domingo, 30 de abril de 2017

PASSAPORTE || Ler Devagar


Nasceu numa litografia do Bairro Alto mas acabou por sediar a sua casa no LxFactory, a livraria Ler Devagar emerge, em todo o seu esplendor, à volta de uma rotativa de três andares que, inclusive, fez algumas das primeiras edições do Expresso.

A Ler Devagar é, talvez, uma Meca para amantes de livros, em Lisboa. É impossível alguém entrar na livraria e não deixar a boca cair de espanto e a cabeça inclinar-se para cima, de fascínio. Por todo o lado, um número incontável de livros repousa nas prateleiras, até chegar ao tecto. Há livros para todos os gostos, de todas as épocas e dos mais variados temas. À entrada encontram as edições e exemplares mais recentes (as novidades) e, à medida que vão subindo, encontram exemplares e obras mais antigas. 


Ao longo de toda a livraria têm sempre a colossal rotativa no centro que, curiosamente, combina muito harmoniosamente com o restante espaço, e por onde podem subir para ter novas visões da Ler Devagar ou para lanchar. Existem dois cafés em todo o espaço - um deles com o famoso Bolo da Marta - e inúmeras mesas onde podem fazer o tempo parar enquanto fazem o estômago feliz e deixam-se envolver por um livro. É um lugar que, se estivesse perto da minha casa, seria eleito para eu estudar ou simplesmente estar.

É facílimo um leitor perder-se por entre corredores cheios de livros e tantas coisas interessantes ao seu redor. O espaço é muito confortável. Dá vontade de passar horas lá dentro. A livraria reúne, com alguma frequência, uma série de eventos e exposições que podem consultar na agenda e muitas delas são gratuitas e valem a pena a visita. 

Senti-me a Bela a ver a biblioteca do Monstro. E, se como eu, suspiram com essa cena do filme - porque são tão bookworms como eu - então recomendo vivamente que visitem este lugar.

sábado, 29 de abril de 2017

BOM GARFO || ZeroZero

 LISBOA

Domingos com sol combinam muito com boas pizzas num terraço bonito. E foi precisamente essa a escolha que fizemos, mais especificamente, a ZeroZero.
Sabíamos que não era possível fazer reservas e que era um espaço concorrido, portanto, tentámos chegar bem cedo. No entanto, ainda tivemos de esperar por mesa (não muito, reconheço. Talvez dez minutos). A entrada do restaurante apresenta-nos um bar do lado direito e uma charcutaria do lado esquerdo; durante o tempo de espera, podem tomar um copo no bar ou petiscar qualquer coisa da charcutaria.

O terraço é simplesmente maravilhoso, com vista para uma Lisboa verdejante. É um lugar para se ir ficando sem pressas e para desfrutar de todo o ambiente. Pedimos uma funghi e uma pancetta e pecorino. Estavam divinais. A frescura e qualidade dos ingredientes é notável, os sabores eram viciantes e as pizzas tinham uma notável técnica italiana, que nos faz sentir que estamos a fazer uma refeição cheia de qualidade. A massa é fina, o queijo derrete-se na nossa boca e um almoço cheio de sabor é uma promessa cumprida, nesta pizzaria.

Para mim, fica empatada com a Casanova, e está, sem dúvida, entre o top das minhas pizzarias preferidas. Conquistou-me por completo e quero regressar. É uma viagem a Itália através do garfo.

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Rua da Escola Politécnica, 32, 1250-102
Lisboa
Contacto: 213 420 091

sexta-feira, 28 de abril de 2017

PASSAPORTE || Dicas e Factos sobre Senegal (parte II)


1. A mulher é considerada um ser precioso e sagrado. É uma prioridade numa série de contextos e ocasiões e detém a custódia dos filhos. No entanto, estes factos são automaticamente ameaçados quando a existência da mutilação genital, os casamentos forçados na infância e o Código que dita que a idade legal de casamento mínima são os 16 anos ainda são uma realidade. Fica aqui a minha reflexão curta: a mulher é preciosa e sagrada onde e em quê, afinal de contas?

2. Para embarcar no aeroporto de Dakar, cheguem, no mínimo, com 2 horas de antecedência ao vosso embarque. Se em Cuba eu disse-vos que o lema deles é No pasa nada, no Senegal o lema é Hakuna Matata e tudo é feito com uma lentidão olímpica. O aeroporto é de uma desorganização imensa, vêem esquemas por todo o lado - pessoas a passar à frente, a saltar pontos de controlo, etc. - e eles têm um gravíssimo problema a encontrar os nossos nomes em qualquer sistema informático. Para compreenderem, o funcionário disse-me três vezes que eu não estava nos registos de check-in, embora eu tivesse a certeza de que já o tinha feito via online. Ao fim de uns minutos, desisti e passei para o outro lado do balcão, onde me coloquei ao seu lado para procurar o meu próprio nome na base de dados. Adivinhem, estava mesmo em frente ao seu nariz e tive de apontar três vezes para o ecrã e para o passaporte para ele associar o meu nome ao que estava escrito no monitor. E sim, os nomes estavam exactamente iguais ao passaporte. E não fui um caso excepcional. Portanto, têm de se prevenir e ir para o aeroporto com antecedência para que consigam ter tempo para todos estes "imprevistos". Além disso, desde o momento em que entram nas portas principais do aeroporto até à entrada do próprio avião, passam por dez postos de controlo de bilhete e bagagem. Dez. Sim, significa que, por dez vezes têm de mostrar o bilhete, passaporte, dizer onde ficaram e porque estão lá, descalçarem-se, submeter-se a revista e detector de metais e ainda têm de abrir a bagagem - não importa se a bagagem já passou no raio-x, vocês têm de a abrir na mesma. Chegou ao ponto de eles fazerem-nos parar no meio da pista do avião, à beira das mangas, para verem o nosso passaporte e bilhete, de novo. Só pude agradecer não estar a chover. O próprio Comandante disse: "O aeroporto de Dakar é sempre uma confusão e um monte de problemas". 


3. Não tirem fotos aos vendedores de rua. Ou, pelo menos, sejam discretos. Os Senegaleses acham que o acto de tirarmos fotografias aos seus negócios é um gesto trocista e de revelação de superioridade - julgam que vamos gozar com o facto de eles venderem à beira da estrada - e, embora sejam muito gentis, levam a peito e podem ter comportamentos agressivos. Vi uma mulher atirar uma manga a uma turista francesa que estava a tirar uma foto ao seu pequeno mercado. Não lhe acertou porque a francesa estava num carro.

