu aberto. As ruas transmitem tranquilidade e um ritmo desafogado. Há silêncio no barulho. Há conforto no frio.



Oslo é a luz amarelada das janelas nos edifícios escuros. Há uma escuridão na cidade que contrasta com a predilecção escandinava na decoração: o branco, a madeira clara. Tudo tem uma arte mais subtil, menos óbvia, menos europeia. Mais funcional, talvez. Os parques cheios, as bicicletas por todo o lado, os cafés pequeninos. Luzes de natal em todas as varandas, terraços decorados de uma forma caseira e delicada, sempre atentos aos pormenores. Há tanto de Inês em Oslo.



Visitei a capital sem expectativas em particular. Não idealizei nada em concreto porque estava fascinada demais com o facto de visitar a Noruega — um país que sempre acreditei que seria muito longínquo vir a pisar —. Mas eu abracei Oslo sem desilusões. Imaginei-me perfeitamente feliz a viver lá. Talvez mais pobre. Significativamente mais pobre. Mas com luzes de Natal na minha varanda. Tremendas saudades de Sol com calor, é certo. Mas chá Twinings em cada esquina — o que, para mim, é uma óptima tradução de 'boas notícias' —, urbanismo em bom, beleza e funcionalismo.



Caminhei por Oslo com o à vontade de quem caminha todos os dias por lá. Com a vantagem de que os meus olhos se deslumbravam por tudo como se fosse a primeira vez. E foi.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

PASSAPORTE || Vigeland Park


Para a nossa última manhã em Oslo, aproveitámos o dia soalheiro para nos dirigirmos ao Parque Vigeland  também conhecido como Parque das Estátuas . O nome é dedicado ao artista norueguês, Gustav Vigeland, que deu alguma identidade ao lugar através das duzentas famosas esculturas que podem encontrar no parque. 



Grande e de aspecto imperial, o parque convida-nos a ficar, a fazer um picnic, a passear de mão dada, a andar de bicicleta ou a correr pela imensidão de relva que encontramos. Uma ponte divide o enorme lago que embeleza o espaço natural e é aí que vão poder encontrar o espólio em céu aberto de Vigeland  incluindo o ex-libris: The Angry Boy 




Aquilo que torna as estátuas de Vigeland tão hipnotizantes e apaixonantes é a sua simplicidade, dramatismo e acessibilidade. As estátuas têm movimento ou emoções que nós próprios (re)conhecemos - ou, mesmo que não as conheçamos, conseguimos imaginar perfeitamente -. Tornam-se transversais, entregando arte sem complexos. É isso que lhes dá alguma beleza. 




O nosso tempo estava contado  afinal de contas, a nossa aventura não terminava em Oslo  e não pudemos usufruir do espaço com o tempo e preguiça que desejávamos. Mas confirmámos que é um dos pontos turísticos que não devem deixar de visitar e que vão passar um tempo agradável por lá, mesmo que esteja contado. A entrada é gratuita.