É mesmo muito importante manter e cultivar hobbies e outros interesses extra-curriculares: esta é uma daquelas aprendizagens que só se comprova quando, finalmente, saímos da bolha académica para o mundo, cá fora. É difícil conciliar tudo com igual empenho e dedicação, mas estes hobbies e interesses não servem apenas para nos ajudar a espairecer; são, no fundo, aquilo que melhor explora a nossa pluralidade, carácter e competências. No mundo profissional, nem sempre vão questionar-nos apenas acerca de aptidões que aprendemos na faculdade e aquilo que fazemos e somos fora de horas pode ser o ponto fulcral para se tornarem diferentes e conseguirem a oportunidade.
De um dia para o outro, tudo muda: os principais acontecimentos dos meus 22 anos aconteceram assim: num dia estava tudo estável, controlado e harmonioso, no outro, todas as coisas, certezas e bases estavam abaladas, torcidas ou mudadas. Apercebi-me do quanto aquilo que temos — e somos — é volátil e frágil e que temos de ser capazes de nos moldar às novas situações, manter o espírito positivo e usar este conhecimento de que tudo o que temos e sabemos é efémero para aproveitarmos ainda mais o momento presente e as coisas que, neste momento, estão ao nosso redor. Embora esta aprendizagem possa ser assustadora, a verdade é que me ajudou imenso a ser mais consciente do momento presente e a desfrutá-lo com mais plenitude do que antes fazia.
Perder a minha melhor amiga é ainda mais doloroso do que imaginei: especialmente porque não estava preparada nem tive qualquer tipo de antecipação. A Laika foi a minha companheira de crescimento e vida e, claro, a ideia de que, um dia, ela ia partir já me tinha ocorrido no pensamento e era um golpe absolutamente doloroso. Mas em nada se compara à realidade, ao adeus que somos obrigados a dar. O dia em que a perdi foi o dia em que mais chorei, em toda a minha vida e o dia em que fiz algo que achei que só acontecia em filmes: gritei de dor.
O choque de conhecer o continente africano é ainda maior do que previa: no meu repertório de viagens, já tinha na bagagem a passagem por países com grandes discrepâncias sociais. Já tinha visto a fome, a miséria e a pobreza, portanto, quando marcámos a viagem ao Senegal, fui com alguma confiança de que já tinha o coração e estômago preparado para o choque de realidades. Não estava. Tudo aquilo que me tinha surpreendido nos outros países, tudo aquilo que tinha feito o meu coração ficar apertado, era três vezes pior ali. Era mais doloroso ali. Não consegui deixar de me sentir impotente, inútil, privilegiada e atónita com as diferenças de estilos de vida por todo o mundo. Na impossibilidade de sentir que a minha presença era a melhor ajuda do mundo, fiz questão de conhecer o máximo de pessoas que pude e de ouvir as suas histórias, de me inspirar com elas e de aprender tudo com eles — porque nos ensinam muito mais a nós do que o contrário —.
O Porto é ainda mais apaixonante do que pensava: finalmente, consegui conhecer o Porto e, de tudo o que já tinha visto e ouvido, estar lá, a viver e experimentar todas as sensações da cidade foi ainda mais incrível e surpreendente. Deslumbrei-me com a sensação de estar numa cidade dinâmica, mas muito familiar e com tantos traços de aldeia, com os sabores típicos do Norte que eu amo, com o Sol a que fui presenteada durante as minhas duas visitas invernosas, com as cores, a arquitectura e a vida! O Porto está repleto de vida e energia, e isso deixou-me fascinada e com vontade de regressar, sempre que possível.