4. O país era palco do famosíssimo rally Dakar - daí a competição adoptar o nome da capital do Senegal - mas, em 2008, passou para a América do Sul.


5. Não ofereçam dinheiro às crianças. Isto é um pedido feito por inúmeras pessoas locais. Os Senegaleses prezam muito a educação das crianças e lutam para que os filhos entrem e permaneçam nas escolas. Por esta razão, não vão encontrar muitas crianças a prestar serviços ou a pedir-vos dinheiro, como acontece em outros lugares. Eles acreditam que, se lhes dermos dinheiro, esse gesto tornar-se-à num hábito que eles vão preferir, ao invés de estudarem e passarem o tempo na escola. Eles não querem os filhos em lugares mais turísticos a pedir. Querem vê-los a estudar. Aliás, nenhuma criança vai pedir-vos absolutamente nada a não ser que lhe dêem a mão, um abraço ou então pedem para vos mexer no cabelo.

6. Ao contrário das crianças, homens a prestar serviços é coisa que não vai faltar. Assim que saem do aeroporto, sentem o choque; dezenas de homens aproximam-se de vós e perguntam-vos se precisam de taxi, de tours, de fazer câmbio. Pode parecer assustador - especialmente se forem mulheres - até porque eles não têm tento na língua ou nos olhos; as miradas de alto a baixo e as perguntas indiscretas e piropos são uma constante. Não têm malícia associada, mas o choque inicial pode desencadear comportamentos e respostas defensivas. Relaxem, sorriam e digam com firmeza que não precisam do serviço. Eles só querem conversa, literalmente.



7. Os nutricionistas são considerados profissionais essenciais, no país, especialmente no cuidado de crianças. Não existe uma separação da nutrição com a medicina, um estudante que queira ser nutricionista tem de entrar em medicina e especializar-se em nutrição. Um curso de medicina no Senegal dura oito anos.

8. O nome Inês é um dos mais comuns no país (tinha de incluir este facto por motivos muito relevantes e vaidosos!)


9. Um dos principais problemas do Senegal é a poluição. É muito comum assistirem, na periferia de cada quarteirão, lixeiras a céu aberto. Montanhas e montanhas de lixo, plástico, cartão, tudo à beira da estrada. É um cenário de perder de vista. Não encontram caixotes do lixo e a maior parte é simplesmente atirada ao chão.

10. As autoestradas são uma herança portuguesa. Não encontramos muitos mais vestígios de Portugal porque todo o país teve maioritariamente colonização inglesa e francesa.

11. Não me senti insegura. Estava preparada para me sentir assim porque fizeram-me inúmeros relatos do género, mas a verdade é que estive perfeitamente tranquila em todos os lugares que passei. Estava preparada para os comportamentos masculinos mas tive exactamente os mesmos cuidados que teria em qualquer capital europeia. Pude andar livremente a tirar fotografias com o meu telemóvel, não senti que, a qualquer momento, iam levar a minha mochila num puxão nem tive problemas em ficar para trás nas ruas. Andei e mexi nas minhas coisas livremente.

Se tiverem alguma curiosidade ou dúvida que queiram ver atendida, deixem aqui nos comentários, uma vez que as publicações de dicas e factos sobre o Senegal terminam nesta publicação. Se me for possível, vou deixar as respostas nesta publicação para que, futuramente, outros leitores possam consultar.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

LIVROS || Tudo, tudo e nós


Uma história muito peculiar que nos apresenta a vida de Madeline, uma jovem de dezoito anos que sofre de uma doença que é comummente denominada de "Menino bolha"; são pessoas que têm o seu sistema imunitário muito vulnerável e que não podem estar num ambiente que não tenha uma filtração de ar especial, não podem comer tudo, não podem tocar em objectos exteriores, não podem travar contacto com qualquer pessoa que se cruze com elas. Costumam, portanto, ficar fechadas em casa num alto sistema de limpeza do ar, da mobília e de selecção rigorosa da comida e das pessoas que podem entrar no seu ambiente. Este é o caso da protagonista, que nunca saiu da sua casa segura e limpa, para o mundo exterior. No entanto, conhece o seu novo vizinho, Olly, que lhe mostra que há mais vida além dos livros que lê e dos filmes que a fazem sonhar acordada.

Eu gostei da premissa da história. É diferente e muito invulgar. É uma história condenada, é o que imediatamente pensamos. E fiquei com um pouco de medo que tivesse um toque John Green - que, como vocês sabem, é o meu autor favorito (e quem achar que isto é verdade, não me acompanha há tempo suficiente) -. Não queria um relato de vítima. E devo dizer-vos que achei as personagens muito bem pensadas. Não temos vítimas, não temos narrativas depressivas e não temos visões passivo-agressivas sobre o mundo, embora a história deste livro esteja longe de ser um conto de fadas em todos os capítulos. São personagens que encontram sempre um caminho positivo no meio do caos e eu acho isso inspirador e adorável.

Sendo literatura juvenil, confesso que me senti impaciente com o exagero de desenhos e observações irrelevantes. A história tem algum excesso de fantasia - acho que há determinados acontecimentos na narrativa que são muito pouco realistas - e desejava mais conteúdo e profundidade. A linha temporal é rápida demais e eu preferia que a autora tivesse dedicado mais tempo a construir a história e a intensificar a profundidade dos assuntos que aborda - que são muito pertinentes e sérios! É leve para conquistar a malta jovem mas, confesso, eu queria mais corpo narrativo. Tinha potencial para ser extraordinário. Assim, é só giro.

Tem um final inesperado e cativante, tem um romance que nos faz cortar a respiração e torcer sempre pelos finais felizes e conquista-nos por nos deixar com os sentimentos à flor da pele. Vai sair, brevemente, a adaptação cinematográfica, que estou muito curiosa para ver porque estou a torcer para que ganhe a tal profundidade que acho necessária. Mas pela premissa da história, pelo carisma dos personagens, pelo final arrojado, eu não podia deixar de vos recomendar. 


P.S.: Um detalhe querido para pessoas que têm um coração de mel, como eu: a capa do livro foi desenhada pelo marido da autora. Eu derreto-me com estas coisas!

