Começo esta minha dissertação com um facto inegável sobre a minha pessoa:
tenho ancas e rabo.
A verdade é que não nego ser a maior estrelicadinha do planeta, a maior canivete e magricela mas, queria Deus assim, o meu rabo e as minhas ancas não se quiseram juntar ao "team no curves" que paira no resto do meu corpo, cravando a atenção que as outras partes jamais terão. É inegável que digam o contrário.
Ultrapassada esta afirmação, vamos então passar para a verdadeira afirmação que interessa para este post: eu detesto comprar calças. Culpa? Da afirmação lá em cima.
Sei que não é uma opinião partilhada e que, para muitas mulheres, é a melhor parte de fazer compras: a textura das gangas e outros tecidos, a forma como assentam nas nossas pernas e fazem com que assumamos uma postura ou figura diferente, a segurança com que assentam no nosso rabo e metem tudo no lugar, os mil outfits (sim, eu escrevi outfits, fotografem isto porque tão cedo não se irá repetir e eu posso vir a apagar o post por engano) que vão combinar com as calças... Parece um sonho feminino, right? Para mim não. É uma luta constante por 4 partes da fisionomia feminina: umas calças que sirvam nas ancas, nas coxas, nos tornozelos e ainda que tenham a minha altura. Na maior parte das vezes, dois destes parâmetros têm de ir ao galheiro. Todas sabemos quais são.
Há uma proporcionalidade directa entre as minhas visitas a lojas para comprar calças e o meu ódio por elas: quanto mais vezes eu vou procurar calças para mim, mais certeza eu tenho de que as lojas nunca na vida viram a perna de uma mulher. É como as estátuas femininas de Michelangelo: vocês já viram a forma como ele representava as mulheres? Ninguém me vai tirar da cabeça que é ele que fabrica as calças.
Esta sou eu a entrar numa loja, à procura da ganga dos meus sonhos. Assim que a avisto, começo na demanda do número. Primeiro parâmetro: a anca. Tem de assentar na anca. E por isso não pode ser um número muito baixo. E é por isso que, ao experimentar um tipo de calça eu tenho de levar 15 mil números diferentes comigo.
E lá vou eu para os provadores. Primeiro o mais pequeno. E vamos rezar que não aperte na coxa que, Deus do Desporto foi querer, não é fininha. Passa? Não passa? Vamos tentar o número maior. Ups, passou na coxa mas cabiam 12 de mim iguais na anca. Desistimos das calças.
Procuro, então, outras do meu agrado. Processo igual. Agora sim, assentam magnificamente bem nas coxas, estão impecáveis nas ancas. O problema? Eu tenho tornozelos esqueléticos e tenho umas calças a nadar cá em baixo. Oh, e como o tamanho era maior, eu tenho calças infinitas a seguir ao meu pé que vou ter de estar sempre a dobrar se não quiser parecer um trolha com um calhamaço de calças na bainha.
Normalmente é aqui que eu tiro as calças na minha maior revolta e dou por mim frustrada. Toda a gente adora os fabulosos traseiros brasileiros ou as ancas espanholas, mas as fantásticas lojas de roupa ainda pensam que todas as mulheres do planeta são iguais a rectângulos.
Podem dizer-me agora que há o modelo x na loja y e a nova colecção da w mas eu não quero saber! Eu sou mulher, eu tenho curvas e mereço ter umas calças que me assentem dos pés às ancas (e porque não cabeça) sem parecer que sou um homem das obras no fim. Sou pequena e tenho curvas! E irrita-me que só façam formas de calças (que são elásticas mas quem tem o mesmo problema que eu sabe que isso é uma treta) para quem tem 15 metros e não tem ancas. Ora!
Saio sempre na maior frustração quando vou comprar calças, especialmente quando tenho crises furiosas no provador, com mil calças espalhadas no chão e nenhuma que me faça sentir a maior Beyoncé. Aliás, eu penso que a Beyoncé faria o mesmo escândalo que eu com as calças porque também ela passará pelo mesmo. E é então que eu olho para as minhas velhas calças penduradas no provador, compradas numa maré de sorte entre as 20 mil calças que nunca gosto, que passaram no meu olho clínico e visto-as. Já assumem a minha forma e visto-as na perfeição. Assentam nas coxas e abraçam-me a anca. Fazem-me um rabo fabuloso e, por sinal e sorte minha, têm o comprimento mais que perfeito, no tornozelo. E olho para as outras calças "vêem? esta tem o que vocês nunca terão" e recupero a minha auto-estima. Pego na montanha de calças que vesti e devolvo-as ao rapaz que controla os provadores com um ligeiro prazer de que serão eles a arrumar. Fazem calças impossíveis para mulheres com curvas? Pois eu dou-vos mais uns minutos de trabalho a pô-las em cabides e no devido lugar. A derradeira vingança feminina.
Talvez com este post agora pensem que eu sou uma pessoa disforme, um quasimodo da parte de baixo, mas não se deixem enganar: eu adoro as curvas que tenho! Adoro o meu rabo e ancas e não os trocava por nada neste mundo! O que eu não adoro é não ter calças para os vestir!
O melhor que podia acontecer a uma mulher com uma perna esculpida era ter um alfaiate pessoal que lhe criasse AS calças: as calças que iriam sempre servir-lhe na perfeição.
A segunda melhor coisa que podia acontecer a uma mulher era ser a Beyoncé. Queria ver quem é que se recusava a refabricar umas calças sem formas para aquelas pernas de diva (com rabo brasileiro e ancas espanholas). Vamos aguardar milagres.