Nem todas as tendências ficam bem no meu corpo e não faz mal: aos 22, ganhei uma consciência enorme em relação ao meu corpo. Uma consciência saudável que passou por fazer as pazes com as minhas imperfeições e fisionomia. Durante todo este processo, a roupa teve, também, um papel importante. Sinto que ganhei mais uma batalha ao cuidar da minha auto-estima, na hora de vestir e experimentar novas peças — e, por vezes, é tão difícil, certo? —. Ao longo do ano, fui-me apaixonando por tendências que não combinavam, de todo, comigo; ou porque não tinha altura para fazer a peça vingar, ou porque as minhas ancas alteravam todo o efeito suposto na peça, ou porque não tinha peito para valorizar a peça. E o que compreendi é que isso não me torna menos bonita, com um corpo menos interessante ou belo. A única mensagem possível de se retirar é: a peça não foi feita para mim. Poderia usar, se quisesse e me fizesse feliz, mas não foi desenhada para mim. E num universo feminino cheio de corpos, curvas e linhas diferentes, a mesma peça não pode valorizar todos os corpos infinitos que existem. E não há mal nenhum nisso. Sair dos provadores sem nada e conformar-me, sem culpa ou tristeza, de que certas peças não eram para mim foi uma das minhas melhores conquistas e tornou todo o conceito de compras, moda e auto-estima muito mais leve, suportável e divertido. Até porque há sempre outro lado da moeda e, obviamente, tenho outras tantas centenas de peças que eu já sei que valorizam o meu corpo de uma forma mágica e que combinam a 100% com a minha estrutura. Este ano, perdoei o meu corpo.
Nem toda a gente compreende o luto por animais de estimação: especialmente quem não os tem. Durante o meu luto pela Laika, ouvi muitos comentários com completa ausência de sensibilidade e os outros tantos, que (inteligentemente) optaram pelo silêncio, observaram-me como se fosse absurdo sofrer a morte de um animal. Sem rodeios de palavras, a verdade é esta; nem todos compreendem que o laço que criamos com os nossos animais é tão forte quanto o que temos com familiares humanos; não compreendem a ligação, a adoração e a admiração. E, certamente, não compreendem o luto. Que perder a Laika foi tão doloroso quanto perder um familiar, porque eu não via diferença. Apercebi-me que o luto por animais é um estigma e que muita gente guarda esse sofrimento porque não lhe dão espaço para viver essa tristeza. Empurram a pessoa para uma ideia de que têm de se recompor o mais rapidamente possível e "voltar à vida" porque foi apenas a "morte de um animal". Aconteceu comigo, aconteceu com uma série de amigos meus que — infelizmente — também perderam os seus companheiros, este ano.
Ser anestesiada é... estranho: este ano, tive de fazer um procedimento médico que envolvia anestesia. Tendo em conta que, desde que nasci, nunca tinha perdido a consciência e não conhecia a sensação de perder os sentidos, a ideia de "adormecer" deixava-me mais assustada e ansiosa do que o procedimento em si. E... é estranho. Num momento estava de coração na boca, no outro estava a ouvir o médico a dizer "até já", a sentir um ardor no braço que se alastrava e, imediatamente a seguir, estava a sentir as pálpebras a pesar de uma forma invencível e a cair em cansaço. A sensação é precisamente a mesma de quando estamos a tentar ficar concentrados num filme, mas estamos constantemente a deixar as pálpebras cair, até cedermos.
Eu consigo controlar as minhas emoções: ter de lidar com uma série de acontecimentos intensos e infelizes fez-me descobrir que, finalmente, era capaz de viver o momento e de controlar o que estava a sentir. Não deixei as emoções saírem de mim como uma bola de neve e me levarem. Não me senti inebriada com sentimentos, senti-me consciente do que estava a falar, discutir ou perguntar. Isso foi fundamental para confiar mais em mim e na minha capacidade de ser dona do meu corpo e da forma como quero que reaja. Essa confiança permitiu que conseguisse viver o tal momento presente, que já citei, e completamente plena de cada uma das minhas acções e palavras.
Tenho sangue frio para lidar com situações de perigo: já o desconfiava e — para meu azar — meti essa desconfiança à prova este ano. Perante o alarme e o perigo, a histeria e o caos, consegui manter a cabeça completamente fria, ser racional e reagir de imediato. Isso preveniu-nos de um desastre ainda maior e mais perigoso e, embora tenha ficado com o coração na boca quando tudo acalmou, descobri que não bloqueei num momento alarmante.
Mergulhar é uma das melhores sensações de sempre: já mo haviam dito e descrito, mas vivê-lo é muito mais extraordinário; quando estamos debaixo de água, com uma botija de oxigénio nas costas, apercebemo-nos do quanto cada inspiração e expiração é um privilégio. Poder observar tudo sem urgência de emergir é uma sensação de invencibilidade. Enquanto mergulhava, sentia que tinha super-poderes e que tudo era possível. Uma das experiências mais incríveis da minha vida. Nunca me tinha sentido tão conectada com a água.