Autora: Nicola Yoon
Número de Páginas: 319
Disponível na WOOK (ao comprares o livro através deste link, estás a contribuir para o crescimento do Bobby Pins)

quarta-feira, 26 de abril de 2017

EVENTOS || Baptismo de Mergulho Surpresa


O convite surgiu de forma inesperada e surpreendente. Ainda só tinha experimentado snorkeling, portanto, quando vi os instrutores com os coletes e as botijas no canto da piscina, fiquei num êxtase total. Aventura e experiências é comigo! Além disso, sempre tive no meu círculo inúmeras pessoas que já tinham feito mergulho (que têm até a carta de mergulho) e o fascínio ao ouvir as suas histórias era total. Claro, não foi um baptismo de mergulho em open water (acredito que seja milhentas vezes mais espectacular) mas só a ideia de experimentar uma sensação nova já me deixava de olhos a brilhar.

Barbatanas nos pés, truques para não embaciar os óculos, instruções rápidas de sinais com o instrutor e o momento da verdade chegou bem depressa: a hora de meter o bocal. É sempre um momento confuso, para mim, porque o meu instinto de atleta sempre fez com que inspirasse pelo nariz e expirasse pela boca. Fazer a respiração unicamente pela boca é algo altamente estranho, o que custou ainda uns segundos a obrigar-me a concentrar para acertar com a respiração (até porque se tentarem respirar pelo nariz com aqueles óculos, a aflição é real). Mas nem essa confusão inicial me impediu de querer mergulhar imediatamente.

Já experimentei muitas sensações inesquecíveis e já participei em algumas aventuras bem radicais e marcantes. Mas nenhuma se vai comprar à sensação de poder respirar debaixo de água. De abrir os olhos e ver tudo, no tempo que quisesse, com um pulmão mágico que não me obrigava a emergir. É uma sensação de milagre. De seres extraordinário e poderes fazer tudo o que quiseres. É como se fosse magia. É incomparável. Nadei, rodopiei, fiz trinta por uma linha e descobri uma nova visão do que é estar debaixo de água. Por muito que tenha feito a minha vida na água (quase quinze anos), nunca tinha experimentado esta sensação; de silêncio, de tranquilidade. A ausência de sons agudos e a harmonia de estarmos debaixo de água misturada com o alívio de termos mais ar para respirar, porque o oxigénio está constantemente a entrar pelo bocal. É como se fôssemos super-heróis.

Foi uma experiência tão inacreditável, que me pareceu rápida demais. Não queria que acabasse nunca, queria mergulhar mais, nadar mais e descobrir mais. Saí das piscinas com uma alegria inesgotável e com uma sensação de gratidão imensa por ter tido o privilégio de experimentar esta sensação que nunca, nunca, nunca vou esquecer. Mais um sonho conquistado.

terça-feira, 25 de abril de 2017

FILMES || Human


Um filme documentário de Yann Arthus-Bertrand que estava tão curiosa para ver! Human reúne pessoas de 60 países diferentes com 2000 histórias para contar. Através de um olhar muito técnico, fotográfico, intenso e hipnotizante, o ecologista mostra-nos o quanto os costumes, a cultura e a própria natureza humana são tão belos e interessantes. Apresenta-nos uma série de pessoas comuns com visões distintas sobre os mais diversos temas como o amor, a felicidade, a morte, família, guerra, entre outros. Dão as suas opiniões com base nos seus testemunhos, nas suas vivências, na sua educação e até no próprio background cultural.

É extraordinariamente interessante ver como somos tão iguais mas, ao mesmo tempo, tão plurais. Como duas pessoas, com vidas completamente distintas conseguem, ainda assim, procurar os mesmos afectos ou considerar sentimentos e emoções de formas totalmente divergentes. Como duas pessoas podem ter no seu caminho o mesmo obstáculo, mas ultrapassam-no de maneiras opostas. Este é um documentário que nos apresenta a beleza da diversidade, do contacto com realidades muito diferentes da nossa. Faz-nos sair da bolha e perceber que nem toda a gente tem a mesma visão sobre uma série de assuntos que nós consideramos de definição global, erradamente. E faz-nos relativizar muitos dos nossos problemas e dramas. 

É fascinante como Arthus-Bertrand conseguiu cativar pelas palavras tão genuínas dos entrevistados (das mais diversas classes sociais e com experiências sociais e profissionais completamente opostas) mas também pelos pormenores fotográficos e visuais que não nos deixam indiferentes. O enquadramento dos entrevistados. O foco tão técnico no sorriso de uma criança. A luz certa para vermos o brilho nos olhos de uma senhora. O jogo de movimentos em câmara lenta que nos permitem admirar a própria Humanidade (de tão complexa, diversa e similar que é). Um trabalho magnífico que só podia ser feito por um fotógrafo e que vocês podem assistir, na íntegra, pelo Youtube através de três volumes, que deixo aqui abaixo. Envolvente.


Nota: Se activarem a opção das legendas nos vídeos do Youtube, podem ter acesso ao nome e origem de todos os entrevistados do documentário. Magnífico!

domingo, 23 de abril de 2017

LIVROS || 5 Livros que Me Marcaram (e porquê)


A convite da Sofia Costa Lima, e no contexto do Dia Mundial do Livro, recebi a proposta de partilhar convosco os 5 livros que me marcaram. Como já tenho uma publicação sobre os meus 5 livros preferidos, eu decidi partilhar, nesta publicação, livros que, mesmo não sendo os meus preferidos, tiveram um grande impacto, em mim. Que me fizeram reflectir, chorar, nunca esquecer a história. Não são necessariamente tristes mas sem dúvida que, por mais anos que passem, eu não esqueço o que estava dentro dessas páginas e, de alguma forma, transformaram-me. Não há uma ordem específica.

sábado, 22 de abril de 2017

DAILY || Há sempre boas notícias ao virar da esquina


Eu admito: quando acordei, só desejava que aquele dia fosse cancelado. Nem precisava de abrir a agenda para saber de cor todas as tarefas e trabalhos que tinha reservados para o dia, embora não estivesse programado nada de entusiasmante. Nesse campo, a folha estaria em branco e isso estava a desmotivar-me.

Tratei de todos os meus assuntos, cruzei todas as minhas tarefas e recebi o João em minha casa. Pior do que estares triste é veres uma criança ficar triste por te ver triste. E na sua doçura infantil, deu-me um abracinho e disse-me "Podemos ir passear à rua?". Não tinha vontade nenhuma de sair de casa, mas vi que ele estava com esperanças de que dissesse que sim e decidi fazer-lhe a vontade. Lá fomos os dois no carro a ouvir o último lançamento dos Coldplay e procurar um sítio giro para lanchar.

