Durante a nossa visita ao
deserto de Niaga, o meu guia sugeriu-nos que visitássemos uma pequena aldeia que existia...
no meio do deserto. Só esta declaração fez o meu coração parar. Como era possível tal coisa?
A aldeia Beunoba é de etnia Pular e encontra-se, literalmente, no meio do deserto. E foi chocante. Assim que parámos o jipe, encontrámo-nos com o chefe da aldeia, que rapidamente nos fez uma pequena introdução sobre Beunoba e fomos atropelados por dezenas de crianças pequenas que nos pediam para darmos a mão, abraços, ou para nos mexerem no cabelo. Imediatamente solicitou que não déssemos qualquer tipo de dinheiro (uma razão que, numa outra publicação, vou explicar). A aldeia é marcada por uma pobreza extrema e são muito poucas as casas que têm paredes de cimento. As que têm, carecem de tecto. A maior parte é composta por pequenas cabanas.
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| Sei que não parece mas isto é um conjunto de casas e "jardins". Esta área já é bastante "moderna" |
A visita consistia em conhecermos os aldeãs e vermos as suas casas. As fotografias eram permitidas mas recusei-me a tirar fotos ao interior das casas porque acho que a privacidade é um direito inviolável. Não é porque eles desconhecem ou o permitem que nos dá o direito de pisar. Aliás, eu fiz questão de apenas tirar fotografias às pessoas que nos pediam que lhas tirássemos. Eu respeito muito a identidade de um lar e de uma pessoa, pelo que todas as fotografias que vão encontrar nesta publicação são das fachadas e "jardins" das casas e das pessoas que, como já foi referido, pediram que as registássemos em fotografias.
Nada do que eu possa escrever irá conseguir transmitir, a 100%, todo o choque e contraste que senti e vivi. A cozinha não era maior do que uma casa de banho de visitas, sem qualquer saneamento básico e com moscas em todos os recantos. Até há bem pouco tempo, cozinhavam utilizando estrume de vaca como combustível. Os quartos são minúsculos e desprovidos de nada. Conseguem imaginar viver num mundo em que nada no exterior expressa a vossa identidade, os vossos gostos, os vossos sonhos?
Na aldeia, existem poços com água, a única fonte para poderem beber. Como não é potável, têm de adicionar pequenas quantidades de lixívia. Sim, lixívia. Os pátios e jardins estão cobertos de gatos e lixo. Em cada recanto das barracas e cabanas, há uma série de tijolos de cimento partidos, de restos de embalagens de plástico e outras tralhas amontoadas e esquecidas.
Num dos quartos, estava um pequeno bebé a dormir. Era o segundo de uma rapariga de 25 anos lindíssima, que está nesta foto acima. O pai do bebé tinha acabado de fazer 20 anos e esta é a sua quarta mulher.
Como estava com
o meu guia Souleymane, que me traduzia para português tudo aquilo que o chefe da aldeia ia dizendo, senti-me muito confortável para conseguir ter um diálogo e fazer as perguntas que invadiam a minha mente. Aliás, é por isto que eles aguardam: satisfazer a vossa curiosidade. Responder às vossas perguntas. E eu disparei todas as que pude. Perguntei como faziam se alguma criança ficasse doente, se fosse necessário ir ao hospital. Existe um, fora do deserto, mas o caminho a percorrer é longo e exige que o motivo valha a pena. Também têm uma escola no meio da aldeia.
E uma das perguntas que mais tinha urgência em saber era como podíamos ajudar ou contribuir, se eles não aceitavam dinheiro. E esta aldeia tem a solução: um pequeno mercado de artesanato, onde as crianças e adultos fazem as suas criações e invenções que podemos depois comprar. Todo o dinheiro é revertido para a saúde e educação da aldeia. Isto faz com que as crianças continuem a valorizar a educação e que trabalhem o espírito criativo.
Já estávamos quase de saída quando, num dos pátios, vi uma casa com paredes de cimento, mas a céu aberto. Não tinha portas nem nada no seu interior a não ser terra batida e uma dezena de crianças reunidas em volta de um tabuleiro de alumínio que tinha arroz e um possível molho de tomate. Comiam com as mãos, sôfregas e esfomeadas.
Eu sei. Não dá vontade de ler ou ver. Não dá gozo de saber. Chega a ser violento, até. Mas é uma realidade que temos de ver e ler mais. Quanto mais não seja, para sermos ainda mais gratos por todos os privilégios que temos na vida. Pelo conforto que temos. Durante toda esta visita, as pessoas olhavam para mim como se fosse uma pessoa cheia de respostas, conhecimento e sucesso. Mas eu sentia que aprendia muito mais ao lado delas do que elas comigo. A única coisa que conseguia pensar era "O que tenho eu para dizer a estas pessoas? A estas crianças? Que estão onde quiserem estar? Quão hipócrita seria eu?" porque sentia-me assim, se o dissesse. Eu estou onde quero estar porque tenho o conforto e privilégio (em todos os sentidos que possam imaginar) para o fazer. Uma mulher da minha idade, naquela aldeia, não está onde quer estar com a mesma facilidade que eu. Eu falo de barriga cheia. De acesso facilitado. Eu começo a imaginar tudo o que estas pessoas teriam de ultrapassar para seguirem os seus sonhos e fico sufocada de silêncio. E é por isto que eu admiro muito o guia que estava comigo. Ele conseguiu seguir os seus sonhos e lutar por eles. Só que eu sei que tudo o que ele teve de fazer para estar onde está, agora, foi muito mais do que seria exigido a um qualquer estudante de Turismo, como ele um dia já foi.
Não é um relato cor-de-rosa e não sei como o concluir. Senti-me desolada mas, curioso, nenhuma criança partilhava o meu rosto de tristeza; todas tinham uma energia inesgotável, todas sorriam, brincavam e partilhavam. Para elas, aquilo parecia ser o paraíso. E talvez seja porque nunca conheceram outro. Não sinto que lhes tenha acrescentado nada. Não sinto que faria qualquer diferença na vida delas porque não sou nada ao lado delas. Fiz questão de contribuir o máximo que pude no mercado, onde comprei a minha piroga decorativa, o meu hipopótamo de madeira e algumas estátuas e porta-chaves. Mas eu sinto que saí de lá com enormes lições de cada um deles. Aprendi a agradecer mais. A relativizar, ainda mais, os meus problemas. A compreender ainda melhor que eu tenho uma vida maravilhosa. E digo tudo isto sem vaidade mas sim com uma enorme percepção e gratidão. Porque os nossos pais diziam "Há crianças a morrer à fome, em África" mas, por mais que vocês oiçam e compreendam, nunca o vão entender realmente até verem no rosto delas.