O campo de basquetebol é mesmo a igreja dos jogadores: no meio de todas as notícias e acontecimentos intensos, voltei a refugiar-me no basquetebol. Principalmente porque é o universo que eu considero mais privado e pessoal; nunca trouxe muitas pessoas para o interior dele e as que já estavam, é como se fizessem parte de toda essa realidade. Fui mais vezes ao meu clube, assisti a jogos, participei em actividades. E, quando somos jogadores de gema, deixamos tudo fora das linhas: os problemas, as dúvidas, as discussões e arrufos, as notícias tristes. Só importa o jogo e o que está a acontecer naquele rectângulo. E transportei isso para mim até quando só estava nas bancadas a assistir. Foi terapêutico. Quando me sinto perdida, triste ou desamparada, regresso ao campo e encontro-me. Porque eu estou ali em toda a minha simplicidade. E é por isso que é a nossa igreja. É lá que nos reencontramos.
Existem primeiras experiências de emprego boas: e eu sou exemplo disso. Em toda a minha vida, pouco tinha ouvido sobre sucessos no primeiro emprego; era inundada de histórias assustadoras, fracassos gigantes, e choques infelizes. Mas, a verdade, é que nada disso me aconteceu e o meu primeiro emprego foi incrível. Não foi ao encontro, de todo, do que queria fazer a longo prazo mas fui testemunha de verdadeiros gestos de companheirismo, profissionalismo e familiaridade. Ganhei experiência numa série de competências e ganhei mais confiança enquanto profissional.
Não tenho de me sentir culpada por sorrir em alturas tristes da minha vida: foi também algo que trabalhei muito este ano. Durante muito tempo, sentia-me mal se sorrisse numa altura de luto ou sofrimento; sentia-me ainda pior se risse. Então, comecei trabalhar muito em mudar esta minha concepção. Sorrir é importante, encontrar pequenos momentos de felicidade nas alturas más é fundamental. Não estou a menosprezar o acontecimento triste nem a ignorá-lo. Não estou a desrespeitar nada. Só estou a tentar encontrar razões para voltar a sorrir e a ser feliz, de novo. Sorrir em alturas tristes não me torna insensível ou irresponsável. Torna-me humana e com vontade de viver.
Eu consigo conduzir longas distâncias: e esta foi uma vitória muito importante, para mim. Fiz questão de me por à prova e ir a determinados lugares que, em circunstâncias normais, optaria por transportes. Agarrei no meu GPS, no meu CD da Anavitória e confiei nas minhas capacidades de condução para ir até outros destinos. Cada prova superada foi mais um ponto na minha confiança a conduzir e a ser cada vez mais autónoma. Sinto-me mais descansada quando descubro que tenho de ir a algum lugar que não conheço, sozinha, no meu carro. Já sei que sou capaz.
Eu consigo jogar durante a madrugada: com sinceridade, de todas as aprendizagens que escrevi, esta foi a que achei que nunca iria escrever. Sou conhecida, entre os amigos, por ser a Bela Adormecida. O cansaço e o sono têm efeitos muito pesados em mim mas, durante o torneio em que jogámos basquetebol durante a madrugada, fui capaz de estar activa e presente no jogo. E isso foi absolutamente surpreendente. Certo, fui dormindo nas pausas e intervalos, mas saber que tinha energia para mais um sprint, uma defesa, um corte ou um lançamento arriscado deixaram-me orgulhosa. Esta é uma das capacidades que eu sei que, com o envelhecimento, inevitavelmente vou perder, mas fiquei tão feliz por saber que, por uns tempos, ainda posso dar luta às quatro da manhã, com bola na mão.