Um gelado para ti, um bagel de queijo creme para mim e um sumo de manga e laranja para os dois. De repente, o dia já não parecia tão escuro. Ele sempre a falar e a contar histórias. Não há nada melhor para curar dias tristes porque são sempre narrativas simples e que só exigem um pouco de atenção e imaginação suficientes para acompanharmos todos os raciocínios. Começámos a dar um passeio despreocupado pelas ruas - sempre a tagarelar - e demos com uma loja pequenina mas cheia de artigos em segunda mão, que decidimos espreitar.

Era como um pequeno sotão cheio de tesouros que, para alguém, não valiam nada e, para outros, podiam valer tudo; roupa, cerâmica, livros, acessórios, filmes e até jogos. Cada um foi para o seu canto para espreitar tudo e foi então que vi o meu filme preferido de comédia na prateleira. O DVD que andava há tanto tempo há procura e que não encontrava em lado nenhum estava ali, solitário, a um euro. Os meus olhos brilharam de felicidade. O filme não é nada de especial ou de extraordinário, a comédia é non-sense barata mas sempre fez recordar a primeira vez que o vi, em Aveiro, com a minha mãe e a minha madrinha, na sala. Perdidas de riso, esse filme ganhou o meu coração. Quando íamos alugar filmes, às sextas-feiras, eu e a minha mãe escolhíamos sempre algumas novidades mas não resistíamos e tínhamos sempre de levar este filme de comédia, só para sermos felizes garantidamente. Parecia que aquele DVD estava ali só mesmo para me fazer sorrir. O João apareceu aos pulos porque tinha encontrado um jogo que andava há imenso tempo a namorar. Decidimos levar os nossos tesouros para casa.

Experimentámos o jogo durante horas e terminámos o dia a ver o filme. Eu a rir das piadas que já conhecia de cor e salteado, ele a rir delas pela primeira vez e a torná-las suas. Foi só um simples filme abandonado mas que me fez rir e sorrir. Que fez um dia, que afinal valeu a pena, terminar de uma forma tão deliciosa e nostálgica. Afinal, o dia não devia ser cancelado e o que antes era uma folha de programas em branco, convertera-se num lanche com a melhor companhia do mundo e num final de tarde a ver um filme que adoro.

E é isto que quero dizer quando acredito que há sempre boas notícias ao virar da esquina. Descobrirmos que o nosso dia pode terminar de uma forma trezentas vezes melhor do que pensávamos é, também, uma boa notícia. Dos miminhos mais pequenos e gentis às novidades e surpresas mais maravilhosas, há sempre algo de bom reservado para nós nos momentos mais inesperados. Só temos de ter a coragem de caminharmos em direcção às boas notícias e o empenho certo para virar as esquinas. Eu não teria um final de tarde tão feliz se não tivesse alinhado num lanche fora de casa. Eu não receberia notícias profissionais tão boas se não trabalhasse por elas. Eu acredito que há boas notícias ao virar da esquina porque eu caminho nessa direcção para as receber. Mesmo quando acordo com as palpebras pesadas, o coração apertado e com vontade de passar um dia à frente.

Obrigada a quem se desfez daquele DVD, pensando que não valia nada (ou um euro). Fez-me sorrir, fez-me rir, fez-me sentir Inês. E, para mim, isso é precioso.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

PASSAPORTE || Aldeia Beunoba


Durante a nossa visita ao deserto de Niaga, o meu guia sugeriu-nos que visitássemos uma pequena aldeia que existia... no meio do deserto. Só esta declaração fez o meu coração parar. Como era possível tal coisa?

A aldeia Beunoba é de etnia Pular e encontra-se, literalmente, no meio do deserto. E foi chocante. Assim que parámos o jipe, encontrámo-nos com o chefe da aldeia, que rapidamente nos fez uma pequena introdução sobre Beunoba e fomos atropelados por dezenas de crianças pequenas que nos pediam para darmos a mão, abraços, ou para nos mexerem no cabelo. Imediatamente solicitou que não déssemos qualquer tipo de dinheiro (uma razão que, numa outra publicação, vou explicar). A aldeia é marcada por uma pobreza extrema e são muito poucas as casas que têm paredes de cimento. As que têm, carecem de tecto. A maior parte é composta por pequenas cabanas.

Sei que não parece mas isto é um conjunto de casas e "jardins". Esta área já é bastante "moderna"
A visita consistia em conhecermos os aldeãs e vermos as suas casas. As fotografias eram permitidas mas recusei-me a tirar fotos ao interior das casas porque acho que a privacidade é um direito inviolável. Não é porque eles desconhecem ou o permitem que nos dá o direito de pisar. Aliás, eu fiz questão de apenas tirar fotografias às pessoas que nos pediam que lhas tirássemos. Eu respeito muito a identidade de um lar e de uma pessoa, pelo que todas as fotografias que vão encontrar nesta publicação são das fachadas e "jardins" das casas e das pessoas que, como já foi referido, pediram que as registássemos em fotografias.

Nada do que eu possa escrever irá conseguir transmitir, a 100%, todo o choque e contraste que senti e vivi. A cozinha não era maior do que uma casa de banho de visitas, sem qualquer saneamento básico e com moscas em todos os recantos. Até há bem pouco tempo, cozinhavam utilizando estrume de vaca como combustível. Os quartos são minúsculos e desprovidos de nada. Conseguem imaginar viver num mundo em que nada no exterior expressa a vossa identidade, os vossos gostos, os vossos sonhos? 


Na aldeia, existem poços com água, a única fonte para poderem beber. Como não é potável, têm de adicionar pequenas quantidades de lixívia. Sim, lixívia. Os pátios e jardins estão cobertos de gatos e lixo. Em cada recanto das barracas e cabanas, há uma série de tijolos de cimento partidos, de restos de embalagens de plástico e outras tralhas amontoadas e esquecidas.


Num dos quartos, estava um pequeno bebé a dormir. Era o segundo de uma rapariga de 25 anos lindíssima, que está nesta foto acima. O pai do bebé tinha acabado de fazer 20 anos e esta é a sua quarta mulher.

Como estava com o meu guia Souleymane, que me traduzia para português tudo aquilo que o chefe da aldeia ia dizendo, senti-me muito confortável para conseguir ter um diálogo e fazer as perguntas que invadiam a minha mente. Aliás, é por isto que eles aguardam: satisfazer a vossa curiosidade. Responder às vossas perguntas. E eu disparei todas as que pude. Perguntei como faziam se alguma criança ficasse doente, se fosse necessário ir ao hospital. Existe um, fora do deserto, mas o caminho a percorrer é longo e exige que o motivo valha a pena. Também têm uma escola no meio da aldeia.

E uma das perguntas que mais tinha urgência em saber era como podíamos ajudar ou contribuir, se eles não aceitavam dinheiro. E esta aldeia tem a solução: um pequeno mercado de artesanato, onde as crianças e adultos fazem as suas criações e invenções que podemos depois comprar. Todo o dinheiro é revertido para a saúde e educação da aldeia. Isto faz com que as crianças continuem a valorizar a educação e que trabalhem o espírito criativo.

Já estávamos quase de saída quando, num dos pátios, vi uma casa com paredes de cimento, mas a céu aberto. Não tinha portas nem nada no seu interior a não ser terra batida e uma dezena de crianças reunidas em volta de um tabuleiro de alumínio que tinha arroz e um possível molho de tomate. Comiam com as mãos, sôfregas e esfomeadas. 

Eu sei. Não dá vontade de ler ou ver. Não dá gozo de saber. Chega a ser violento, até. Mas é uma realidade que temos de ver e ler mais. Quanto mais não seja, para sermos ainda mais gratos por todos os privilégios que temos na vida. Pelo conforto que temos. Durante toda esta visita, as pessoas olhavam para mim como se fosse uma pessoa cheia de respostas, conhecimento e sucesso. Mas eu sentia que aprendia muito mais ao lado delas do que elas comigo. A única coisa que conseguia pensar era "O que tenho eu para dizer a estas pessoas? A estas crianças? Que estão onde quiserem estar? Quão hipócrita seria eu?" porque sentia-me assim, se o dissesse. Eu estou onde quero estar porque tenho o conforto e privilégio (em todos os sentidos que possam imaginar) para o fazer. Uma mulher da minha idade, naquela aldeia, não está onde quer estar com a mesma facilidade que eu. Eu falo de barriga cheia. De acesso facilitado. Eu começo a imaginar tudo o que estas pessoas teriam de ultrapassar para seguirem os seus sonhos e fico sufocada de silêncio. E é por isto que eu admiro muito o guia que estava comigo. Ele conseguiu seguir os seus sonhos e lutar por eles. Só que eu sei que tudo o que ele teve de fazer para estar onde está, agora, foi muito mais do que seria exigido a um qualquer estudante de Turismo, como ele um dia já foi. 


Não é um relato cor-de-rosa e não sei como o concluir. Senti-me desolada mas, curioso, nenhuma criança partilhava o meu rosto de tristeza; todas tinham uma energia inesgotável, todas sorriam, brincavam e partilhavam. Para elas, aquilo parecia ser o paraíso. E talvez seja porque nunca conheceram outro. Não sinto que lhes tenha acrescentado nada. Não sinto que faria qualquer diferença na vida delas porque não sou nada ao lado delas. Fiz questão de contribuir o máximo que pude no mercado, onde comprei a minha piroga decorativa, o meu hipopótamo de madeira e algumas estátuas e porta-chaves. Mas eu sinto que saí de lá com enormes lições de cada um deles. Aprendi a agradecer mais. A relativizar, ainda mais, os meus problemas. A compreender ainda melhor que eu tenho uma vida maravilhosa. E digo tudo isto sem vaidade mas sim com uma enorme percepção e gratidão. Porque os nossos pais diziam "Há crianças a morrer à fome, em África" mas, por mais que vocês oiçam e compreendam, nunca o vão entender realmente até verem no rosto delas.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

BOM GARFO || Nicolau Lisboa

 LISBOA

Para uma segunda feira que já ia avançada e com um almoço por tomar, peguei numa óptima companhia, decidimos arriscar as filas e ir ao badalado Nicolau Lisboa, para fazer uma espécie de brunch invertido: um almoço alancharado!

quarta-feira, 19 de abril de 2017

LIVROS || Enzo


Comprei este livro há 10 anos e lembro-me perfeitamente de como o encontrei, porque o escolhi e do momento em que fui ao balcão, para o pagar. Mesmo assim, mesmo tendo lido o resumo na contra-capa e sabendo ao que ia, não fui capaz de o começar. 
No entanto, quando perdi a Laika, lembrei-me imediatamente deste livro e comecei a vasculhar a minha biblioteca inteira, à procura dele.

Esta história de Garth Stein apresenta-nos Enzo, um cão absolutamente adorável, filósofo, velho e que, na véspera do dia em que vai ser abatido, decide rever algumas das memórias mais importantes que viveu junto do seu amado dono, Denny.
Desenganem-se se pensam que vão ler uma versão medíocre de Marley e Eu porque o livro foge completamente de todas as narrativas típicas sobre animais de estimação. A começar, o narrador é o próprio Enzo e a dinâmica do livro tem o objectivo de nos fazer sentir que estamos dentro da sua cabeça, que estamos a presenciar as suas recordações. Outra particularidade é que a história pouco ou nada se centra na vida de Enzo. Não há grandes focos de atenção para as suas asneiras, para a sua vida de cachorro, para a forma como as pessoas lhe dão atenção. Como já referi, este não é mais um livro sobre animais de estimação. Uma outra particularidade da história é que Enzo tem uma enorme vontade de ser um humano e acredita com todas as suas forças que, quando morrer, vai reencarnar numa pessoa.

Existe uma narrativa meio que paradoxal, nesta obra. Os dramas familiares que Enzo vive com Denny são muito pesados e aborda questões como o amor, a amizade, os filhos, desentendimentos familiares, doença, morte, superação... Mas todas estas temáticas são-nos apresentadas por um cão o que, inevitavelmente, torna o relato muito inocente, muito puro. Não é infantil. É a perspectiva dócil de um cão. É tudo o que sempre imaginámos quando nos indagámos "o que será que a/o minha/meu melhor amiga/o pensa disto?"