Conhecer pessoalmente pessoas da blogosfera é muito divertido: sentia-me muito curiosa em relação a este assunto e ansiosa, também. Tinha — e tenho, admito — um medo tonto de que as pessoas se desiludissem comigo. Nunca ninguém é 100% aquilo que está no seu blog (há tantas coisas da nossa vida e personalidade que não expomos nas nossas páginas...!), portanto, essa parte oculta de nós faz com que pense sempre que a pessoa vai achar-me menos interessante, pessoalmente. Mas, até à data, tenho tido muito boas surpresas e tenho ficado descansada porque garantem-me que sou fiel ao que exponho no Bobby Pins. Inseguranças à parte, é incrível conhecermos, finalmente, as pessoas; ouvirmos a voz, vermos as expressões quando sorriem ou falam. Os trejeitos e tiques. É uma sensação muito boa, especialmente quando sentimos que a relação que temos dentro da blogosfera é exactamente igual offline. Sem constrangimentos ou perdas de química ou empatia.
É muito bom ter um novo membro da família: Embora tenhamos precisado de algum tempo para recuperar, a ideia de fazermos outro patudo sentir-se feliz e com uma família era aliciante. Mas tinha muito medo de como iria ser a minha relação com um novo membro, que não a Laika. A Belka ensinou-me como amar de novo, mesmo que não amemos da mesma maneira. Da mesma forma que não amamos duas pessoas da mesma maneira, algo semelhante acontece com os nossos animais de estimação. Não amamos mais um do que outro, mas o laço é diferente, embora seguro. A Belka é muito diferente da Laika, mas preenche-me o coração de igual forma e aprendo algo novo com ela, todos os dias. É maravilhoso termos mais um patudo para ver crescer e formar personalidade. Que podemos amar incondicionalmente, como já amámos.
Sismos são assustadores: este Verão senti, pela primeira vez, dois tremores de terra. Nunca antes tinha acontecido, passavam-me sempre ao lado mas estes, embora não fossem de uma intensidade muito perigosa, fizeram-se sentir e assustaram-me em absoluto. Ver as nossas coisas a mexerem-se sozinhas e os nossos móveis a abanar é uma sensação assustadora e senti-me insegura. Nada à minha volta era estável e, numa das vezes, cheguei mesmo a correr e a dizer para nos colocarmos debaixo das ombreiras das portas. Senti-me pequenina e, embora saibamos a força que a Natureza pode ter e a que medidas consegue responder, é totalmente diferente quando a observamos e sentimos.
Posso ter uma opinião diferente dos meus pais: e isso é válido e nada tem a ver com insolência ou imaturidade. Esta é uma aprendizagem que demorei muito tempo a alcançar e que, enquanto não a aprendi, sofri muito.
Partilho os mesmos valores e princípios que os meus pais me educaram para ter — afinal de contas, concordo com todos eles e fazem todo o sentido, para mim — mas muitas vezes sentia-me errada se tivesse uma opinião ou decisão diferente da que eles fariam ou aconselhariam, porque metia na cabeça que se os meus pensavam dessa forma sobre determinado assunto, era insensato eu considerar outra ideia. Não era, de todo, imposição dos meus pais nem de qualquer outra coisa, era algo que eu e só eu assumia porque os via como mais velhos, sábios, experientes e conscientes de como eu era.
Este assunto é muito delicado e acho que não é tão falado quanto eu acho necessário mas é completamente possível termos opiniões ou tomarmos decisões diferentes daquelas que os nossos pais têm e isso não significa que os estejamos a desafiar, contrariar ou que sejamos menos sensatos que eles. Não há nada de errado ou imprudente em ter uma forma de ver determinada situação diferente da deles e, durante muito tempo, eu sentia isso, o que acabava por me impedir de ser ainda mais autónoma ou confiante no que estava a fazer. Sinto que esta aprendizagem foi ainda mais importante para a qualidade que eu tenho na relação com os meus pais mas também fez com que conseguisse ter mais certezas de que eu sei o que quero para mim (o melhor, sempre). Sei que partilho os valores que eles prezam, as regras de etiqueta que me incutiram e, quando divergimos de opinião, faço questão de os escutar ao máximo e de respeitar o seu ponto de vista. Mas se sinto que o meu caminho é outro, se o meu ponto de vista é completamente diferente, eu respeito-o e atendo-o também, sem me culpar ou diminuir. Faz parte de nos relacionarmos uns com os outros e é importante confiarmos nas nossas vontades, instintos e opiniões também.