Claro, não deixa de ter uma componente muito fantasiosa em inúmeros factores, em especial, por ser um cão a filosofar sobre muitas questões da vida e do seu amor pelo dono. Mas, sabem uma coisa? Foi reconfortante. Em momento algum eu projectei a história do Enzo para a Laika - até porque são cães com personalidades beeeeem diferentes - mas ajudou-me a processar o meu luto. É um livro que me fez chorar muito, que me fez rir também, mas que me trouxe alguma tranquilidade e me fez pensar que, talvez, num mundo imaginário, a minha melhor amiga também tenha pensado o mesmo que o Enzo pensou na véspera de morrer. É um livro que eu não posso deixar de recomendar a todas as pessoas que têm um melhor amigo de quatro patas em casa. Dá lágrimas, mas também dá abraços por dentro. Talvez tenha valido a pena esperar 10 anos para o ler.

Autor: Garth Stein
Número de Páginas: 350

quarta-feira, 12 de abril de 2017

PASSAPORTE || Deserto de Niaga, Senegal


Esta viagem foi a conquista de vários sonhos e desejos, entre eles, andar num deserto. O deserto de Niaga não tem uma extensão de areia tão infinita como um Sahara - muito menos dunas verdadeiramente montanhosas - mas é uma paisagem de perder de vista e fascínio. Permanece com alguma vegetação graças a dois factores fundamentais: a presença de um oásis (e, acreditem, é tal e qual o que vai na nossa imaginação) e porque está próximo da costa africana.


Enquanto o Rally Dakar decorreu no Senegal, este deserto era um dos pontos de passagem, incluindo a costa. A prova terminava, depois, no Lago Retba. Embora o evento tenha, há muito tempo, mudado de lugar, ainda existem dezenas de experiências e tours que podem realizar para viverem um pouco do que é um Rally Dakar.



Eu fui num jipe de caixa aberta altamente duvidoso fazer esta aventura. Além da minha companhia e do nosso guia, estava connosco um casal absolutamente adorável de franceses que completava 60 anos de casados. Não se deixem enganar pela possível idade deste dois simpáticos franceses, eles tinham toda a genica e espírito de aventura dentro de si. Mas confesso que temi por eles quando os vi alinhar na nossa experiência de Rally. O jipe salta, sobe e desce uma série de dunas e nós vamos saltitando no banco de um lado para o outro, rindo para disfarçar o nervosismo de tudo dar para o torto ou de um carro daqueles parar no meio do deserto.




A aventura vale totalmente a pena pelas paisagens, pelas aves que fogem de nós à medida que o carro passa, pela brisa do mar a bater nas nossas caras, pelo tempo seco do deserto a abraçar-nos o corpo. Quando estamos ali, rodeados apenas de areia, sentimo-nos pequenos em todos os pormenores, especialmente nos nossos problemas. Como podemos nós sofrer por coisas pequenas, quando existe algo tão inacreditavelmente belo e simples como um deserto?

terça-feira, 11 de abril de 2017

FILMES || 100 Metros


O mundo de Ramón desaba quando, após alarmantes sinais, recebe o diagnóstico de que tem esclerose múltipla. De um momento para o outro, Ramón, pai de família, marido dedicado e profissional empenhado, vê-se a perder a sua autonomia e independência, sem alcançar sinais de melhoria e com o prognóstico de que, dali a um ano, já nem conseguirá andar 100 metros.

É durante uma profunda depressão que descobre a existência de uma prova de triatlo, Ironman que consiste em 3,8 km de natação, 180 km de bicicleta e 42 km de corrida. Disposto a não deixar que a doença o defina e o limite, Ramón decide inscrever-se e treinar para essa prova, com uma ajuda inesperada, indesejada e que traz consigo métodos muito pouco convencionais.

100 Metros é uma história verídica de superação e, ainda por cima, tem uma enorme componente desportiva, portanto, tem todos os elementos para eu gostar. Inspirou-me, emocionou-me profundamente e fez-me ganhar uma admiração enorme por este homem que teve de combater tantas adversidades. É um campeão.

Uma produção espanhola - que conta com alguns actores portugueses que, se me permitem o spoiler, não trazem absolutamente nada de relevante ao filme - que prova que podemos chegar lá, que podemos fazer aquilo que ambicionamos e que nada nos pode parar se tivermos a coragem, força, mente e apoio certos para conquistar as nossas metas e objectivos. Incrível.

segunda-feira, 10 de abril de 2017

ISTO É TÃO INÊS || 23 Sonhos Realizados Antes dos 23


Não me canso de dizer o quanto sou privilegiada, grata e feliz por todas as coisas que pude viver. Por todos os momentos que pude experimentar, por todas as memórias que me foram possíveis criar. Falta-me viver muito, riscar muitos sonhos, descobrir novas aventuras mas, às vezes, dou por mim a ter esta reflexão comigo própria: do quanto eu sou feliz a fazer e concretizar coisas que me fazem sentir realizada e grata. E queria dividir isto; os imensos sonhos que já pude realizar antes dos 23 anos... Caraças...

domingo, 9 de abril de 2017

VÍDEOS || Os vlogs da Luísa

A maioria de vocês já sabe que eu não sou fã de vlogs. Acho-os, na maior parte das vezes, conteúdos irrelevantes. A única excepção que abro é para viagens, especialmente os vlogs de viagem da Luísa Accorsi.

Recentemente ela esteve em Myanmar - um lugar que quero muito conhecer - e, além de já me derreter para o perfil de Instagram dela (que, por sinal, deviam seguir @luisa.accorsi), fiquei conquistada pelos seus registos de viagem, nestes vídeos. O conteúdo está interessante, encantador e muito enriquecedor. Tem muito do que eu procuro saber, quando planeio uma viagem.

Se gostam dos relatos de viagem que faço aqui, no Passaporte, então recomendo-vos que vejam este conjunto de vlogs de Myanmar que vou deixar aqui em baixo. É inspirador, belo e nada maçador. A Luísa faz com que meros vlogs de viagem se convertam em bonitos e delicados diários de bordo.





sábado, 8 de abril de 2017


Apesar de, na sua recta final, nos ter presenteado com o regresso do Inverno, Março foi muito bom connosco. Foi bom comigo. Trouxe os dias de Sol, o calor, uma viagem, aniversários e dias mais longos. Como sempre, há de tudo um pouco e tenho tanto para vos mostrar! Vamos lá rever tudo o que de bom veio com este mês?

sexta-feira, 7 de abril de 2017

PASSAPORTE || Lago Retba, Senegal


Existem, no mundo inteiro, apenas oito lagos cor-de-rosa - pelo menos que estejam publicamente oficializados - e o Senegal tem um deles. Claro que, assim que comecei a planear a viagem, fiz questão de saber como lá chegar.

O lago Retba, mais conhecido entre os locais como Lac Rose, é enormíssimo e localiza-se na península de Cap Vert, muito perto do deserto de Niaga que, numa futura publicação, também merecerá o seu tempo de antena. Ganha a sua característica e lindíssima cor rosa (muitas vezes avermelhada) graças à Dunaliella salina algae, embora a concentração deste halófilo varie ao longo de toda a extensão de água e faça com que nem toda a superfície do lago adquira as mesmas tonalidades. Consoante a estação do ano e as condições climáticas, o lago pode ficar mais rosa, mais avermelhado, ou simplesmente azul.

Importante referir - embora eu considere isto um facto óbvio, sei que não é de conhecimento universal - que as imagens que vêem por todo o lado de lagos rosa (de todo o mundo) não têm aquela aparência de iogurte líquido de morango. Uma breve pesquisa no Google sobre lagos cor-de-rosa fará com que percebam o que estou a explicar. Estas "edições" fazem com que muita gente chegue a estes verdadeiros tesouros e olhe para eles com desilusão (afinal de contas, não era um Suissínho gigante). Felizmente, não foi um sentimento que partilhei porque já estava preparada e porque acho que estes lagos são tão raros que o simples privilégio de poder ver e nadar num já satisfaz os meus sonhos.


Mas o lago Retba não ganha apenas um galardão especial de pink lake. Este é, também, o segundo lago mais salgado do mundo, apenas ultrapassado por um que existe na Antártida que é mais 4% salgado que o Retba. Portanto, colocando isto numa perspectiva de probabilidades, este é o lago mais salgado do mundo que terão boas chances de ver e nadar. E o Mar Morto?, perguntam vocês. O lago Retba é cerca de 7% mais salgado que o Mar Morto. O que significa que, sim, também vão flutuar perfeitamente nas suas águas.

Devido a estas concentrações salinas gigantescas, é o local perfeito para a extracção de sal, e a paisagem tem tanto de fascinante como imponente. Num dos recantos do lago, podem observar verdadeiras montanhas de sal, que conferem ao horizonte uma sensação de neve que brilha à luz do Sol. É o resultado da extracção diária feita pelos locais com a ajuda de pirogas - o barco típico do Senegal - onde vão colocando as pedras de sal. A concentração é tal que, na beira do lago, encontram verdadeiros cristais que grudam na areia, nos barcos e em tudo o que se encontre ao seu alcance.


A água é extraordinariamente quente e, como já referi, podem nadar no lago, embora seja aconselhável que não tornem a exposição muito prolongada devido aos efeitos de tamanha concentração salina na vossa pele. Uma das precauções que os extractores de sal têm é colocar manteiga de Karité no corpo, de forma a criar uma barreira gordurosa e protectora. Aliás, em todos os mercados que passarem, vão encontrar manteigas de Karité à venda.


Não consigo conter o entusiasmo que é poder ter visto e nadado num lago rosa. Desta aventura inesquecível, trago um saco de cristais de sal que uma senhora nos ofereceu, durante a visita, e uma concha que apanhei durante os meus mergulhos e que estava há tanto tempo exposta à água que ficou muito rosa no interior. É um momento e uma visão única. 

quarta-feira, 5 de abril de 2017

LIVROS || A Breve História de Quase Tudo


A Breve História de Quase Tudo é o manual de Biologia, Geologia, Física e Química que eu gostaria de ter estudado, na escola. Eu já referi n vezes que sou interessada por, basicamente, tudo, e adoro aprender mais mas sempre tive, especialmente durante o Secundário, a sensação de que os manuais de ciências (todas as que referi lá em cima) eram enfadonhos, pouco interessantes, com o mínimo essencial para marrarem para os Exames Nacionais e com o absurdo poder de tornar acontecimentos extraordinários em processos aborrecidos e de transformar figuras completamente imperfeitas em verdadeiros senhores da genialidade e perfeição. Portanto, vocês não conseguem imaginar a felicidade e gratidão que eu tenho por ter lido um verdadeiro guia da ciência que em nada se assemelha a uma manual científico escolar.

A Breve História de Quase Tudo é, literalmente, a breve História de quase tudo mas, para que eu não seja redundante, é um livro sobre a História da ciência e que está ao alcance de qualquer um. É uma obra para amantes e estudantes das ciências mas também para qualquer outra pessoa que nunca as tenha estudado, mas tenha interesse em aprender mais. Isto porque Bill Bryson reuniu os elementos certos para escrever um livro com este peso intelectual; a linguagem é completamente acessível e divertida (sem ser infantil), a informação é bem explicada e a leitura flui de uma forma muito uniforme e tranquila.

Vão ler sobre átomos, Big Bang, dinossauros (e a sua extinção), genética, leis da física, o tamanho e peso da Terra, meteorologia, o fim do mundo, doenças, vida noutros planetas, as várias espécies que já estão extintas e a evolução, vulcões, as estrelas, os elementos químicos, continentes e mais um milhão de outros assuntos. Certo, e no que é que difere dos mil manuais que já tive de estudar e dos mil documentários que há por aí? Porque apresenta-vos todos estes temas numa roupagem completamente diferente. Não mostra apenas os factos, conta como é que chegaram lá, responde a perguntas que nos fazemos e que nunca aparecem em manuais, expõe as novas questões da ciência actual, coloca-nos em cenários hipotéticos que já pensámos montes de vezes O que faria? e, acima de tudo, fala também sobre as grandes cabeças da ciência de uma forma humana, como nunca antes tinha lido. Dá uma perspectiva mais imperfeita e natural às personalidades da ciência que tanto ouvimos falar (especialmente num pedestal) e que estavam muito longe de serem as pessoas que vocês quereriam convidar para um jantar. Partilha os detalhes biográficos necessários para que ganhem mais bagagem sobre o assunto sem que o autor se divague ou exagere na informação. Está tudo dentro dos limites certos.

Acredito - especialmente se são de ciências e sabem como isto realmente funciona - que estejam com a cabeça à roda de tantos temas e pessoas englobados num só livro mas, como já referi, a leitura é acessível e fluída. Não há transições bruscas, cortes inesperados de tema, pontas soltas que confundem, relações despropositadas e toda a narrativa é muito divertida, cheia de apontamentos de humor e que revela muitas das ironias do mundo científico. Sem que se dêem conta, vão passando de uma tema para o outro, de uma personalidade para a outra e é esse o segredo para este livro ser tão delicioso; é intelectualmente estimulante, educativo, impressionante e que flui como um romance porque não apresenta uma ciência crua e apenas factual mas também vai ao encontro das nossas indagações mais profundas.

E como sabes que alguém que não é de ciências consegue ler o livro, se és de ciências? Não é uma afirmação um bocado dúbia? Porque eu fiquei tão maravilhada com este livro que tenho andado obcecada a partilhar com toda a gente que está ao meu alcance. O saber não ocupa lugar e este livro é muito importante para qualquer pessoa que tenha o mínimo interesse em saber. Em aprender. E já o recomendei a diversos amigos, que já leram e adoraram, desde amigos do mundo das artes, história, letras, gestão, cuja última ciência em que tocaram foi na do 9º ano e no Planetário, se tanto. 

Há livros que se devem ler, pelo menos, uma vez na vida. E se eu tivesse de fazer uma lista destas, este livro estaria no primeiro lugar. Foi o livro mais interessante que já li na minha vida inteira e sinto-me tão mais informada, compreendo tão mais facilmente certos temas, sinto-me com mais bagagem. É uma obra cuja única desculpa que podem dar para não ler é, simplesmente, o puro desinteresse pela temática. E, nesse caso, nem sonham (mesmo!) o que estão a perder.

Autor: Bill Bryson
Número de Páginas: 477
Disponível na WOOK (ao comprares o livro através deste link, estás a contribuir para o crescimento do Bobby Pins)

terça-feira, 4 de abril de 2017

PASSAPORTE || Reserva de Bandia


Admito que, embora reconheça algumas das vantagens dos Jardins Zoológicos, não morro de amores por eles. E fui com um pé atrás para a Reserva de Bandia, receando que pudesse encontrar algumas das particularidades que não gosto num Zoo.

A Reserva de Bandia é gigantesca e caracteriza-se como um refúgio para animais selvagens. Converte-se num lugar essencial, para as espécies que abriga, porque as protege, já que a maior parte delas é insistentemente caçada pelos seres humanos.


O corno dos rinocerontes é cortado como forma de protecção contra os caçadores que os procuram para ficarem com esta parte do animal. Muitos supersticiosos acreditam que o corno dá sorte. O corno volta a crescer.
Em Bandia, os animais recebem a menor intervenção humana possível, para que possam viver de uma forma mais natural. Só existem três excepções a esta regra: quando estão doentes (recebem tratamento veterinário), quando uma fêmea vê a sua gestação em risco porque não consegue obter, facilmente, comida - devido às secas ou às cheias, por exemplo - (recebe reforço alimentar para que possa prosseguir com a gravidez) e as únicas duas espécies carnívoras de toda a Reserva, hienas e crocodilos, cujo o seu espaço tem uma cerca e têm intervenção humana na sua alimentação para que, evidentemente, não cacem os outros animais da Reserva.


A visita à Reserva é feita num jipe de caixa aberta, como num Safari e, sendo animais selvagens, este tipo de visitas é sempre um jogo na lotaria: podem encontrar imensas espécies ou podem não encontrar nenhuma, embora os guias tenham alguns pontos de referência que, quase sempre, garantem que avistemos alguns animais (como a passagem por lagos ou determinadas espécies de árvores, por exemplo). Nós tivemos muita sorte e encontrámos de tudo; javalis, macacos, pássaros do deserto - absolutamente lindíssimos -, girafas, búfalos, avestruzes, rinocerontes, zebras, antílopes (aliás, assisti a dois antílopes machos a lutar pelo território e foi um momento completamente marcante e fascinante) e, claro, as hienas e crocodilos. 



As zebras são também uma espécie bastante protegida, na Reserva, porque as suas peles são um elemento de desejo por parte dos caçadores
Desenganem-se se pensam que vão viver a mesma experiência que vivem numa visita ao Jardim Zoológico. É muito mais genuíno, é muito mais intenso e impõe muito mais respeito. São animais que não estão demasiado habituados a humanos e olham-nos com desconfiança, com imponência. Numa parte da visita, pudemos sair do jipe para ver algumas Baobab e conhecer a história dos trovadores - que vou contar mais à frente - e, inesperadamente, uma girafa macho atravessou-se nos nossos caminhos. Foi o momento mais assustador e empolgante que já pude viver, ver um animal gigantesco passar diante de mim, em toda a sua imponência e indiferença por todos nós, e eu a tão poucos passos de o tocar. Em Bandia eu senti que todos os animais eram maiores, mais confiantes e mais genuínos.



A Reserva tem também um restaurante onde podem comer enquanto olham para o lago dos crocodilos e onde também vão encontrar estes macacos, que fazem parte da Reserva, mas que são muito atrevidos e gostam de conhecer as pessoas
É também nesta Reserva que falam sobre os Baobab e a história dos trovadores. Há muitos anos, o Senegal considerava os trovadores pessoas sagradas, por conterem o poder das palavras. Como eram preciosos, não queriam enterrar um trovador como o resto dos comuns mortais - na terra -. Queriam que ele estivesse elevado do chão e foi nos Baobab que encontraram a solução, devido às suas raízes cheias de cornucopias que formam inúmeras grutas dentro da própria árvore. Os povos enchiam a gruta com folhas de palmeira e enterravam, assim, o trovador. Rapidamente os Baobab ficaram conhecidos como os Poços de Palavras mas também ficaram sufocados de esqueletos, já para não falar da contaminação das águas. A prática passou a ser, há umas décadas, proibida por lei mas esta tradição mórbida tornou-se num dos detalhes que mais dá protagonismo a esta árvore.


O bufalo africano é considerado um dos mamíferos mais perigosos. Impõe respeito de tal forma, que até os próprios leões têm medo de os caçar!
Foi uma visita inesquecível e que nos coloca frente-a-frente à Natureza de uma forma que jamais tinha estado, antes. Nunca fui muito apegada ao BBC Vida Selvagem nem, como já vos referi, a maior fã de Zoo, mas esta experiência ultrapassou todas as minhas expectativas e considerações. Marcou-me.

Quando refiro que os carnívoros, como os crocodilos, ficam cercados, a sua área de circulação não é, de todo, pequena - como em alguns Zoos -. Tudo o que estão a ver nesta fotografia (e muito mais além) faz parte da área exclusivamente reservada aos crocodilos. Têm muito por onde andar, nadar e explorar!